Frente às notícias de abertura de uma nova via através do Cinturão Verde que interligaria os bairros João Alves e Higienópolis, há que se acentuar que intervenções fragmentadoras em áreas de vulnerabilidade geoambiental têm se caracterizado por promover graves distúrbios, como a redução da biodiversidade, o aumento do efeito de borda, o conflito entre a fauna, veículos e humanos, além de afetar os fluxos gênicos, hídricos e o frágil equilíbrio geológico. Imperioso se faz chamar a atenção para o condicionamento geológico/geotécnico e susceptibilidades a riscos (Grehs, 1976; Wenzel, 1996 e 2013; ETA, 2002; Greiner, 2003; Alves, 2004; Noronha, 2010, PMRR/SBG, 2026), o que nos oportuniza salientar que as zonas de fraturas, falhas e de “tálus” nos exigem grande cuidado.
Elas não podem ser interpretadas como simples alinhamentos ou depósitos isolados, até porque a interação dos processos pode comprometer ainda mais as vulnerabilidades. Vulnerabilidades que costumam ser prioritariamente vinculadas à maior declividade do terreno, um critério importante mas não único, pois frações de relevo menos acentuado também podem ser susceptíveis a riscos, sem esquecer das áreas de infiltração que se constituem em espaços de recarga dos aquíferos.
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Todavia, às vulnerabilidades naturais e induzidas se acrescem as mudanças climáticas em curso e sua relação com as condições de saúde, particularmente no que tange à ansiedade adoecedora. Há poucos dias, foi amplamente noticiado que estamos muito próximos de atingir a condição de “não retorno.” A referência é aos onze anos, entre 2015 e 2025, em que foram registrados os anos mais aquecidos desde o início da Revolução Industrial. O Relatório Global do Clima 2026 faz um claro chamamento para a urgência em se integrar os dados meteorológicos com a saúde, pois como pretender a saudabilidade num ambiente comprometido? E o Cinturão Verde, em sua significativa integralidade – assim mantido pelo empenho de muitos, do aparato institucional e legal e, especialmente, pela atitude altruísta dos proprietários preservacionistas que merecem valorização e reconhecimento – se constitui, em ampliada escala local, num importante amparo frente às crescentes vulnerabilidades.
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Assim, ao ser projetada uma nova via através do Cinturão Verde, estamos tratando de escolhas indicativas de relevantes e preocupantes consequências socioambientais, perante as quais não nos cabe a postura da omissão, mas do ativo pertencimento corresponsável. Isso posto, há que se trabalhar por soluções viárias, embasadas em estudo de impacto ambiental e de vizinhança, que não interfiram em áreas já naturalmente suscetíveis a riscos.
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Nossa intenção é contributiva no sentido de nos precavermos a tempo. Não se trata de ser simplesmente contra uma proposta, mas a favor de todos no contexto ecossistêmico. Somos todos corresponsáveis, na visão e ação, pois quanto mais preservarmos o Cinturão Verde, um santuário de imenso valor socioambiental, maiores os benefícios de ganho coletivo.
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