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Uma aula de história com o professor arroio-tigrense, Ricardo Seitenfus

Professor e doutor em Relações Internacionais partilhou suas experiências com os estudantes | Foto: Gisele Machado

Por telefone, recebi o convite do professor Ricardo Seitenfus para ouvir uma palestra em meio à programação do Dia do Estudante do Colégio Sagrado Coração de Jesus, de Arroio do Tigre. Me disse que seria uma oportunidade única de ouvir sobre a história de vida dele. Naquela manhã, a Gazeta da Serra esteve lá.

Das sete vidas que acredita ter (assim como os gatos), algumas já diz terem sido gastas. Afinal, ao longo de 73 anos, já passou por muitas experiências no Brasil e fora dele. Das lembranças que dividiu com os alunos, nessas linhas está parte da trajetória do arroio-tigrense, atualmente professor da Faculdade de Direito de Santa Maria (Fadisma), bastante solicitado pela imprensa nacional nas últimas semanas para falar sobre um assunto no qual é especialista: o Haiti.

Ricardo Seitenfus, doutor em Relações Internacionais, é neto do médico Reinaldo Seitenfus (in memoriam), fundador do Hospital Santa Rosa de Lima e de Laura Seitenfus (in memoriam), que ajudou a fundar o Colégio Sagrado Coração de Jesus. Foi nesta instituição que Ricardo iniciou a trajetória estudantil, passando também por Sobradinho e Porto Alegre. “Depois disso me passou pela cabeça que o meu mundo era muito pequeno, e que eu deveria ver outras partes do mundo”, destacou o professor, ao iniciar a fala para os estudantes de oitavo e nono anos, cuja troca de conhecimento considera especial.

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Foi ainda na juventude que Seitenfus decidiu ir para a Europa estudar, mesmo sem ter condições financeiras. “A vida também é uma aventura, uma incógnita, é um ponto de interrogação. Fui primeiro para Portugal. Era final dos anos 1960, início dos anos 1970, havia um mundo que estava sendo transformado na época. Se fala da ruptura dos anos 1970, com surgimento das drogas, hippies, feminismo, surgimento da contestação. Maio de 1968 a juventude se revolta e há um movimento muito sério, não de mudança política, mas de mudança que a gente chamaria de societal, de princípios básicos que regem a sociedade humana. Era um mundo em transformação, e a América Latina passava, inclusive o Brasil, por um momento muito difícil de ditadura militar, então muita gente, intelectuais, professores, artistas, tiveram que ir embora daqui, e a maioria ia para a Europa, sobretudo para Paris, ninguém ia para Genebra”. E foi justamente para a capital da Suíça que Seitenfus decidiu ir.

Segundo ele, a escolha de poucos por Genebra se dava devido a ser uma cidade burocrática, de grandes organizações internacionais. “Um lugar maravilhoso para estudar. E eu queria estudar. Cheguei lá no início de 1969, sem conhecer ninguém, com 20 dólares no bolso, o que daria algo como R$ 100,00. Eu fui sair de lá em 1981, doze anos depois, com uma graduação, mestrado, doutorado, uma esposa e três filhos”, lembrou o professor sobre a grande mudança que Genebra o propiciou através do estudo.

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Na tese de doutorado, Seitenfus escreveu sobre o processo de entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Para tal, chegou a ir à Alemanha, quando ainda dividida entre Leste e Oeste, tendo acesso a arquivos diplomáticos muito restritos naquele país e também na Itália. Uma parte do trabalho aprofundado se transformou em livro, que esgotou nas primeiras edições. Esse, porém, foi apenas um entre os 35 livros que contabiliza ao longo da carreira.

Dos conselhos deixados aos alunos que desejarem seguir na pesquisa, buscar a originalidade é o que ele considera fundamental. Também disse a eles que cada escolha levará a momentos bons e outros mais difíceis, mas que “não será somente uma vida maravilhosa ou horrível”. Foi assim que, ao retornar a Arroio do Tigre, voltou com a bagagem repleta de histórias. “Sou o primeiro doutor em Relações Internacionais de nacionalidade brasileira, tenho uma responsabilidade moral, não legal, com minha formação, com o que vim fazer nesta vida. Fiquei dividido entre acompanhar minha família na Suíça, ou ficar aqui e enfrentar uma vida para a qual me preparei, que era estudar fora e voltar ao Brasil”, enfatizou. Na trajetória, aulas em universidades no Rio Grande do Sul, São Paulo, Paris, em Genebra, além de participações em muitos eventos.

Ricardo Seitenfus durante palestra no Colégio onde estudou na infância | Foto: Gisele Machado

A ligação com o Haiti

Em 1993, Seitenfus foi convidado a fazer parte de uma missão de observação sobre os direitos humanos no Haiti. Faltavam seis meses para se transferir da USP para a UFSM, o que lhe aproximaria da casa, em Arroio do Tigre. “Quando fui para o Haiti, em uma missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) e Organização das Nações Unidas (ONU), em abril de 1993, pensei: ‘vou para o Caribe, praia, um lugar maravilhoso, fazer anotações, observações e ir embora’. Eu tinha pouco conhecimento sobre o Caribe”, contou, destacando que é um lugar de pessoas muito simpáticas, mas de uma extrema pobreza. “Eles são artistas em tudo, no trabalho manual, pintura, na literatura, e inclusive na sobrevivência”, enfatizou, ao pontuar as diversas tragédias que por lá se sucederam. “Passaram-se dez anos, continuei trabalhando e fui eleito membro do Comitê Jurídico Interamericano, mas o pessoal sabia que eu tinha interesse sobre o Haiti, que havia escrito um livro sobre o país. Então, em 2004, em mais uma crise, o Brasil decide enviar tropas para lá e não tinha ninguém especializado em Haiti”, contou sobre o momento quando foi convidado para ir periodicamente ao país.

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No fim de 2008, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil o convidou para ir ao Haiti através da OEA, para ter uma atividade profissional. “Precisava olhar para frente, sem olhar tanto para os lados, para os problemas infindáveis que os cercam, pois se não, não faria outra coisa”, destacou ele sobre a experiência. Ao estudar cada vez mais sobre a história do país, a considerou fascinante, fixando uma frase: “o Haiti tinha razão, mas teve razão cedo demais, um século e meio cedo demais”, ao se referir à Independência em 1804, bem antes da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

No terremoto de janeiro de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas, Seitenfus estava de férias em Arroio do Tigre. Ele recorda-se bem da notícia. “Tocou meu celular. Era uma amiga minha de São Paulo. Ela me perguntou onde eu estava. Ao responder ‘em Arroio do Tigre’, ela disse ‘ainda bem, pois acabou de ter um terremoto em Porto Príncipe. Eu falei: não brinca comigo, aquela desgraceira que está lá e agora mais um terremoto. Fui para a internet. Resolvi voltar. Isso na terça. Na quarta-feira fui até o Rio de Janeiro e se preparou o ‘Sucatão’, um avião antigo, para levar bombeiros para os primeiros socorros, e eu embarquei e fui junto, na quinta-feira. Havia dezenas de aviões na pista quando chegamos. Foi quando liguei para uma amiga haitiana para saber como estava. Ela me contou da situação e me perguntou onde eu dormiria. Respondi que em casa. Foi aí que me falou que eu não tinha mais casa, pois meu edifício havia desabado e matou todo mundo. Não queria retornar para lá. Fui no sábado e fiz algumas fotos. Encontrei minha mala vermelha. A minha parte, que ficava no último andar, caiu toda”, recordou.

Atualmente, o Haiti vive, novamente, dias difíceis. Após ter o presidente assassinado e toda instabilidade política instaurada, um recente terremoto e uma tempestade tropical deixaram mais de dois mil mortos e milhares de desalojados. “Além dos problemas políticos, estruturais, de subdesenvolvimento, de falta de perspectiva com relação a educação, ao emprego, ao salário e a uma estabilidade, há dois problemas recorrentes no Haiti. Um problema sísmico, que historicamente provoca terremotos e, além disso, problemas climáticos. O Caribe é um paraíso, céu azul, no entanto, de junho a novembro se formam furacões no Oceano Atlântico que vão em direção ao Caribe, provocando muitos estragos em regiões habitadas. Diria que os haitianos estão entre a cruz e a espada, quando constroem suas casas. Com telhado normal, vai voar com os ventos. Com chapa de concreto, como decidiram construir, são muito pesadas, não voam, mas caem quando há terremotos, matando muitas pessoas. Como não há um estado forte que decida sobre as construções e cada um constrói como bem entende, há sempre este drama”, enfatizou o professor, que segue acompanhando os acontecimentos.

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