A força devastadora das enchentes registradas entre abril e maio de 2024 no Rio Grande do Sul trouxe impactos severos aos municípios gaúchos. Lares e construções foram arrancados e levados pela força das águas, restando apenas um cemitério de escombros.
Entretanto, as áreas urbanas não foram as únicas a sofrerem as consequências das intensas correntezas resultantes dos alagamentos: a vegetação nativa também foi afetada e suprimida, de modo que o marrom da lama prevaleceu sobre o verde. Os resíduos ainda colocaram em risco a fauna gaúcha, especialmente as espécies aquáticas.
Diante dos impactos no ecossistema, o Estado começou, ainda em 2024, uma iniciativa para a recuperação da flora gaúcha. Nascia o Projeto Reflora, cuja missão é resgatar material genético de espécies florestais nativas, especialmente as ameaçadas de extinção, para o florescimento de novas mudas, além de tornar as bacias hidrográficas mais resilientes a eventos climáticos.
Publicidade
LEIA TAMBÉM: Dois anos depois da enchente, as marcas deixadas na memória das comunidades da região
Para obter êxito, o Rio Grande do Sul firmou uma parceria com outro estado palco de uma histórica tragédia ambiental: Minas Gerais. Desde o rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019, que resultou na liberação de milhões de metros cúbicos de rejeitos os quais resultaram em danos severos ao ecossistema, levando à realização de diversas ações com o intuito de recuperar a fauna e flora mineira.
Para ampliar o conhecimento acerca do tema, uma comitiva formada por pesquisadores da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) viajaram a Minas Gerais. Em entrevista à Gazeta do Sul, membros da missão compartilharam como a experiência agrega ao Estado.
Publicidade

Missão busca soluções para áreas afetadas pelas enchentes
A comitiva gaúcha chegou em território mineiro no último dia 5. Além de representantes da Secretaria Estadual da Agricultura, ela era constituída por docentes de universidades do Rio Grande do Sul. Como a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), representada pelo professor Jorge Antonio de Farias, e a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), tendo à frente Priscila Pacheco Mariani, coordenadora do Centro Socioambiental.
LEIA TAMBÉM: Maioria da população associa enchentes às mudanças climáticas, aponta pesquisa
Nos três dias, conheceram os trabalhos realizados pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) em relação ao resgate de DNA da fauna, incluindo visitas técnicas aos viveiros da instituição. E estiveram em Brumadinho para conferir as áreas plantadas com mudas do projeto Resgate de DNA, além de conhecer as tecnologias de restauração utilizadas no contexto do rompimento da barragem.
Publicidade
A missão faz parte do projeto Reflora, iniciativa do governo do Estado que tem o objetivo de recuperar a flora nativa do Rio Grande do Sul afetada pelas enchentes de maio de 2024. Diante do impacto no ecossistema, diferentes frentes passaram a buscar alternativas para revitalizar as bacias hidrográficas e tornar o ambiente mais resiliente de maneira mais rápida e eficiente, pois que eventos extremos devem passar a ocorrer de forma mais frequente.
Encontraram na ciência e na tecnologia a solução, inspirados nos trabalhos realizados em Brumadinho após o rompimento da barragem Mina Córrego do Feijão, em 25 de janeiro de 2019. Apesar de não se tratar de um desastre climático, tal qual as enchentes no Rio Grande do Sul, a tragédia resultou em um enorme impacto ambiental, devastando e contaminando a fauna e a flora locais.
LEIA TAMBÉM: Consciência e ação: o que mudou após as enchentes?
Publicidade
Com isso, uma força-tarefa formada por pesquisadores da Sociedade de Investigações Florestais (SIF) e da UFV desenvolveu técnicas de reflorestamento, além do resgate de DNA de árvores em risco ou em extinção. A ação foi bem-sucedida, resultando no retorno da biodiversidade e na volta do verde nas áreas completamente dominadas pela lama.
A estratégia chamou a atenção dos gaúchos que, ainda em 2024, poucos meses após a catástrofe ambiental, realizaram a primeira missão e se aproximaram da UFV. Em março de 2025, o projeto Reflora foi lançado pelo Estado, no intuito de plantar nas áreas afetadas por enchentes mais de 6 mil mudas de 30 espécies florestais nativas, dos biomas Pampa e Mata Atlântica. A iniciativa levará três anos, a partir da coleta de DNA em campo para as mudas, o florescimento e o plantio.
Parte das mudas é produzida no Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa Florestal (Ceflor), de Santa Maria, na UFSM e na Unisc, além de outros locais. Normalmente, o período para florescer após o plantio é de 20 a 30 anos. Porém, com a tecnologia da UFV aplicada no projeto, levará entre cinco e oito anos. O DNA das espécies florestais nativas é feito de ramos de árvores saudáveis e na conexão de duas plantas, o que induz o florescimento precoce com novas mudas. A tecnologia resulta na preservação do DNA de espécies ameaçadas de extinção e no restabelecimento dos ecossistemas.
Publicidade
O Reflora conta com um investimento de R$ 7,5 milhões. Os recursos são aplicados no custeio das casas de vegetação, estruturas de fertirrigação e demais estruturas físicas, além de serviços terceirizados de coleta de propágulos vegetativos (estruturas que se desprendem de uma planta adulta e dão origem a uma nova), compra de insumos e bolsas de pesquisa.

LEIA TAMBÉM: VÍDEO: um ano após a enchente, lavouras afetadas dão sinais de recuperação
Recuperação de Brumadinho trouxe esperança à comitiva gaúcha
Um dos pontos altos da missão a Minas Gerais foi a visita às áreas plantadas com mudas do projeto Resgate de DNA, da UFV, em Brumadinho. Após a tragédia, a Vale S/A adquiriu parte dos locais afetados, que futuramente serão transformados em um parque.
Após a experiência de campo e a troca de conhecimento com os pesquisadores mineiros, a professora Priscila Pacheco Mariani, da Unisc, voltou ao Rio Grande do Sul com a certeza de que é possível revitalizar as áreas afetadas pelas enchentes e torná-las mais resilientes para eventos climáticos. Porém, destacou a importância da articulação pública e dos demais atores envolvidos, incluindo sociedade e instituições privadas, a fim de garantir o investimento financeiro para o projeto e o suporte para profissionais implementarem tecnologias nas bacias hidrográficas gaúchas.
“Nós precisamos cobrar. A população não pode esquecer e ter consciência de que os eventos extremos podem acontecer novamente. Talvez não na mesma proporção, mas existe a probabilidade de acontecer de forma mais intensa e mais recorrente. E temos que nos adaptar a isso e nos tornarmos mais resilientes, com bacias hidrográficas que suportem isso para que os danos sejam menores”, afirma.
LEIA TAMBÉM: A longa recuperação do Rio Pardinho após a enchente
A partir da intensa programação e do conhecimento gerado durante a missão, Priscila, subcoordenadora do curso de Agronomia da Unisc, analisa como será viável aplicar o trabalho mineiro no projeto Reflora. Todas as informações serão consolidadas em um relatório sobre a imersão. Segundo a docente, a experiência também contribuirá no ambiente acadêmico, proporcionando novas iniciativas e a ampliação da busca por inovações. “Foi uma viagem na qual conseguimos ter um olhar para várias áreas específicas e trazer muitas ideias para aplicarmos e desenvolvermos na universidade.”

Na avaliação de Jorge Antonio de Farias, professor da UFSM (instituição com várias pesquisas na região do Vale do Rio Pardo), o projeto Reflora evidencia a importância da participação das universidades nas ações relacionadas à questão climática e ambiental. E a visita, segundo ele – que reside em Santa Cruz do Sul –, foi fundamental para que os acadêmicos e pesquisadores gaúchos e mineiros compartilhassem experiências e expertises.
“A viagem só reforçou a importância de investirmos cada vez mais em educação e pesquisa. Isso nos dá tranquilidade em relação a avançarmos em termos de qualidade de vida e geração de emprego e renda”, frisou. Ao testemunhar os trabalhos feitos em Brumadinho, Farias concluiu que é viável a recuperação das áreas degradadas. “Serviu de conforto ao olhar a degradação que aconteceu no Rio Grande do Sul.”
LEIA TAMBÉM: Defesa Civil reforça monitoramento e revisa plano após enchente em Sinimbu
Conforme Farias, o projeto Reflora tem aproximado as universidades gaúchas nas pesquisas e reforçou o protagonismo das instituições de Ensino Superior no que diz respeito às demandas da população.
“Não existe desenvolvimento e avanço social e econômico sem a presença das universidades. Todas as tecnologias que utilizamos nas nossas rotinas são frutos de pesquisa nas universidades públicas e também nas privadas. A universidade está chamando para si o protagonismo e a responsabilidade de continuar cumprindo seu papel social, que é atender às demandas da sociedade gaúcha”, ressalta.

Para saber
As enchentes provocadas pela catástrofe climática em 2024 causaram danos ambientais devastadores aos ecossistemas do Estado. A vegetação nativa nas margens dos rios e áreas de amortecimento foi a mais afetada, contribuindo para a vulnerabilidade de bacias hidrográficas em casos de eventos extremos.
A força das águas resultou na supressão da flora nativa. Os resíduos deixaram danos de proporções expressivas em diferentes regiões.
LEIA TAMBÉM: “É um estudo que Santa Cruz nunca teve”, diz secretário sobre projetos para conter enchentes
Diante da necessidade de recuperação das áreas atingidas, o Projeto Reflora visa reintroduzir mais de 6 mil mudas nativas com o uso da tecnologia implementada em Brumadinho. O objetivo é reduzir o tempo de regeneração florestal de 20 a 30 anos para cerca de cinco a oito anos, contribuindo para a restauração da biodiversidade.
A ação é feita a partir do resgate de DNA de espécies nativas florestais e da conexão de duas plantas (enxertia), induzindo o florescimento precoce de novas mudas. De acordo com o Estado, ao todo, cerca de 290 indivíduos de 29 espécies nativas foram mapeados em 13 municípios, incluindo Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires.
Os trabalhos devem ser concluídos em três anos. No primeiro, houve a identificação das árvores danificadas, mapeamento da localização das espécies e produção dos porta-enxertos. No segundo, a coleta do material genético, início do processo de enxertia e desenvolvimento das mudas das espécies. Para o terceiro, estão previstos o plantio no campo e treinamento de equipes.

LEIA AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO PORTAL GAZ
QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!