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GISELE SEVERO

Quando a saúde mental ultrapassa o câncer: o que isso revela sobre o nosso tempo?

Foto: Pexels

Durante décadas, o câncer ocupou o lugar de maior temor quando o assunto era saúde. Hoje, um dado chama a atenção de pesquisadores, profissionais da saúde e gestores públicos: a saúde mental passou a ser considerada a principal preocupação de saúde da população mundial. Segundo o Ipsos Health Service Report 2024, realizado em 31 países, 45% das pessoas apontam a saúde mental como o maior problema de saúde da atualidade, ultrapassando o câncer (38%) e o estresse (31%).

Esse dado não significa que o câncer tenha deixado de ser uma doença grave. Pelo contrário. Ele continua sendo uma das principais causas de morte no mundo. O que mudou foi a percepção coletiva de que o sofrimento emocional se tornou uma presença constante na vida cotidiana.

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Vivemos em uma sociedade marcada pela velocidade, pela hiperconectividade e pela sensação permanente de insuficiência. Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão solitários. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para descansar a mente.

A Organização Mundial da Saúde já alertava que os transtornos mentais representam uma das principais causas de incapacidade em todo o planeta. Ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outros transtornos emocionais comprometem relações familiares, desempenho profissional, qualidade do sono, saúde física e até a expectativa de vida.

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A pandemia de Covid-19 não criou essa realidade, mas acelerou um processo que já estava em curso. O isolamento social, as perdas, as mudanças econômicas e a insegurança deixaram marcas profundas. Mesmo anos depois, continuamos convivendo com seus reflexos emocionais. O próprio levantamento da Ipsos demonstra que, enquanto a preocupação com a Covid-19 caiu drasticamente desde 2021, a preocupação com a saúde mental continuou crescendo, consolidando-se como a maior preocupação global. 

Outro aspecto importante é que falar sobre saúde mental deixou de ser tabu. Hoje, mais pessoas conseguem reconhecer seus sintomas e compreender que sofrimento psicológico não é sinal de fraqueza, mas uma condição humana que merece acolhimento e tratamento. Esse aumento da conscientização também explica por que o tema ganhou tanta relevância.

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No entanto, reconhecer o problema é apenas o primeiro passo. Ainda existe uma enorme distância entre compreender a importância da saúde mental e oferecer acesso adequado aos cuidados necessários. Em muitos lugares, o atendimento psicológico continua sendo limitado, os serviços especializados são insuficientes e o preconceito ainda impede muitas pessoas de buscar ajuda.

Além disso, precisamos abandonar a ideia de que cuidar da saúde mental significa apenas procurar terapia quando tudo já desmoronou. Assim como escovamos os dentes para prevenir doenças, também devemos cultivar hábitos que protejam nossa mente diariamente: sono de qualidade, atividade física, relações saudáveis, momentos de lazer, contato com a natureza, alimentação equilibrada e espaços de escuta emocional.

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Do ponto de vista da neurociência, sabemos que o estresse crônico mantém o organismo em estado permanente de alerta, aumentando os níveis de cortisol e favorecendo inflamações, alterações imunológicas e maior risco para diversas doenças físicas. Ou seja, corpo e mente jamais estiveram separados. Cuidar de um é, inevitavelmente, cuidar do outro.

Talvez o dado mais importante dessa pesquisa não seja o percentual de 45%, mas o recado que ele transmite. A humanidade está dizendo que o sofrimento emocional deixou de ser um problema individual para se tornar um desafio coletivo.

Se queremos construir uma sociedade mais saudável, precisamos investir não apenas em hospitais, mas também em prevenção, educação emocional, políticas públicas, ambientes de trabalho saudáveis e acesso à psicoterapia baseada em evidências. Porque, no fim das contas, a saúde mental não deve ser lembrada apenas quando adoece. Ela precisa ser cultivada todos os dias.

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