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clima e sociedade

Consciência e ação: o que mudou após as enchentes?

Foto: Rodrigo Assmann/Banco de Imagens

As enchentes que marcaram 2024 no Rio Grande do Sul não apenas transformaram paisagens e rotinas. Também alteraram, de forma profunda, a maneira como a população enxerga o clima, o futuro e o próprio papel diante de um cenário de instabilidade crescente.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), em 11 municípios dos vales do Rio Pardo e Taquari, mostra que a experiência direta com o desastre ampliou a consciência sobre as mudanças climáticas, mas ainda não foi suficiente para transformar essa percepção em ação coletiva.
Ao todo, 389 pessoas foram entrevistadas entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026 durante a pesquisa “Percepção pública sobre enchentes e mudanças climáticas nos Vales do Rio Pardo e Taquari, RS”.

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O levantamento integra um projeto coordenado pelos professores Marco André Cadoná e João Pedro Schmidt, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs). O resultado aponta para um paradoxo. Enquanto a maioria da população reconhece a gravidade do problema, ainda há dificuldade em compreender suas causas e, sobretudo, em agir de forma organizada.

O impacto que permanece

Quase dois anos após as enchentes, os efeitos seguem presentes, não apenas nas estruturas físicas, mas também na memória e na saúde emocional. De acordo com a pesquisa, 48% dos entrevistados tiveram perdas materiais, enquanto 17% relataram perdas no âmbito familiar. As consequências, no entanto, vão além dos danos visíveis.

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“As pessoas têm alto nível de preocupação, com um nível de ansiedade muito elevado”, afirma o cientista político João Pedro Schmidt, ao lembrar da experiência dos bolsistas durante o trabalho de campo. “Nem sempre as pessoas conseguiam responder às perguntas sem entrar em detalhes de lembranças duras.”
O dado se conecta a outro ponto central do estudo: as doenças mentais aparecem como a maior consequência das enchentes para os municípios. Para o sociólogo Marco André Cadoná, esse cenário reflete uma ruptura ainda em curso. “Há um adoecimento mental muito presente em todo esse contexto de pós-enchentes, de mudanças climáticas”, afirma.

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Consciência ampliada

Se o trauma deixou marcas, também ampliou a percepção sobre o clima. A pesquisa mostra que 94% dos entrevistados já ouviram falar em mudanças climáticas e 90% estabelecem relação entre as enchentes e esse fenômeno. Esse dado, segundo Schmidt, indica mudança significativa, mesmo fora do momento crítico do desastre. “O percentual de 90% e vários outros resultados da pesquisa sinalizam que as enchentes chamaram como nunca a atenção ao fenômeno mundial das mudanças do clima”, explica. Ainda assim, essa consciência não é homogênea. A maioria dos entrevistados mistura causas humanas, naturais e até divinas para explicar as mudanças climáticas.

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Para o pesquisador, isso revela ponto de fragilidade no entendimento coletivo. “Essa mistura de causas humanas, naturais e divinas atrapalha a compreensão do que ocorre hoje no clima”, afirma. “As atuais mudanças climáticas são provocadas pelos humanos.” Cadoná reforça que o cenário abre espaço para um desafio importante: qualificar o debate público. “A população efetivamente tem preocupação com o que ocorreu e com as mudanças climáticas, abrindo um espaço de reflexão sobre a importância de os governantes serem consequentes a essas percepções.”

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Medo do futuro

A pesquisa também evidencia uma mudança no modo como as pessoas enxergam o futuro. Cerca de 80% dos entrevistados acreditam que enchentes como as de 2024 voltarão a acontecer nos próximos anos ou décadas. Ao mesmo tempo, apenas 21% são otimistas quanto a um retorno à normalidade.
Para Schmidt, esse dado revela mais apreensão do que preparo. “A taxa de 80% indica apreensão, ansiedade e o fim das certezas sobre o clima”, afirma. Essa percepção se soma a um conjunto de emoções negativas associadas ao tema: medo, insegurança e incerteza aparecem com frequência nas respostas.

Um grande paradoxo: mudança individual, ausência coletiva

Um dos dados mais emblemáticos da pesquisa está na forma como a população reage a esse cenário. Cerca de 70% dos entrevistados afirmam ter mudado o modo de pensar e agir após as enchentes. No entanto, essas mudanças ocorrem no nível individual, sem considerar iniciativas de mobilização social ou políticas públicas. “Há um grande drama”, resume Schmidt. “As pessoas querem fazer algo, mas ainda há uma compreensão limitada do que fazer.”

Ele detalha que o descompasso ocorre porque as pessoas estão sensibilizadas e se mostram dispostas a colaborar, mas a consciência social não avançou o suficiente para que entendam que as causas das mudanças climáticas só podem ser contidas de forma coletiva. “Falta o chamado do poder público e das lideranças sociais para ações coletivas.”

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Cadoná também observa que esse cenário exige uma mudança na forma como as políticas públicas são construídas. “É importante que se amplie o diálogo, que os governos se abram e ouçam mais a população, para que essas políticas sejam construídas como resultado de diálogo e não de forma verticalizada.”

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Apesar da ausência de mobilização coletiva, a pesquisa revela um dado relevante para gestores públicos: há forte apoio popular a políticas ambientais. Mais de 90% dos entrevistados apoiam medidas como educação ambiental nas escolas, sistemas de monitoramento e alerta, drenagem de rios, investimento em pesquisa e tecnologia, replantio de matas ciliares e retirada de moradores de áreas alagáveis.

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Segundo Cadoná, esse apoio inclui até medidas mais estruturais. “Há uma porcentagem significativa da população que apoia inclusive a possibilidade de termos impostos que possam ser revertidos em ações de mitigação e adaptação climáticas.”

O desafio que se impõe

io para os próximos anos: fazer com que preocupação se torne ação. “O grande desafio é transformar preocupação em conhecimento e ação”, resume Schmidt. “Hoje temos muita preocupação, mas o conhecimento das pessoas é limitado, e a ação coletiva é praticamente inexistente.”

Reforça que a resposta não pode ser individual. “As atuais mudanças climáticas têm origem humana, portanto nós podemos atuar sobre elas, não de forma individual, mas de forma coletiva.” Nesse cenário, o papel das instituições torna-se central. “Quem deve puxar essa discussão são os agentes políticos, os partidos, as lideranças comunitárias”, afirma. “Como nós podemos agir coletivamente?”
Cadoná complementa apontando para a necessidade de escuta e construção conjunta. “Promover decisões sem diálogo encontra resistência. Estamos falando de pessoas que têm histórias, vínculos, relações com o território.”

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Se há algo que a pesquisa revela com força é que a sociedade dos Vales mudou – ainda que de forma incompleta. Há mais informação, mais sensibilidade e mais preocupação. Mas ainda falta um elemento essencial: a transformação dessa consciência em ação estruturada.

Entre o medo de novas enchentes e a possibilidade de construção de respostas coletivas, o que se desenha é um momento de transição. Um momento em que, como indicam os dados, a população já percebe o problema, está disposta a agir, mas ainda espera por caminhos que tornem essa ação possível.

A votação

Mesmo com esse nível de preocupação, a pesquisa mostra que a pauta climática ainda não se consolidou como fator decisivo nas escolhas políticas. Nas eleições municipais de 2024, cerca de metade dos entrevistados afirmou que as enchentes ou propostas relacionadas às mudanças climáticas não tiveram influência significativa no voto.

Para Schmidt, isso evidencia um estágio intermediário de consciência. “Preocupação é uma coisa, consciência e ação prática é outra”, afirma. “Se houver estímulos adequados, essa preocupação tende a se converter em uma nova consciência.”

Ano será marcado pelo El Niño

Este ano vai ser marcado pela chegada do El Niño. De acordo com informações dos meteorologistas Estael Sias e Luiz Nachtigall, em 2026 e 2027 o fenômeno climático deve trazer o risco drástico de enchentes e chuvas excessivas no Rio Grande do Sul.

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O período mais crítico do El Niño, que deve se instalar entre maio e junho, se dará nos meses de novembro e dezembro, a exemplo do que ocorreu em 2023. Naquele ano, um ciclone na costa do Litoral Norte resultou nas cheias de setembro e novembro, culminando no desastre de maio de 2024.
Os especialistas alertam para o fato de que não estão afastadas as possibilidades de enchentes em solo gaúcho. Segundo Nachtigall, o novo evento pode trazer temperaturas globais recordes, em uma nova escalada do aquecimento global.

Em Candelária, moradores ficaram ilhados no interior; a água cobriu enormes áreas junto à 287

Para o cientista político João Pedro Schmidt, diante desse cenário, o grande instrumento norteador, no caso de Santa Cruz do Sul, é o Plano Municipal de Redução de Riscos, apresentado no início de março pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB). ​​O levantamento identificou 146 áreas de risco no município. Seis delas foram classificadas como de risco muito alto, 55 como alto e 85 como médio. Considerando todos os setores mapeados, a estimativa total em intervenções necessárias chega a cerca de R$ 300 milhões.

Todavia, Schmidt afirma que as providências da Prefeitura ainda parecem lentas. “A proteção aos moradores do Navegantes e do Várzea, ainda sem ter diretrizes claras, é particularmente preocupante”, ressalta. Ele também chama atenção para a necessidade de ações mais efetivas de comunicação. “Em 2024, as críticas à comunicação foram especialmente fortes por parte dos moradores do Bairro Belvedere, que foram orientados a evacuar a área em um cenário de confusão.”

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Por outro lado, ele destaca que as dificuldades de 2024 trouxeram lições importantes para melhorar a atuação da Defesa Civil, das prefeituras, das organizações da sociedade e a autodefesa das pessoas em geral. Schmidt lembra que os poderes públicos federal e estadual ajustaram procedimentos relativos à solicitação de apoios e auxílios e sistemas de monitoramento e alerta foram reforçados, o que é decisivo para evitar perdas de vidas. “Estamos mais preparados sob esses aspectos, mas, em termos de movimento de massa (deslizamentos) e outros riscos, é difícil saber.”

Ele reforça que, sem um debate público, as pessoas não saberão como agir coletivamente e continuarão a fazer ações individuais. Em um cenário de alerta, como no caso do fenômeno El Niño, Schmidt afirma que “cabe aos órgãos públicos municipais, Prefeitura e Câmara de Vereadores, apoiados pelas organizações da sociedade civil, chamar as pessoas para discutir medidas de caráter público”.

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