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LUIS FERNANDO FERREIRA

O verdadeiro viver

Deve existir algo mágico no palco de um teatro, esse espaço de encenação ficcional que ganha vida sem nenhum tipo de mediação. Não há telas, filtros e outros dispositivos entre o ator e seu público, nada do que se possa chamar de “edição”. Temos apenas o contato direto com o artista que, de forma intrigante, expressa sua própria verdade ao assumir a identidade de outros personagens. Com todos os riscos.

João Guimarães Rosa, o autor de Grande sertão: veredas, tentou captar e traduzir o que há de misterioso na criação teatral. Assim fez no conto Pirlimpsiquice, que está no livro Primeiras estórias. O título, provavelmente, faz alusão ao “Pó de Pirlimpimpim” inventado por Monteiro Lobato no seu “Sítio do Picapau Amarelo”.

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Nas aventuras infantis do Sítio, o pó é uma substância que personagens como Emília e Narizinho usam para se transportar a lugares distantes. Ele rompe as barreiras entre o real e a fantasia. De maneira análoga, no conto de Rosa, o palco é onde jovens alunos de uma escola tradicional são levados para território incerto.

Diante da plateia, apresentam uma peça e são dominados por um “encantamento” que não sabem explicar. Nem como resistir. Se um dos sentidos da arte é a liberdade, eles o levam às últimas consequências. Improvisam fora do texto original de tal modo que logo estão encenando outra história, diferente da ensaiada e que não sabem como vai terminar.

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“Eu via – que a gente era outros – cada um de nós, transformado”, afirma o narrador-personagem. Haviam se transportado. “Cada um de nós se esquecera de seu mesmo, e estávamos transvivendo”, acrescenta, antes de se perguntar: isso seria o verdadeiro viver?

Mas então ele percebe que é necessário romper o encantamento, interromper o “representar sem fim” que, desmesurado, vai se tornando um tumulto caótico. E só consegue fazê-lo ao saltar da beirada do palco. Um pouco como se caísse, mas de propósito.

“E, me parece, o mundo se acabou.”

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Quando eu era bastante jovem, tive um breve envolvimento com teatro amador, começando na escola. Mais ou menos nessa época, li o conto de Guimarães Rosa pela primeira vez e pensei: acho que sei do que você está falando.

Mais ou menos nessa época, conheci Eduardo Spall, o Duca, que agora se foi de maneira prematura. Dele vou guardar conversas entusiasmadas, sobre muitas coisas. Dedicou a vida ao teatro, pois era isso que amava. Como um desses personagens rosianos, não queria apenas sobreviver, mas “transviver”.

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E acredito que ainda conseguirá, na memória dos que caminharam com ele. Longa é a arte. Breve é a vida.

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