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ROSE ROMERO

Santa impaciência

Fevereiro de 2026. A noite de sexta-feira está começando. No supermercado, procuro um Chardonnay honesto para levar a um encontro com amigos. Prefiro os tintos, mesmo no verão. Mas vou pela maioria. Percorro o setor de vinhos e, que estranho, não consigo ver os preços. Os números se misturam como se eu tivesse bebido uma garrafa e meia ali mesmo, sozinha. Com pressa, concluo que o problema não está em mim e sim na discreta iluminação do local. E vou para a minha festa.

Sábado de manhã. Abro os olhos e o mundo está esquisito. Coloco os óculos e o mundo segue bem esquisito. Minha miopia parece ter aumentado uns seis graus em menos de 24 horas. E na visão do lado esquerdo paira uma mancha que cobre tudo com uma película fosca.

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Dou várias piscadelas na esperança de que a vida volte a ficar nítida. Nada. Lavo o rosto, coloco colírio, limpo os óculos com dedicação. Nada. Em pouco tempo constato que não leio, não escrevo, não dirijo e erro a pontaria na hora de servir o café na xícara.

Dois meses depois. Abril de 2026. O Oriente Médio ferve, Trump continua um perigo, o Brasil debate se Janja e Lula deveriam ou não deveriam ter comido carne de paca, Grêmio e Inter seguem daquele jeito… E os meus olhos…

Vão melhorar, assegura a ciência. Embora o prazo para isso seja impreciso. Depende de alguns fatores. Inclusive do meu cérebro. Que, se entendi direito, vai reaprender a ver. Na real, já melhorei um pouco. Consigo ler se a letra for bem grande. E raramente coloco água fora do copo.

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– Teus olhos são um caso especial, Rosilane, diz o oftalmologista.

– Tens que ter paciência, dizem as amigas.

Paciência? Será que eu tenho paciência? Acho que mais depois dos 50. Ainda assim… Diante desse incidente ocular, às vezes tenho vontade de dar uns gritos.

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Não dou, evidentemente. Racionalizo porque é isso que fazem os adultos. Racionalizo e penso:

Quantas vezes ouvimos impassíveis os donos da verdade, os reacionários de sempre e suas fantasias de grandeza?

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Quantas vezes assistimos este país rico e belíssimo ser espoliado por uma elite que só quer vantagens e nenhum ônus?

Quantas vezes naturalizamos como normal a dor alheia, a solidão, o abandono, a arrogância, o desprezo para com o outro?

Por que temos paciência, quase subserviência, quando não deveríamos ter?

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Pensando bem, é até fácil estar com essa inesperada limitação visual. Difícil é o resto.

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