Antes de caber na palma da mão, a voz morava nas ruas. Símbolo discreto de uma era em que as grandes cúpulas em formato oval eram um ponto de encontro, um recurso de emergência, uma marca da vida urbana, o orelhão transformou-se em mera curiosidade para boa parte dos santa-cruzenses.
Espécie de relíquia em meio à onipresença dos celulares, os saudosos Telefones de Uso Público (TUP), os orelhões, devem deixar de fazer parte da paisagem urbana até 31 de dezembro de 2028, após mais de cinco décadas de história. O fim desse capítulo da comunicação se deve ao encerramento dos contratos de concessão da prestação do serviço de telefonia fixa (STFC), em dezembro de 2025, pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Com a finalização das concessões, ocorreram mudanças jurídicas significativas no setor de telecomunicações brasileiro. As concessionárias de todo o País celebraram acordos com a administração pública para viabilizar a adaptação da concessão do STFC para a modalidade de autorização, regida pelo regime privado. Segundo a agência, a regra passa a ser a do serviço privado autorizado, com menos determinações regulatórias e maior liberdade para as empresas, que não têm mais obrigações contratuais, como manutenção dos orelhões.
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A extinção gradual dos telefones públicos, segundo a Anatel, busca dar espaço à expansão de investimentos em redes de suporte à banda larga. Nesse processo, permanecerão em operação apenas equipamentos em localidades remotas ou rurais onde não há sinal móvel adequado, até que a infraestrutura da rede de telecomunicação local seja efetivamente aprimorada. Na prática, empresas como Oi, Vivo, Algar, Claro/Telefônica e Sercomtel desligarão suas redes até a data-limite.
Ainda de acordo com a Anatel, o declínio acentuado dos orelhões começou na década de 2010, mas a inviabilidade tornou-se crítica entre 2015 e 2017, quando o tráfego de chamadas caiu mais de 90% em relação ao pico do serviço.
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Conforme dados disponibilizados pela agência reguladora, relativos a fevereiro de 2026, há 51 orelhões ativos no Rio Grande do Sul, sob responsabilidade da prestadora Oi. Destes, apenas três estão localizados no Vale do Rio Pardo: em Vila Deodoro, interior de Venâncio Aires; no Distrito de Bexiga, em Rio Pardo; e em Linha Almeida, em Sinimbu. Já em Santa Cruz do Sul, não há telefones públicos em atividade.
Apesar disso, muitos pontos ainda resistem ao tempo. Na Rua Coronel Oscar Jost, em frente ao shopping, e na Fernando Abott, em frente ao Hospital Santa Cruz, ainda há cabines inativas. São uma memória viva diante do fluxo constante dos smartphones.
O silêncio das cúpulas
Mas se nas ruas os orelhões já silenciaram, há um ponto em Santa Cruz do Sul onde o objeto ainda permanece, não como ferramenta de uso, mas como vestígio concreto de uma era. No Colégio Mauá, uma unidade inativa resiste ao tempo, atravessando gerações de alunos que passam por ela diariamente com celulares nas mãos.
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Coordenador pedagógico e professor de História da instituição, Waldy Luiz Lau Filho observa que a presença dos telefones públicos ajuda a contar uma história que começou muito antes da popularização da telefonia móvel. Ele lembra que embora o telefone seja uma invenção do fim do século 19, permaneceu por décadas como um recurso restrito. O alto custo para adquirir uma linha particular residencial e a limitação dos aparelhos públicos, geralmente instalados em estabelecimentos comerciais, faziam do acesso à comunicação um privilégio.

Foi nesse contexto que os orelhões chegaram a Santa Cruz na década de 1970, acompanhando um movimento nacional iniciado no Rio de Janeiro e em São Paulo. Segundo o historiador, registros da época mostram que a expansão da telefonia pública na cidade acompanhou o crescimento urbano e industrial, especialmente com a instalação das grandes fábricas de tabaco no Distrito Industrial. A infraestrutura de comunicação avançava à medida que o município se transformava economicamente.
Para Waldy, a instalação de um telefone público representava mais do que a chegada de um equipamento. “Era um evento de inclusão social e democratização.” Em muitos bairros, o orelhão era a única via de comunicação disponível. Permitindo o contato com parentes distantes, a marcação de consultas médicas e a resolução de emergências, o aparelho reduzia o isolamento das regiões mais afastadas do Centro. Ao mesmo tempo, aproximava corações apaixonados, aplacava a saudade e fortalecia a solidariedade urbana por meio da transmissão de recados rápidos, porém essenciais.
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O impacto também se dava na dinâmica social. O historiador recorda que o orelhão criava novos pontos de encontro e sociabilidade. Filas se formavam nas calçadas da Rua Marechal Floriano e nas proximidades de praças como a Getúlio Vargas e a da Bandeira. Enquanto aguardavam a vez, as pessoas conversavam, trocavam informações e compartilhavam o espaço. Quem morava perto de um telefone público muitas vezes assumia o papel de mensageiro, chamando o vizinho para atender uma ligação.
Símbolo da modernização urbana, o orelhão também representava, segundo Waldy, a transição para o que define como uma “cidade conectada”. O design desenvolvido por Chu Ming Silveira espalhou-se das grandes capitais para cidades menores e localidades afastadas, sinalizando que a infraestrutura municipal se equiparava, em alguma medida, à dos grandes centros metropolitanos.
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As histórias associadas aos orelhões atravessam o cotidiano. Waldy cita namoros a distância, pedidos de música nas rádios, trotes e encontros no antigo Disque-Amizade após o turno das aulas. Ele próprio recorreu ao telefone público como principal canal de comunicação durante a faculdade, em Porto Alegre. “Uma ligação rápida por semana já servia para tranquilizar quem estava em casa”, conta. Às vezes, o aviso chegava por meio de um vizinho. Era preciso ligar para casa, algo importante tinha acontecido. E, nesse ritmo, a vida seguia.
Aparelhos resistem ao tempo
Sobre o desaparecimento dos aparelhos, o historiador pondera que a mudança representa um pouco de avanço tecnológico, mas também perda cultural. Se por um lado as telecomunicações evoluíram de forma inegável, por outro há a perda de um espaço público de interação. Daí surgem, segundo ele, sugestões de preservar o objeto como patrimônio afetivo e atribuir-lhe nova função social.

Para as gerações mais jovens, compreender o que foi depender de um orelhão não é tarefa simples. Waldy Luiz Lau Filho observa que, para quem tem hoje 20 anos, a ideia de sair de casa sem celular e precisar procurar, no meio da rua, um objeto físico, levando ficha ou cartão, e ainda correr o risco de ninguém atender, soa quase como ficção científica. Dependia-se de planejamento e calma. Enfrentar fila sob sol ou chuva, ter a ficha certa, suportar o barulho da rua e contar com a sorte de o aparelho estar funcionando. Uma lógica distante do imediatismo e da privacidade atuais.
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No pátio do Colégio Mauá, o orelhão já não toca. Mas permanece ali como um marcador silencioso de uma cidade que aprendeu a se comunicar em voz alta, em meio às calçadas, antes que a voz coubesse inteira na palma da mão.
A coleção de 12 mil cartões
Na casa de César Machado, o tempo é contado nas prateleiras. Entre caixas organizadas, pastas catalogadas e objetos que atravessaram décadas, ele guarda 12 mil cartões telefônicos. Não é força de expressão. São 12 mil peças reunidas ao longo dos anos, organizadas em álbuns, separadas por séries, tiragens, créditos e temas. E não estão sozinhas.
“Eu sou colecionador desde jovem”, conta. Não sabe precisar a data em que começou, mas hoje são 92 tipos diferentes de coleções. Carteiras de cigarros, tampinhas, caixas de fósforos, almanaques, figurinhas antigas, revistas, binóculos promocionais, cartazes publicitários. O cartão telefônico entrou nesse universo quase por acaso. “Alguém chegou para mim e disse: ‘Eu tenho cartão de telefone, vem’. E fui indo.”
Quando percebeu, já estava mergulhado. E como faz com tudo o que coleciona, passou a agregar contexto ao objeto. “Tudo que eu tenho de coleção, eu tento sempre agregar itens ao produto. O cartão tinha que ter a ficha, tinha que ter o orelhão, tem que ter o guia telefônico.” Para ele, não basta guardar o cartão. É preciso guardar o sistema inteiro.

Os cartões somam milhares, mas César não fala deles em termos de quantidade e sim como séries, tiragens e detalhes impressos no canto inferior. Não há um único preferido. “Eu gosto das séries”, resume. Algumas têm imagens marcantes, outras são temáticas, outras ganharam valor porque circularam pouco. Existem cartões que hoje podem ser comprados por centavos. Outros chegam a R$ 10,00 a unidade.
Mas o valor que mais aparece em sua fala não é o financeiro. No meio da coleção, há também algumas fichas de orelhão. Poucas. “Tenho umas 12”, calcula. Uma delas ele segura entre os dedos como um objeto frágil. “Essa fichinha tem história”, avisa. E tem mesmo. O namoro com a atual esposa começou assim, ao som metálico da ficha caindo. Ela morava em outra cidade e tinha telefone em casa. Ele, não.
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O avô tinha um comércio com orelhão instalado. “Toda noite eu podia ligar para ela. Aí ia dando aqueles toquinhos da fichinha.” A conversa seguia até o clique seco interromper a ligação. Era preciso ser rápido. “Acho que eram 30 segundos”, arrisca. A ficha fazia um sinal sonoro antes de cair. Avisava que o tempo estava acabando. “Tu já tava conversando e já largando a outra.” Namorar exigia cálculo. Planejamento. Presença.
“Naquele tempo tu sabia o que ia conversar com a pessoa”, diz. “Tu valorizava muito mais a ligação.” Hoje, compara, é possível falar por uma hora sem custo aparente. Antes, cada segundo tinha peso. Cada crédito contava.
Memórias de juventude
A memória do orelhão também passa pela Rádio Gazeta. Na juventude, César e os primos desenvolveram uma estratégia para ganhar prêmios. O radialista anunciava: quem ligar primeiro, leva um LP. O telefone de disco já ficava preparado. “A gente travava o telefone. Quando ele dizia ‘valendo’, só soltava.” Não era preciso discar tudo de novo, a linha já estava pronta. “Toda semana tu ganha. Qual é o teu segredo?”, perguntaram certa vez na emissora. Ele ri ao lembrar.
Na adolescência, no colégio, também usavam o telefone público para ouvir a “hora certa” ou até um serviço de piadas gravadas. “Tudo o que nós tínhamos de informação era quase sempre do orelhão.” Diante das memórias, César enxerga o celular como algo mais prático, mas também mais superficial. Faz uma comparação com fotografias. Antes, um filme de 24 poses exigia cuidado. Hoje, a filha tira 22 fotos seguidas e escolhe depois. “Acaba se perdendo muito aquele resgate da memória”, avalia. Para ele, o telefone público fazia parte desse exercício de valorização.

No espaço que organiza para abrigar as coleções, há também um orelhão. Sem a cabine, mas com corpo, teclado e entrada para cartão. “Uma amiga disse que estavam retirando os orelhões e perguntou se eu queria um. Eu disse: manda para mim.” O aparelho foi retirado por um funcionário e, antes que fosse destruído pela companhia, encontrou novo destino.
César passa a mão na estrutura, segura um cartão colorido e simula o gesto antigo de inseri-lo no aparelho. Ao lado, um telefone de disco, um fax e outro fax digital. “Eu tenho todos os tipos de telefone”, diz. A ideia é montar uma “linha do tempo” da comunicação.
O orelhão ocupa lugar de destaque não apenas como peça física, mas como elo entre as demais memórias. É parte do conjunto. “Quando eu coleciono, quero que a pessoa entenda o todo.” Ele não vende. Não troca. “Eu coleciono para mim mesmo.” Já recusou ofertas. Prefere que as peças fiquem onde estão, organizadas e catalogadas, aguardando o próximo olhar curioso. Entre cartões de 15, 30 ou 40 créditos, fichas que caem com som metálico e um orelhão que já não toca para a rua, César Machado guarda mais do que objetos. Guarda o tempo em que a comunicação exigia intenção.
Tinha um orelhão aqui
Quando Ginésio Antônio Rachor chegou a Santa Cruz do Sul, em 1998, o orelhão ainda não existia. Veio depois. “Perguntaram se podia instalar na frente do bar. Ninguém queria o barulho na frente de casa. Aí eu aceitei”, conta ele, hoje com 63 anos, lembrando do tempo em que o telefone público virou parte da rotina do comércio e da vizinhança.

Natural da localidade de Rio Pardense, no interior de Vale do Sol, Ginésio cresceu em um tempo em que nem todo mundo tinha telefone e onde, também, não havia orelhão. A comunicação era escassa e, quando existia, precisava ser dividida. Por isso, aceitou sem hesitação a instalação do aparelho em frente ao bar que administra no Bairro Independência. A partir daquele momento, além das bebidas e de atender fregueses, passou a vender fichas.
O aparelho logo se tornou ponto de movimento constante. Tocava de madrugada, durante o dia ou quando alguém do outro lado da linha insistia. “Eu atendia até para os vizinhos”, lembra. Era comum alguém discar e não encontrar quem procurava. Depois, ligava de novo. E de novo. Até que uma pessoa atendesse e chamasse pelo nome na rua.
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Entre as histórias que ficaram estão as brigas de casal que atravessavam o fio. “Pessoal vinha brigar aí no orelhão. Ligava para a pessoa amada e o outro lado estava ‘brabinho’”, diz, com um riso discreto de quem já ouviu de tudo um pouco.
Depois que o orelhão foi retirado, há mais de dez anos, a ausência ainda foi sentida por algum tempo. “O pessoal vinha pedir para ligar do telefone fixo. Era mais para chamar táxi. Na época, não tinha aplicativo de transporte.” O número do ponto ficava guardado à mão. O bar, que já era lugar de encontro, continuou sendo ponto de apoio. Só mudou o meio.
A rua ganhava vida
Do outro lado da rua, Clélia Rachor acompanhou o mesmo cenário pela janela de casa. Hoje com 67 anos, ela chegou a Santa Cruz do Sul aos 18, vinda do interior de Vale do Sol. Veio trabalhar como empregada doméstica, cuidar de gêmeas e construir a própria história. Está no bairro há cerca de 40 anos. “Era a única comunicação que a gente tinha”, resume.

Quando ainda não havia telefone fixo em casa, o orelhão da frente era a solução. “Eu usava muito.” Ligava quando precisava marcar uma consulta, resolver algo urgente ou manter contato com a família e as pessoas com quem trabalhava. A família do antigo patrão também ligava. “Muitas vezes eles iam me chamar também: ‘A ligação é para ti’. Era assim que funcionava. Quem estivesse mais perto atendia. Depois chamava pelo nome.”
Clélia lembra das madrugadas em que o aparelho dava sinal e a rua ganhava vida. “Tocava muito, muito. Aí o pessoal ia ali e ficava ‘proseando’ de madrugada.” Havia também quem se incomodasse com o barulho, mas, no fundo, o orelhão fazia parte da dinâmica do bairro. Criava laços invisíveis e aproximava.
Ela recorda que as fichas eram adquiridas por centavos no próprio bar ou, quando faltavam, na CRT. Comprava-se só o necessário para uso imediato, urgente e prático.
Hoje, o celular e a internet dão conta da atividade dela, que vende doces feitos em casa. “Meu trabalho todo é por meio da internet”, conta. Não sente falta do orelhão como ferramenta, mas reconhece que algo se perdeu junto com ele. O costume de atender o telefone do outro, de chamar o vizinho na calçada, dividir a notícia.
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Entre a porta do bar e a casa em frente, onde antes se erguia a cúpula arredondada, restou o vazio. Mas para quem vive ali há décadas, o orelhão não desapareceu por completo. Ele continua existindo nas histórias repetidas com um sorriso leve, na lembrança das fichas no balcão, nas madrugadas de prosa e nos chamados atravessando a rua. Ali, naquela quadra, tinha um orelhão. E por muito tempo, foi ali que a cidade se falava.
A menina que engoliu a ficha
Thaís Ferreira da Rosa Dutra, 37 anos, aprendeu cedo demais que a ficha podia cair. Nascida na cidade litorânea de Santos, em São Paulo, e morando há dez anos em Santa Cruz do Sul, ela carrega com os orelhões uma história que começa aos 3 anos de idade, dentro de casa.
O pai, caminhoneiro, chegava do trabalho e deixava sobre a mesa as chaves, a carteira, os documentos e as fichas telefônicas. Pequenas, redondas, curiosas. “Eu era pequenininha, vi aquelas fichas e botei na boca”, conta. Quietinha demais, chamou a atenção da mãe. Quando foi ver, a menina estava entre a mesa e a parede, já ficando roxa, com a ficha presa na garganta.

A vizinha de porta foi quem salvou a cena. Virou a criança de ponta-cabeça e fez a manobra até que a ficha finalmente caiu. “É engraçado essa expressão, né? A ficha caiu. Lá nos orelhões ela também caía”, diz, hoje com leveza na voz.
Se a primeira lembrança envolve susto, as seguintes são de afeto. O pai viajava muito e os telefones públicos eram ponte. Primeiro vieram os cartões telefônicos, ilustrados, coloridos, que a família passou a colecionar. Havia séries de pássaros, da Amazônia, do Rio de Janeiro, de Copa do Mundo. Guardavam em pastas plásticas e trocavam como quem troca figurinha. “Era um contato em família. Todos nós colecionamos, mas quem trazia era sempre o meu pai.”
Na adolescência, o orelhão ganhou outro papel. Em frente à padaria da avenida da praia, havia um aparelho que testemunhou amores escondidos. “Eu atravessava para ligar para o namorado, ficava pendurada naquele telefone até o cartão acabar”, lembra. A pressa tinha limite, imposto pelo saldo.
Mas era com o pai que as ligações tinham mais peso. Apegada, ela usava o sistema de recados por pager para deixar mensagens quando ele estava na estrada. “Eu ligava e dizia: ‘Pai, eu te amo, tô com saudade’. A telefonista mandava o recado e ele sempre retornava.” Um dia, a atendente perguntou se os pais eram separados. “Eu disse que não, que eu só amava muito o meu pai.”
Ela ligava quase todos os dias. Gostava da sensação de falar com a moça da central, de esperar o retorno, de ouvir a voz do outro lado da linha. “Era a forma que a gente tinha de se comunicar antes do celular. Hoje é inimaginável.”
Mesmo depois de adulta, já em Santa Cruz, precisou recorrer a um orelhão para resolver uma pendência bancária que não aceitava chamada de celular. Saiu pelas ruas à procura de um aparelho que resistisse ao tempo. Acredita ter encontrado um perto do Parque da Oktoberfest.
As lembranças são doces. Da escola, ela recorda de combinar horários e esperar ao lado do telefone da esquina para receber ligações. Em Santos, as cabines chegaram a ganhar pinturas temáticas e viraram parte da paisagem urbana. “O telefone acabou sendo uma parte bem importante da nossa vida”, resume. Para Thaís, o orelhão não era só equipamento público. Era ponto de encontro, ponte com a estrada e, às vezes, prova de amor dita em poucas palavras antes que o crédito acabasse.
Chu Ming Silveira, a arquiteta do orelhão
O design icônico do orelhão é obra da arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, nascida em Xangai e naturalizada brasileira. Chefiando o Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira (CTB) no início dos anos 1970, ela idealizou os protetores telefônicos que marcaram a paisagem urbana do País por décadas.
O Chu I (conhecido como “orelhinha”, para ambientes internos) e o Chu II (o clássico orelhão) foram pensados especialmente para resistir às condições externas de sol, chuva e variações climáticas. O formato arredondado, inspirado, segundo a própria arquiteta, na melhor forma acústica, incentivava a conversa mesmo em meio ao barulho das ruas. Por isso, o orelhão não era apenas um telefone, tornava-se um objeto de convivência urbana e memória social, com nomes carinhosos como “tulipa” ou “capacete de astronauta” dados pelo público ao longo dos anos.
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