Uma viúva na casa dos 60 anos, alemã, inicia relacionamento com um homem muito mais jovem. Além da diferença de idade, ele é árabe (imigrante marroquino), muçulmano e negro. Esse casal pouco provável enfrenta toda espécie de preconceitos em O Medo Devora a Alma, filme de Rainer Werner Fassbinder que, na década de 1970, refletiu o que o diretor e roteirista via na Alemanha de sua época.
Quando decidem ficar juntos, Emmi e Ali despertam a hostilidade geral: de vizinhos do prédio onde ela mora e dos próprios filhos, colegas de trabalho, conhecidos e até funcionários de bares e restaurantes. Afinal, o que uma idosa pretende com aquele sujeito de aparência suspeita? Aos olhos mais intolerantes, é simplesmente uma combinação de tudo que “não pode ser”.
Os personagens não são nada óbvios. Por exemplo: Emmi, quando jovem, foi apoiadora de Adolf Hitler. Mas isso é passado, agora não há mais um Führer para lhe dizer quem deve amar ou detestar. E Ali, por sua vez, precisa lidar com a insegurança inerente a sua condição de estrangeiro.
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Em certo momento, os dois estão em um café (onde não são atendidos por algum motivo inexplicado) e ela pergunta:
– Você não sente medo?
– Não. O medo devora a alma.
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De 1974 para cá, as coisas não mudaram significativamente na Europa e no mundo. Não para melhor. Estrangeiros são afastados ou até eliminados numa escalada tempestuosa fomentada, em grande medida, por um pânico moral de fundo religioso que associa os forasteiros ao “mal” – algo que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chamou de “religionização” no livro Medo líquido, lançado em 2006. Vale a pena lembrar o que ele antecipou 20 anos atrás:
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“Com efeito, a visão maniqueísta do mundo, o apelo às armas numa guerra santa contra forças satânicas que ameaçam dominar o universo, a redução da caixa de Pandora dos conflitos econômicos, políticos e sociais à visão apocalíptica de um confronto final de vida ou morte entre o bem e o mal: esses não são padrões exclusivos dos aiatolás islâmicos. Em nosso planeta, a ‘religionização’ da política, dos ressentimentos sociais e das batalhas por identidade e reconhecimento parece ser uma tendência global.”
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Qualquer semelhança com a realidade em 2026 não é mera coincidência, claro está. A situação não está fácil para os Alis e Emmis que, apesar de tudo, tentam saltar sobre o vazio da mentalidade segregadora. Como não ter medo de jogar-se e cair, de maneira irremediável?
Mas Ali certamente teria uma resposta.
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