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LUIS FERNANDO FERREIRA

Erro de avaliação

Pergunta que eventualmente nos importuna: o que significa a palavra “humanidade”? É humano causar sofrimento deliberado para semelhantes ou outras espécies, só por diversão ou prazer? Se não for, seria o quê? Característica de um alienígena? Mas se é algo até recorrente.

Ou, então, ser humano é assistir passivamente ao sofrimento alheio sem interferir? Mesmo se estiver do nosso lado? Se for verdade, boa parte da humanidade ficaria excluída do conceito, pois uma conotação moral positiva quase sempre vem com ele. Diante de alguém com atitudes altruístas ou especialmente generosas, em geral se diz: “é muito humano”.

Fica melhor ater-se ao significado primordial de “humanidade”: aquilo que diz respeito ao gênero humano, seja bom ou ruim, decente ou perverso. Dá menor margem a enganos.

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A dificuldade em definir “humanidade” a partir de juízos morais está bem representada em um conto de ficção científica da década de 1950. Chama-se “Humano é”, do norte-americano Philip K. Dick. Um cientista viaja em expedição a outro planeta e, quando retorna, já não é a mesma pessoa.

Antes ríspido, desagradável e até cruel, sempre grosseiro com a esposa (um relacionamento abusivo, poderíamos dizer), Lester Herrick volta como um autêntico gentleman, cortês e interessado no que os outros estão pensando ou sentindo (algo que nunca lhe importou). Fisicamente nada mudou, mas a transformação de comportamento de imediato chama a atenção de quem está ao redor.

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A verdade não demora a surgir: não é Lester quem está ali. Em sua parada no planeta Rexor 4, ele havia sido sequestrado e mantido em cativeiro por alienígenas. Um deles assume sua forma física, no melhor estilo Invasores de Corpos, e vai para a Terra em missão que pode antecipar uma invasão.

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Agentes do governo contam tudo para Jill, a esposa, e orientam que ela testemunhe contra o invasor. Também garantem que vão trazer Lester Herrick de volta… e, bem, talvez não devessem ter mencionado essa última parte. Para surpresa (quase) geral, ela se recusa e prefere deixar tudo como está. Afinal, o ET não a menospreza, não a insulta, não grita nem xinga o tempo todo, em resumo, é mais “humano” do que seu desventurado marido. No fim, ela e o simulacro voltam para casa juntos.

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Dessa maneira, percebe-se que aparências e expectativas às vezes erram no alvo. O desumano, monstruoso, pode estar justamente no que é familiar; e o “humano” poderia surgir justamente no que há de mais estranho e, em princípio, inaceitável. E até uma aparentemente tola história de ETs revela-se mais interessante do que se pensava.

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