Transtornos 01/11/2019 06h27

Moradores do interior estão sem luz há três dias e precisam improvisar

Em Alto Boa Vista, situação é crítica na casa de homem que depende de equipamentos por problemas de saúde

O costume de ligar a luz no interruptor ainda acompanha Noemia Müller ao entrar em casa, em Alto Boa Vista, interior de Santa Cruz do Sul. A lâmpada da sala, no entanto, não acende desde a última terça-feira pela manhã.

A faxineira de 62 anos estava no trabalho quando recebeu uma ligação do marido, Enio Müller, de 72 anos, relatando uma queda de luz decorrente do temporal que atingiu a região nas primeiras horas daquele dia. Desde então, até a noite dessa quinta-feira, 31, a energia elétrica não voltou no ponto em que o casal mora, nas imediações da igreja católica da localidade.

Noemia diz que estaria tranquila se os únicos problemas fossem os banhos gelados, a escuridão à noite e as carnes, verduras e outros alimentos estragando na geladeira. Contudo, a energia elétrica é fundamental para ligar os aparelhos de oxigênio e nebulização que o marido precisa utilizar, depois de duas cirurgias para retirar tumores na garganta.

LEIA MAIS: Água invade pátios e bloqueia ruas em Santa Cruz

“Ele tem muita tosse durante a noite, falta de ar, e sem luz não temos o que fazer. É triste demais estarmos nessa situação desde terça. E o pior é que a gente sabe que eles não virão logo para religar a luz”, afirmou a aposentada, lembrando de casos em que demorou quase duas semanas até que a energia retornasse.

Diante dos percalços envolvendo a falta de luz na casa dos Müller, a solução foi improvisar. Sob a chuva fina do início da tarde dessa quinta, Noemia puxou a energia da casa da vizinha Sidônia Luedke com um rabicho de 50 metros, passando por uma valeta sob a terra na estrada de chão que a própria aposentada fez com as mãos, após ter pedido folga do trabalho para fazer o serviço. A residência da vizinha tem energia elétrica porque o transformador é outro.

Noemia Müller puxou luz da vizinha para a residência onde mora com o marido Enio

“Foi a maneira que encontramos para conseguir carregar um pouco o nosso celular e conversarmos com os filhos, ou mesmo ligar algum equipamento”, afirmou Noemia. A caixa de picolé que ela comprou para as netas também precisou ser levada para a geladeira da vizinha. Na noite de quarta-feira, o jeito foi levar o marido Enio à casa de Sidônia para que ele utilizasse o aparelho de oxigênio. O liquinho a gás, emprestado da patroa, é a única fonte de luz durante as noites.

LEIA MAIS: FOTOS: veja imagens da chuva pela região nesta quinta

Extensão e bateria para salvar a safra

A exemplo do casal Müller, Fabiano Cesar Stuelp, de 28 anos, também precisou puxar a energia de uma vizinha através de um rabicho para manter o freezer ligado. No fim da tarde de segunda-feira, ele e o pai carnearam uma vaca e um porco na propriedade, também em Alto Boa Vista. Na manhã do dia seguinte, entretanto, quando estavam cortando a carne para guardá-la no freezer, a luz se foi. “Ficamos atordoados com os quilos de carne que poderiam estragar. Felizmente conseguimos puxar a energia da vizinha para não perdermos o abate”, disse Fabiano.

O rabicho também garante o funcionamento da tecedeira de tabaco. Já para controlar a temperatura do forno de secagem, Fabiano instalou uma bateria. “Nossa renda vem da agricultura. Temos que nos virar de alguma maneira para não termos mais prejuízos”, comentou o agricultor, que entrou em contato com a RGE para falar do problema.

“Quando liguei, me questionaram se havia queda de poste ou árvore e se era só na nossa residência. Respondi que era geral e falaram que iriam verificar. Depois recebi um SMS dizendo que não identificaram a falta de energia aqui e pediram para eu checar o disjuntor interno. Avisei novamente que continuava sem energia e não obtive mais retorno.”

Stuelp ligou monitor do forno em bateria

Sem previsão

Do mesmo modo que em Alto Boa Vista, moradores de localidades como Rio Pardinho, Alto Paredão, São Martinho e Boa Vista, além de alguns bairros de Santa Cruz do Sul, também relataram à Rádio Gazeta que estão sem energia elétrica há dias. Em nota à Gazeta do Sul, a RGE afirmou que o trabalho das equipes nas últimas horas, somado à ausência de novos eventos climáticos severos na área de concessão, já permitiu uma redução significativa no número de clientes sem energia elétrica.

Segundo a empresa, os temporais da última madrugada atingiram, principalmente, as regiões do Planalto Médio, Serra e Campos de Cima da Serra. “Neste momento, as equipes atuam na recomposição da rede a fim de religar a energia a 95 mil clientes, concentrados, em sua maioria, nas regiões citadas”, disse a nota. Por fim, a RGE revelou que não é possível dar uma previsão de retorno da energia, que será restabelecida conforme os trabalhos forem concluídos. Conforme a empresa, é importante que as pessoas registrem a falta de luz mesmo que algum vizinho já o tenha feito.

LEIA MAIS: Moradores do Aliança e Distrito Industrial relatam falta de luz