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ROMEU NEUMANN

Mulheres, nos perdoem!

Gostaria de ter escrito este texto para ser publicado antes do Dia da Mulher, que festejamos neste domingo, 8. A escala me remeteu ao dia seguinte. Mas não faltaram inspiração, poesia, encanto e reconhecimento em tantas mensagens e depoimentos que lemos e que traduzem a gratidão que devemos a essas pessoas incríveis que nos deram a vida – nossas mães – e as que potencializam nossa existência – as irmãs, a namorada, a esposa, as filhas, as noras, as netas, as avós. Todas elas!

É doloroso até pensar, mas é preciso questionar: por que, então, os homens matam as mulheres? Só em nosso Estado, em pouco mais de dois meses de 2026, já foram 20 feminicídios, um aumento de 53% em comparação com o mesmo período do ano passado. Sabe por quê? Porque não dá (quase) nada. A lei é complacente com os assassinos e a Justiça está refém de uma ordem iníqua, doentia, que se compadece do bandido e culpa a vítima.

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Querem ver?

1 – O caso relatado pela Gazeta do Sul na edição dessa quarta-feira, 4, é emblemático: um homem condenado a 28 anos de prisão em regime fechado por ter matado a ex-companheira com três tiros na frente do Hospital em Venâncio Aires, em julgamento ocorrido em junho de 2017, já estava solto quando, seis anos depois, em 2023 (como é possível?) foi novamente preso por lesão corporal, ameaça, sequestro e cárcere privado de uma segunda ex-companheira. Ainda houve agressões e violações contra uma terceira e quarta vítima.

Voltou a ser preso na semana passada, mas, pelo andar da carruagem, este agressor contumaz vai dormir alguns dias na penitenciária que nós pagamos para que ele tenha, sob o beneplácito da lei, tempo para escolher uma próxima vítima.

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2 – O absurdo, covarde e doloroso assassinato de uma jovem na várzea do Rio Pardinho, em Santa Cruz do Sul. O drama começou no primeiro dia de abril de 2009 e se estendeu por intermináveis 19 dias de buscas, envolvendo várias equipes de amigos e voluntários, afora todo o empenho de investigação da Polícia.

Ela era nossa vizinha, filha de professora, colega da minha esposa. O acusado foi julgado e condenado, inicialmente a 24 anos de reclusão. Após recurso da defesa, a pena foi reduzida em dois anos. Onde ele está? Pelas informações que consegui colher, está solto, livre. Vida que segue para ele, não para a jovem cruelmente assassinada, nem para sua família, destroçada pela dor.

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Quantos casos mais poderia elencar aqui, tão ou mais dolorosos que estes, e que me remetem à mesma conclusão: se quisermos efetivamente estancar essa vergonhosa e abjeta matança de mulheres, temos que começar por mudar a legislação. Autor de feminicídio não pode ter direito a progressão de regime de pena. Ou nada – ou quase nada – vai mudar, nem mesmo com todo o esforço para disseminar redes de proteção às mulheres.

É hipocrisia presumir que quatro ou cinco anos de cadeia vão conter a saga assassina de homens vingativos e sanguinários. Vamos elevar (e fazer cumprir) as penas a 20 ou 30 anos de reclusão, em regime fechado, sem regalias, e as dolorosas estatísticas de feminicídios vão despencar. Já passou da hora. Enquanto retroalimentarmos esta cultura que legitima a impunidade, vamos continuar chorando mortes estúpidas e covardes de mulheres indefesas.

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