Ideias e bate-papo 15/09/2017 08h38

SOS idosos

Falo de quase todos nós, que mantemos distantes muitas pessoas vistas como estorvo por terem lapsos de memória

Todos os meses contribuo com dinheiro para um asilo localizado em Canoas. Também separo roupas, objetos e calçados em boas condições, sem uso em minha casa, para que possam ser úteis para seus moradores. Além disso, ajudo na divulgação de um desfile de modas com os velhinhos de um lar de Novo Hamburgo que ocorre neste mês. Os idosos serão os modelos que vestirão roupas e acessórios de lojas e indústrias do setor.

Não se trata de gestos em proveito próprio. Afinal, aos 57 anos, estou atento e de olhos bem abertos no futuro porque – como costumo dizer – estou mais perto da bandeirada final que subir no pódio.

Trata-se de uma visão de injustiças porque é lamentável o descaso com que os idosos são tratados em nosso País. Isso é voz corrente. Aqui no Rio Grande do Sul, a postura é ainda mais grave porque exibimos os mais altos índices de longevidade.

Quando surgem notícias de ações que valorizam os velhos em qualquer lugar do mundo – como ocorre com frequência no Japão – nossa tendência é aplaudir, reconhecer que se trata de justiça, que é uma lição de vida. Mas poucas atitudes concretas são feitas.

Não pretendo falar aqui do tratamento concedido pela Previdência Social, ou seja, por homens e mulheres no poder que pagam verdadeiras merrecas àqueles que passaram a vida dando duro, produzindo riquezas. Falo de quase todos nós, que mantemos distantes muitas pessoas vistas como estorvo por terem lapsos de memória, exigir paciência para chegar à mesa de jantar ou demoram para tomar banho. Também nos falta calma para suportar a repetição de histórias “dos bons tempos”, como se nós, um pouco mais jovens, não incorrêssemos nesse comportamento de vez em quando.

Por breve período meu sogro de 87 anos morou em nossa casa, de onde saiu há 15 dias. Foi gratificante ver meus filhos de 21 e 23 anos atentos às histórias, causos e piadas das décadas de 40 e 50 em bairros de Porto Alegre. Sem reclamar, ficava em casa vendo tevê ou lendo jornais quando saíamos para trabalhar e às vezes nos acompanhou até num bar. Nunca reclamou da comida, do calor ou do frio. Todas as manhãs, Seu Pedro caminhava duas horas pelas ruas que forjaram sua infância e adolescência. Nessas incursões, teve o feliz reencontro com amigos “dos velhos tempos”. Isso o encheu de alegria, de uma energia que revitalizou seu Pedro, o técnico em eletrônica que por 40 anos consertou tevês, rádios, secadores de cabelo, aspiradores de pó.

Fica o exemplo de como aprendemos com os idosos enquanto prestamos assistência, amparo e amor. Assim, evitamos depressão, doenças e grandes injustiças através do esquecimento doloroso.