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SEGURANÇA

Violência contra a mulher: trabalho da polícia vai além da investigação

Foto: Alencar da Rosa

Delegada Lisandra entre as psicólogas Patrícia e Andréa: atendimento diferenciado para evitar a revitimização das mulheres

O Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher é celebrado anualmente em 25 de novembro, para denunciar a violência e exigir políticas para sua erradicação. Em Santa Cruz do Sul, a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) inova com um projeto de atendimento psicológico antes e depois do registro das ocorrências, com o objetivo de proteger as vítimas e ajudar o trabalho policial.

Segundo a titular da Deam e também da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), delegada Lisandra de Castro de Carvalho, o trabalho muitas vezes vai além da investigação. “Por estar tantos anos à frente da Deam, percebemos a importância do acolhimento às vítimas, que chegam muitas vezes sem saber que rumo tomar, vulneráveis e nessa instabilidade emocional”, conta. As mulheres costumam ter dificuldade para relatar os acontecimentos, sentem vergonha e culpa, muitas vezes após anos de relações tóxicas.

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O projeto foi desenvolvido e encaminhado à iniciativa privada e ao Poder Judiciário, para obter verbas para remunerar um serviço de psicologia. Com o aporte recebido, as atividades começaram em outubro, quando as duas psicólogas passaram a atender todos os dias da semana, já que antes trabalhavam apenas em dias específicos. De acordo com a delegada, todos os policiais possuem capacitação e qualificações para o atendimento das vítimas, mas não têm o mesmo preparo que um profissional formado em Psicologia.

A presença da psicóloga no ambiente tem o objetivo principal de evitar a revitimização. No entanto, a conversa antes do registro também auxilia no trabalho policial, aumentando a agilidade de atendimento e eficácia da prestação de informações durante o registro. “O atendimento psicológico desafoga o trabalho dos policiais. Se nós temos esse atendimento, temos mais tempo para focar na elucidação e busca de provas”, explica.

Desde o início do projeto, são realizados três auxílios psicológicos por dia e a tendência é que esse número aumente. A conversa ajuda a empoderar a mulher e cortar os vínculos de dependência afetiva.

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Uma forma diferente de ouvir e ajudar as vítimas

As psicólogas Andréa Inês Hermes, da Deam, e Patrícia Fagundes, da DPCA, já prestavam atendimento às crianças e adolescentes vítimas de abuso ou maus-tratos durante a escuta especializada e atuavam na mediação de conflitos entre vítimas de violência e agressores, além de desenvolver um grupo terapêutico para homens envolvidos em violência doméstica. Com a ampliação dos atendimentos, as psicólogas auxiliam as vítimas antes e durante o registro da ocorrência, além de realizar um acompanhamento posterior.

Patrícia atua no local desde 2015, fazendo a escuta especializada de crianças e adolescentes. “Antes de entrar a lei tornando-o obrigatório, em 2017, nós já tínhamos esse atendimento. Ele acontece em um espaço lúdico, com acolhimento, onde é possível abordar as questões de forma menos invasiva”, explica.

No caso da escuta especializada, apenas a psicóloga conversa com a vítima. A delegada ou um policial acompanha pelo computador, podendo fazer perguntas por meio da profissional. Também há o depoimento especial, na presença de um policial, nos casos em que é necessário o pedido de medida cautelar ou prisão.

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Em situações de conflito envolvendo a guarda dos filhos, visitas e até mesmo a separação, o recomendado pode ser a mediação. Durante a audiência conjunta, os envolvidos tentam resolver os problemas antes que haja uma escalada do conflito, resultando em ameaça ou agressão. Na mediação, o monitoramento é feito por ligação telefônica a cada 15 dias, por dois meses.

Conforme as psicólogas e a delegada, muitas mulheres procuram a delegacia em busca de orientação. Em alguns casos, a mediação pode resolver o problema, em outros é necessário encaminhar a pessoa aos órgãos competentes.

É possível entrar em contato com a Deam apenas para buscar informações, mesmo quando não é necessário o registro. Informações podem ser obtidas por telefone nos números 3715 6963 e 3717 4340, ou WhatsApp (51) 98416 4590.

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Grupos terapêuticos

Segundo Andréa Hermes, que trabalha na delegacia desde 2017, os grupos terapêuticos eram um anseio da delegada e são uma oportunidade de mudança para os agressores. Neste ano não foram realizados em função da pandemia, mas as atividades serão retomadas.

No ano passado, houve 45 encaminhamentos do Judiciário e apenas um caso de reincidência. Nesse espaço são abordadas questões transgeracionais e culturais, o respeito à mulher e questões de saúde do homem.

“Os grupos são um trabalho efetivo que vai além de punir, faz refletir e ter conhecimento de diferentes formas de violência, já que a maioria continua convivendo com a vítima”, conta a psicóloga. As atividades são determinadas pelo juiz e contam ainda com a presença de outros profissionais, como advogados, assistentes sociais e voluntários do Alcoólicos Anônimos (AA) ou Narcóticos Anônimos (NA), já que o abuso de substâncias é um fator determinante em grande parte das ocorrências.

Lisandra explica que os encontros ocorrem na Deam para existir um respeito ao ambiente, mas sobretudo porque a delegacia, apesar de ser conhecida como local de repressão, também é de prevenção.

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Como funciona

1 – Ao buscar atendimento na Deam ou DPCA, as vítimas passam por uma breve entrevista com as psicólogas.

2 – Em seguida passam à realização do registro, se for necessário. A psicóloga relata ao policial as informações obtidas, direcionando a lavratura do boletim de ocorrência.

3 – A polícia avalia a necessidade de medida protetiva e procede à realização do inquérito, reunindo as provas. A vítima pode ser encaminhada para a rede de proteção.

4 – Quando necessário, as psicólogas prestam atendimento posterior, se a vítima estiver muito fragilizada ou em risco.

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