Durante muito tempo acreditamos que o tempo, por si só, é capaz de curar tudo. Repetimos essa ideia como um consolo silencioso diante das dores que a vida inevitavelmente nos apresenta. Mas a verdade é que o tempo apenas passa. Quem realmente decide o que acontece com as nossas feridas somos nós.
Existem dores que permanecem abertas não porque sejam grandes demais, mas porque continuamos, de alguma forma, segurando aquilo que nos feriu.
Perdoar é uma das experiências emocionais mais complexas que um ser humano pode viver. Muitas pessoas resistem à ideia do perdão porque acreditam que perdoar significa esquecer, minimizar ou justificar o que aconteceu. Como se o perdão fosse uma espécie de absolvição concedida a quem nos causou dor.
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Mas o perdão verdadeiro não tem relação com inocentar o outro. Ele tem relação com libertar a si mesmo.
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Quando não conseguimos perdoar, mantemos uma ligação invisível com a história que nos feriu. Voltamos mentalmente ao episódio, revivemos palavras, imaginamos respostas que nunca demos, elaboramos diálogos que jamais acontecerão. A pessoa que nos feriu pode até ter seguido sua vida, mas continua ocupando um espaço dentro de nós.
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E esse espaço, muitas vezes, é silencioso. Ele se manifesta em pequenas desconfianças, em relações que não conseguem florescer plenamente, em uma cautela excessiva diante das pessoas. Aos poucos, a dor antiga passa a influenciar decisões presentes.
Perdoar não muda o passado. Nada pode fazer isso. O que aconteceu continuará fazendo parte da nossa história. Mas o perdão muda profundamente a forma como essa história continua vivendo dentro de nós.
Há algo importante que raramente é dito: nem sempre haverá um pedido de desculpas. Algumas pessoas jamais reconhecerão o que fizeram. Outras talvez nem tenham consciência da dimensão do impacto que causaram.
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Esperar por esse reconhecimento pode nos manter presos por muito tempo.
Por isso, em muitos casos, o perdão não depende do outro. Ele depende da nossa escolha de não permitir que aquela ferida continue ocupando tanto espaço em nossa vida emocional.
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Perdoar também não significa retomar relações que nos fizeram mal. Às vezes, perdoar inclui compreender que certas pessoas não sabem amar, respeitar ou cuidar da forma que precisaríamos. E aceitar isso pode ser uma forma profunda de maturidade emocional.
Existe uma diferença fundamental entre perdoar e permitir que o mesmo sofrimento se repita.
Perdoar é libertar-se.
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Permitir é permanecer vulnerável à mesma dor.
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Algumas histórias não terão o desfecho que gostaríamos. Algumas relações terminam sem explicações satisfatórias. Algumas mágoas ficam sem reparação.
Ainda assim, a vida continua pedindo movimento.
Talvez por isso o perdão seja menos um gesto dirigido ao outro e mais um gesto silencioso de amor próprio. Uma decisão íntima de não continuar carregando um peso que já não nos serve.
Porque algumas feridas não cicatrizam apenas com o passar dos anos.
Algumas só começam a cicatrizar no momento em que decidimos, finalmente, soltar e perdoar.
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