MEMÓRIA 04/01/2020 18h54 Atualizado às 19h52

Queda de ponte em Agudo completa dez anos neste domingo

O desabamento, na divisa com Restinga Seca, vitimou cinco pessoas. Depoimentos resgatam a história

Um dia inesquecível. É a definição do 5 de janeiro de 2010 para os moradores de Agudo, município com cerca de 20 mil habitantes, na Depressão Central do Estado, a 96 quilômetros de Santa Cruz do Sul. Há dez anos, 150 dos 314 metros da ponte sobre o Rio Jacuí, no quilômetro 191 da RSC-287, cederam e provocaram a queda de 15 pessoas na água, exatamente às 8h51. O desabamento, na divisa com Restinga Seca, vitimou cinco pessoas: Nelo dos Santos, Renato Camargo, Denise Marion Dumke, Lori Ella Niemeyer Dumke e Hilberto Boeck, este vice-prefeito na época. Foram 11 dias de buscas, com uma força-tarefa para resgate de todos os corpos.

Conforme a Polícia Civil de Agudo, a conclusão do inquérito que apurou a queda da ponte foi a de que o nível do rio havia ultrapassado o limite que a estrutura tinha capacidade para suportar. Laudos técnicos e depoimentos de especialistas teriam indicado que a manutenção da ponte havia sido feita de forma adequada pelo Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), segundo o relatório do delegado Eduardo Flores Machado.

A nova ponte foi inaugurada pela governadora Yeda Crusius no dia 3 de dezembro do mesmo ano, com custo de R$ 53 milhões. O nome escolhido para a travessia foi o de Hilberto Boeck. A estrutura refeita passou a ter 423 metros de extensão e 13 metros de largura. Durante o período de construção, a passagem entre os dois lados era feita pela balsa Deusa do Jacuí. Dos cinco sobreviventes, dois já faleceram. Um deles, o agricultor Ildo Dumke, perdeu três familiares na tragédia: a esposa, a filha e o genro. Ele concedeu entrevista à Gazeta do Sul em 2015, cinco anos depois daquela fatídica terça-feira.

Relatos
Uma década depois do ocorrido, as memórias permanecem vivas na mente de quem presenciou a cena ou de quem sofreu com as consequências. As feridas abertas de forma profunda custam a cicatrizar. Para a viúva de Hilberto Boeck, Leni Hörbe Boeck, de 65 anos, janeiro é um período de tristeza. “Nossa família sente muito. Ele faz muita falta. Era uma pessoa com muitos amigos na comunidade. Não parece que já se passaram dez anos. Tem de se ter força para seguir em frente”, diz.

Quem sentiu na pele o drama de ser engolfado pelas águas do Rio Jacuí não esquece os detalhes daquela manhã. A primeira parte a cair foi a central. Depois, uma das cabeceiras começou a ruir. “Eu estava mais para a ponta. A tragédia poderia ter sido maior. Quando cheguei, havia muito mais gente em cima da ponte. Não senti ela tremer antes, como alguns chegaram a notar”, recorda o caminhoneiro Frederico Boeck, de 53 anos. Para se salvar da correnteza, mergulhou e lutou para voltar à superfície quando o concreto ficou escorado no barranco. “Mesmo com os olhos abertos, não enxergava nada. Era fundo, e a água estava suja. Cheguei a pensar que não conseguiria. Faltava fôlego, e engolia água. Quando vi uma luz, tive esperança. Consegui sair da água por pouco. Mais alguns segundos e eu teria sido levado. Não era a minha hora.”

Frederico conseguiu sair da água por pouco. Foto: Lula Helfer

Fotógrafo, Erni Rudolfo Böck, de 73 anos, saiu naquela manhã para fotografar as lavouras alagadas. Na localidade de Cerro Chato, Erni viu um homem salvando objetos de uma escola com uma canoa. Ao ficar 15 minutos fazendo registros, acabou retardando a ida para a ponte. “Foi um detalhe que me salvou. Quando entrei no carro, ouvi o boletim do Márcio dizendo que a ponte tinha caído. Foi uma fila de carros indo para lá.”

Depois do episódio, Erni voltou ao local somente quando a governadora Yeda Crusius foi até a ponte, com a Defesa Civil estadual. “Diariamente, eu fui para fotografar o serviço de resgate. Eu levava tambores de gelo e água para as equipes. Foi algo muito marcante”, define.

Erni foi salvo por um detalhe. Foto: Lula Helfer

Leni conta que o marido foi ao local para tirar fotos, por ser o coordenador da Defesa Civil. “Não foi a minha hora. Encontrei um casal de amigos na ponte anterior, e ele seguiu. Se eu não tivesse ficado conversando, teria caído também”, ressalta. Ela afirma que chegou a ver o marido na água, mas que o perdeu de vista ao se distanciar da borda, já que havia risco de um novo desabamento. “Ele acabou ficando preso em uma árvore. Se não fosse isso, poderia boiar e talvez conseguir se salvar. Quando a água baixou, encontraram ele embaixo
da árvore.”

Leni chegou a ver o marido na água. Foto: Lula Helfer

Leni estava ao lado do radialista Márcio Nunes, de 41 anos. Ele relatou a queda da ponte ao vivo na Rádio Agudo. “Sabíamos do alto volume do rio nas proximidades da ponte, e resolvemos dar um boletim. Já estávamos cobrindo toda a situação da enchente na região há alguns dias. Eu me preparava para entrar no ar quando vi uma nuvem cinza que parecia poeira. Quando cheguei mais perto, vi pessoas correndo e chorando. Então percebi que a ponte havia caído. Entrei no carro e pedi para interromper a programação da rádio. Entrei ao vivo e já pedi ajuda”, descreve. Nesse momento, Márcio viu Leni alertando que o marido havia caído, junto com outras pessoas. “Vi pessoas indo rio abaixo, algumas se agarrando nos galhos das árvores. A cena ficou gravada na cabeça. Não parecia ser real. A comoção foi muito grande na comunidade nos dias seguintes.”

Márcio relatou a queda da ponte ao vivo. Foto: Lula Helfer

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