DA TERRA E DA GENTE 30/06/2020 10h22

Pragas do alto

Realmente, depois de já se sofrer outra severa seca no Estado neste ano e de conviver não se sabe até quando com a famosa pandemia, seria demais enfrentar mais esta praga

“Só faltava essa agora!”. A reação partiu do mano Hugo Francisco (que fez 80 anos em maio nos altos do Bairro Santo Inácio, sem festa devido à epidemia do coronavírus) ao saber na semana passada que poderiam voltar ao Estado os temíveis gafanhotos, dos quais ele se lembra da infância, quando ajudava a combatê-los nas lavouras da Linha Eugênia, região de Monte Alverne, onde residia com os pais, irmãos e tios. Usavam paus com panos pendurados (em geral lençóis) para espantar os bichos e tentar evitar os grandes danos que causavam. Ele recorda de correr atrás dos insetos em plantação de batatinha, mas, quando os afastavam de um ponto, atacavam logo em outro, e era difícil vencê-los.

Realmente, depois de já se sofrer outra severa seca no Estado neste ano e de conviver não se sabe até quando com a famosa pandemia, seria demais enfrentar mais esta praga, que é capaz de impactar muito nos mais diferentes cultivos, devastando as plantas. O alerta dado já bastou para relembrar o que aconteceu quando ocorreram os últimos ataques de gafanhotos na região, nos idos de 1940. Registros feitos na Gazeta de Santa Cruz (depois Gazeta do Sul), em 19 de agosto de 1947, dão conta da passagem quase diária de nuvens compactas destes insetos pelo município, com notícias de prejuízos nas lavouras e nos pomares.

De Monte Alverne, o correspondente noticiava que a invasão alcançou “proporções jamais vistas no dia 14 de agosto. Nuvens e mais nuvens, que chegavam a escurecer a luz do sol, despencaram sobre as plantações e pastagens, nada havendo que lhes escapasse à voracidade”. A sogra Gertrudes Mohr, moradora do local, hoje com 91 anos, tem lembrança do fato e das ações que empreendiam, em grupos de adultos e crianças, na tentativa de tirar os bichos (os “Heuschrecken”, em alemão) das roças de alimentos e minimizar estragos. Também utilizavam grandes vassouras e o que estivesse à mão na luta contra os invasores.

O governo do Estado chegou a auxiliar os produtores, utilizando lança-chamas com alcance de 25 metros. Em mais momentos em que se registraram ataques (nos anos de 1917 e 1933), muitas outras instruções ainda eram dadas para o combate dos “acrídeos”, incluindo fogueiras que provocassem muita fumaça e aplicação de veneno caseiro nos ninhos de postura (como fizeram os moradores da Linha Eugênia, em 1947, e ajudou) e inclusive o uso de avião, um deles até apelidado de “gafanhoto”.

Os eventos davam ensejo a referências bíblicas: a praga aparece como uma das enviadas por Deus ao Egito para convencer o faraó a autorizar o retorno do povo judeu à Terra Prometida, e entre as atrocidades na visão de fim do mundo do Apocalipse. Pois, mesmo que fatos se repitam na história e seja difícil definir causas com exatidão, muitos sinais assustam sobre o futuro do planeta, e não custa cada um, em seu micromundo, em sua terra, fazer o melhor ao alcance para buscar afastar as pragas que teimam em nos alcançar. Parece mesmo já não faltar mais nenhuma.

LEIA MAIS COLUNAS DE BENNO KIST