Um paulista do município de Cordeirópolis, a cerca de 160 quilômetros de São Paulo, capital, é uma das mais respeitadas e admiradas lideranças do agronegócio na atualidade, no Brasil e no mundo. O engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues acumula, aos 83 anos, vasta experiência de atuação nas esferas pública e privada. Em seu currículo estão as contribuições como ministro da Agricultura entre 2003 e 2006, na primeira gestão de Lula, e, antes disso, sua forte atuação coooperativista, como presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), em duas ocasiões; da Organização Internacional de Cooperativas Agrícolas, entre 1992 e 1997; e da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), entre 1997 e 2001, entidade centenária de forte expressão global, da qual foi o primeiro não europeu a conduzi-la.
Na atualidade, é professor emérito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Agro, na capital paulista, e conselheiro e consultor de uma infinidade de organismos e instituições, dentro e fora do País. Por ocasião da realização da COP-30, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Belém, no Pará, em novembro do ano passado, foi convidado pelo presidente da edição, André Corrêa do Lago, a ser Enviado Especial da Agricultura no evento.

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Em entrevista exclusiva à Gazeta do Sul, concedida por meet na terça-feira, 2, em uma hora de conversa, frisou que foi oportunidade valiosa de, pela primeira vez em uma COP, divulgar para o mundo os diferenciais do Brasil como fornecedor de alimentos e matérias-primas, em sintonia com o meio ambiente e com preservação dos recursos naturais e do ecossistema.
Rodrigues é um entusiasta do cooperativismo (no agro e em outros ramos) e das possibilidades da agroenergia. Citou o modelo revolucionário do etanol a partir da cana-de-açúcar ou do milho e ainda do biodiesel de soja e de outras oleaginosas. Porém, foi enfático ao cobrar política de Estado (não apenas de governo, como adverte) para que finalmente o País possa se beneficiar, a longo prazo, de seus potenciais no agro. E para que os ganhos sejam compartilhados com o campo, e não se concentrem nas cidades.
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Entrevista – Roberto Rodrigues, engenheiro agrônomo e professor
- Gazeta do Sul – Como o senhor avalia o momento do agronegócio brasileiro nestes primeiros meses de 2026, em meio a um cenário internacional de turbulências, conflitos, e mesmo após guerra de tarifas? É um período promissor ou segue de muita inquietação?
Roberto Rodrigues – Bom, eu acho que nós vivemos um momento extremamente delicado para o agro brasileiro, com problemas de toda ordem. Diria até que é uma crise muito profunda. Eu já estou com idade suficiente para ter vivido outras crises, mas nenhuma dessa proporção, porque nessa aqui tem os nossos problemas internos: Custo Brasil, juros insuportáveis, tributação pesada… Os insumos subiram, e os preços da produção caíram. É um cenário péssimo, péssimo. Somam-se guerras, insumos mais caros, e ainda o combustível…
Então, é um cenário muito ruim, difícil, geopoliticamente complexo. Não é uma nova ordem econômica, é uma nova desordem econômica: nada é claro, ninguém sabe o que vai ser na segunda-feira que vem. E a isso se soma essa polarização política. A eleição complica todo esse processo, com um viés só de busca da vitória eleitoral.
Há um endividamento muito grande no País: no Rio Grande do Sul isso está mais problemático, porque houve essa catástrofe da enchente recente, e isso não está resolvido ainda. Mas agora isso se estendeu para outras regiões do País, que também tiveram problemas de clima: menos chuva, excesso de chuva, a produtividade foi baixa em geral, e com isso a renda ficou muito pequena, ou negativa. O endividamento cresceu muito e o cenário não é positivo. Vai melhorar no ano que vem? Nada diz que vai melhorar.
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- O que o senhor entende que se torna mais urgente, em um contexto assim?
Há necessidade de uma ação política ampla, de Estado, de governo, que permita uma solução desse problema todo. Hoje, lá no Congresso, tem um ou dois que buscam uma espécie de secularização das dívidas do produtor rural, mas não há entendimento com o governo. Por isso, há uma incerteza interna enorme.
E as circunstâncias externas também não ajudam em nada. Alguns setores estão particularmente desastrosos: cana-de-açúcar, por exemplo, é uma tragédia, até porque o governo subsidia a gasolina e o álcool não, então desmonta o processo todo. Aliás, a Dilma [Rousseff, ex-presidente] fez a mesma coisa. Foi uma tragédia que até hoje não se consertou ainda. É um cenário bastante complicado.
Eu diria que há um ou dois setores que são um pouco menos prejudicados: o café ainda está num preço bom, apesar de ter caído bastante, mas ainda tem um preço bom, consequência de problemas de clima em anos anteriores. Em compensação, tem tanta gente plantando café que daqui a dois, três anos o café tem tudo para ser mais um problema.
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- Surgem algumas oportunidades?
Por outro lado, a guerra trouxe finalmente um entendimento de que o Brasil tem solução. Que tem o etanol, de cana e de milho; que tem o biodiesel de soja desenvolvido. Faz 50 anos que há o etanol, mas agora é que alguns iluminados descobriram que o Brasil tem solução, que é a saída do biocombustível. E, provavelmente, vai acontecer a mesma coisa com os alimentos, porque há essa questão do efeito horroroso (que não está passando) do fertilizante, do corretivo, do enxofre, que não está chegando para ninguém.
Provavelmente vai haver uma estação de plantio do próximo ano, desse ano para a frente, com menos tecnologia. E, se essa guerra [no Irã] demorar mais tempo, isso pode gerar uma redução de oferta dramática, com inflação de alimentos e tudo mais. E aí alguns iluminados vão dizer “ah, mas o Brasil pode resolver o problema!” Nós estamos cansados de saber isso, que a solução está aqui dentro de casa, tanto com a energia quanto com alimentos, mas sempre tem gente que demora para perceber as coisas acontecendo.
Em resumo: acho um ano muito ruim, e acho que o ano que vem não será bom também. Mas o horizonte de longo prazo é positivo. O mundo enfrenta dificuldades muito grandes, na área da segurança ambiental, da segurança energética, nas questões climáticas, e tudo isso pode ser resolvido pelo Brasil em uma grande coordenação com o mundo tropical.
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Porém, como reitero sempre: o futuro é brilhante, mas o futuro não interessa aos mortos. Precisamos sobreviver para chegar a esse futuro, e a sobrevivência vai depender de alguns fatores que ainda não estão claros.
- O curioso é que o Brasil, nesse contexto, está, ao que tudo indica, colhendo uma nova supersafra, mais uma vez batendo recorde. Porém, fica a sensação de que ela poderia estar sendo muito melhor para as finanças nacionais…
É, essa supersafra tem uma vantagem para o País, para o consumidor brasileiro. Os alimentos, em geral, estão mais baratos do que estiveram há dois, três anos, bem mais baixos. Portanto, a agricultura é um fator que ajuda no combate à inflação, rigorosamente. Está ajudando muito: a exportação vai ser muito grande, e o saldo comercial idem. A agricultura vai contribuir bastante neste ano aqui, como nos anos anteriores.
Então, o Brasil está sendo ajudado pela agricultura, mas o setor privado, agrícola, não está, porque as margens desapareceram ou são negativas. Aí há esse paradoxo: a sociedade urbana é beneficiada, a economia nacional é beneficiada, mas o setor rural está sofrendo muito.
E o que nós temos que pensar, estrategicamente, é quanto o sofrimento atual vai perturbar o agro amanhã, no ano que vem, no outro ano. Vai faltar fertilizante. Um ano só não é problema para a agricultura; nós estamos trabalhando com tanta tecnologia nos últimos 20, 30 anos, que um ano com menos fertilizante não vai afetar duramente a produção. Os históricos estão altos, e não terá problema ainda de oferta no ano que vem.
Mas, mantendo esse processo, vamos pensar em relação aos alimentos daqui a dois anos, e aí o agro pode vir a ter uma vantagem com preço melhor, mas a sociedade não. É preciso compreender esse contraponto entre rural e urbano, e fazer uma estratégia em que ambos caminhem juntos, em uma forma de benefício coletivo. E isso é questão estratégica, que é papel do governo, papel do Estado: nós devemos trabalhar harmoniosamente.
- O senhor consegue ver algumas regiões do País mais preparadas hoje, com mais resiliência para enfrentar cenários adversos?
Uma coisa que caracteriza a contemporaneidade é que as margens por unidade de produto ficaram cada vez menores. De modo que a renda sai na escala. Onde essas coisas estão sendo positivas, onde é favorável? Com duas características: a primeira para quem teve produtividade acima da média, que produziu bastante, com bom padrão tecnológico, com boa gestão e equilíbrio. Esse vai ficar no azul e vai tocar a vida para frente. Já onde a produtividade é baixa, abaixo da média, ali não tem solução.
Por outro lado, as cooperativas, mais eficientes, mais resilientes, defenderam seus cooperativados também e garantiram uma inclusão social razoável, mesmo para quem não foi muito bem em produtividade. As cooperativas têm um colchão de crédito que permite o suprimento. Então, o momento deveria ser favorável para quem teve produtividade alta e cooperativa agropecuária bem organizada, que trabalhou no apoio. Onde houve isso, ali tem sucesso.
Onde choveu bem, no Centro-Oeste, igualmente foi uma coisa melhor. Por isso, é uma região que tem mais condições de sobrevivência do que outras.
- O senhor sempre tem sido defensor enfático dos cuidados com recursos naturais… O senhor consegue ver o Brasil hoje mais consciente disso, ou ainda continua sendo muito inconsequente?
Muito boa pergunta, Romar. Com muita frequência, jornalistas estrangeiros perguntam: “a agricultura brasileira está preparada para esse debate?” E eu digo o seguinte: “a agricultura brasileira não é onda”.
A questão é que você tem várias culturas brasileiras. Você não pode comparar a cultura da Serra Gaúcha com a cultura de Rondonópolis (MT) ou de Sergipe. São muito diferentes. Então, para sua pergunta, eu digo o seguinte: olha, eu ando muito, viajo o tempo inteiro, correndo o Brasil inteirinho, e acho que o número prevalente de produtores brasileiros, prevalente, não vou dizer quanto, mas entre 80% e 90% dos brasileiros, estão preparados para enfrentar qualquer circunstância, qualquer problema de caráter ambiental ou tecnológico, e topam qualquer parada.
Tem 10% a 20% que ainda não estão. Por circunstâncias diversas; não é porque não querem, é porque ainda não chegou até eles a formação adequada, não entendem os processos todos.
- O que o senhor entende que deve ser prioridade em relação ao agro nos próximos anos?
De uma maneira geral, o Brasil está bem preparado. Falta ainda alguma coisinha, mas estamos no bom caminho. Diria, aliás, e tenho repetido muito isso: nós precisamos de um pacote central, que tem cinco temas principais.
Primeiro: logística e infraestrutura. O Brasil ainda carece de logística e de infraestrutura, sobretudo na região Centro-Oeste.
Segundo: política de renda. O Brasil é o único país importante do mundo que não tem agricultura com renda determinada. Eu criei o Seguro Rural há 22, 23 anos, quando era ministro da Agricultura. Até hoje o Seguro Rural não funciona porque o governo não faz a parte dele. Isso é uma coisa central ainda para estabilizar o processo.
Terceiro: falta acordo comercial que garanta o nosso crescimento e a produção. Por exemplo, a China, nosso maior parceiro. Um terço do nosso mercado é aderido para a China. E não temos acordo comercial com a China. E nem com a Índia, com outros países asiáticos. Precisa haver acordo comercial para que a gente tenha uma visão de crescimento estável, segura, garantida.
Quarto: tecnologia. A plataforma tecnológica é central. O Brasil cresceu nos últimos 30 anos por causa da tecnologia, que avançou espetacularmente, sobretudo tropicalizando.
E quinto: cooperativismo. Um associativismo que traga o pequeno cada vez mais para junto, que o inclua. Aqui há um pormenor que acho relevante. Com a economia globalizada, a margem por unidade de produto foi diminuindo. Então, a renda na agricultura está na escala. E o pequeno não tem escala; portanto, ele está fora. Nos países desenvolvidos, ele não está fora porque o subsídio garante a vida dele. Na Europa, nos Estados Unidos, o subsídio garante a sobrevivência. Mas aqui não há subsídio, não tem renda para isso. Por isso a solução é cooperativa. O cara faz a escala na cooperativa.
Esses cinco pontos constituem um grande pacote. Mas o papel de embrulho disso tudo se chama sustentabilidade. Tem que ser sustentável, do contrário os mercados vão escassear cada vez mais. A competitividade depende da sustentabilidade.
- O senhor representou o agro na COP-30. Como avalia aquela conferência?
Há uma questão interessante a considerar. Nas 29 COPs anteriores a agricultura não era tema. Alimento era tema, agricultura não. Como se fosse possível segregar um do outro. Na COP-30, o presidente da edição, embaixador André Corrêa do Lago, um homem que conhece a agricultura, me pediu para ser um enviado especial. E levei a agricultura tropical para mostrar para o mundo inteirinho.
Foi uma fortíssima e eficiente participação da Embrapa, que tem uma estação em Belém do Pará, e lá criou uma vitrine tecnológica que os estrangeiros iam visitar. Aí caiu o queixo deles. Foi uma exposição permanente e viva do agro tropical brasileiro. Preparei um documento amplo, de 150 páginas, em inglês, que tinha a história da Embrapa durante 50 anos, e mais a visão para frente: questão energética, alimentar, sustentabilidade etc. Foi distribuído para todo mundo. E fizemos muitos eventos.
O agro brasileiro ficou conhecido como agro tropical sustentável. E isso ficou marcado a tal ponto que a Turquia, que vai sediar a próxima COP, pediu o modelo. Eu diria para você, Romar, que conseguimos mostrar para o mundo que o nosso agro é de fato tropical e sustentável, e replicável no cinturão tropical do planeta.
- O senhor está confiante em relação ao acordo com a União Europeia?
O acordo União Europeia-Mercosul era negociado há mais de 25 anos. Participei disso antes de ser ministro, durante e depois de ser ministro, trabalhando no processo todo. Eu tinha a visão clara de que para a Europa agora era muito importante o acordo, porque a polarização entre Estados Unidos e China deixou a Europa enfraquecida no processo comercial global. Para ela, União Europeia, era fundamental esse acordo.
Mas eles resistiram, resistiram, e acabaram meio que compelidos para esse acordo na situação atual, nessa desordem econômica em que o mundo vive. O que acho que falta, e vou dizer, é uma palavra que alguns vão achar bobagem: falta amor. Falta vontade, desejo nessa integração toda.
De modo que penso que os resultados serão pífios no começo do processo; 15 dias depois, a Europa já criou um problema para a carne brasileira. Ou seja, vamos ter problemas, vários problemas ao longo do tempo, nessa mesma direção. Vejo um começo lento, de avanços positivos demorados, mas sou muito confiante nesse processo.
Com o tempo, ficará evidente que nossa capacidade de suprir a Europa é maior do que a que eles têm, e com menos risco para eles. Acredito que com o tempo isso vai trazer vantagens para nós. Teremos problemas em algumas áreas. Em industrializados, máquinas agrícolas, mas com o tempo isso também trará competição, tecnologia. À tua pergunta tem que responder assim: olha, no curto prazo não vejo grandes vantagens, mas no médio e longo prazo acho que é uma coisa importantíssima.
- A partir dele, talvez se destravem agora outros acordos?
Tocaste num ponto fundamental, Romar, e ninguém fala sobre isso por aqui. O acordo União Europeia-Mercosul tem uma vantagem adicional que é a seguinte: um acordo dessa natureza é um aval, digamos assim, para que outros países façam acordo com o Mercosul ou com o Brasil, particularmente, ou com os países do Mercosul.
Por quê? Porque as exigências ambientais, sanitárias, tecnológicas que a União Europeia faz são uma baliza muito alta. A regra está muito alta. De modo que, se um país qualquer observar, bom, se a União Europeia fez acordo com o Mercosul, também vou fazer. Porque é como se pegar um banco muito rigoroso, muito duro, que abre financiamento para cooperativa ou instituição; se passou lá, vai passar aqui também. Então, acho que o acordo traz esse benefício que você colocou muito bem, parabéns, porque não vejo ninguém se preocupar com isso.
- De um lado, Estados Unidos; de outro, a China. Nesse embate global, como se posicionar? A China são 1,5 bilhão de pessoas…
Bom, você colocou um dado geo-político fundamental aí. Eu sou do tempo, e você pegou o resto desse tempo também, em que a briga era a Guerra Fria, que acabou com a queda do Muro de Berlim e a globalização da economia. A ideia era construir um mundo mais harmonioso a partir daí, e isso funcionou por alguns anos, mas a virada do século 21 desarrumou essa harmonia. E hoje eu diria que é uma desarmonia; não é mais Washington contra Moscou, é o Ocidente contra a China, a Ásia e a China, não é?
E nós? Somos um país ocidental que hoje depende da China. Temos grande oportunidade e ao mesmo tempo um grande risco. Oportunidade porque precisamos estar abertos a todos os lados; um país muito grande como o nosso, capaz de atender mercados demandantes no mundo inteirinho, não podemos ter preferência ou privilégio para ninguém. Tem que estar aberto para todo mundo.
Vejo nessa polaridade, bipolaridade, que tem hoje, Ocidente de um lado, China do outro lado, com a China dominando processos, nós estamos colocados geograficamente e comercialmente em uma posição perigosa, mas altamente oportuna. Se soubermos aproveitar isso e fizermos com que os acordos sejam cumpridos, e com competência e eficiência, respeitando as demandas todas que são colocadas na área da sustentabilidade, será excelente.
- Em que o Brasil mais pode ou deve se apoiar, para tanto?
Acho que é uma grande possibilidade para nós realmente caminharmos para transformar o Brasil num campeão mundial da segurança ambiental e energética e, portanto, da paz. Vejo o horizonte de médio e longo prazo muito positivo com esse acordo e outros que virão. Mas é preciso ter acordos comerciais. A China é o teto do nosso mercado: tem que fazer um acordo que determine isso. Com a Índia igualmente, é necessário fazer um grande acordo.
Além da Ásia, gigante, é preciso olhar o Oriente Médio, que também não tem produção própria. Há enorme capacidade de espaço a ser ocupado, e é preciso ter inteligência para isso.
- Quando o senhor menciona que, ao mesmo tempo, o cenário é perigoso, o que é mais perigoso?
Acho que é perigoso por nossa incompetência. Nós temos que olhar essa oportunidade do agro tropical, América Latina e África, esse território tropical que tem terra para crescer, o fator tecnológico ainda é baixo. O resultado é muito baixo. E nós desenvolvemos um território tropical sustentável que é replicável, claro, considerando as condições climáticas de cada país, a questão institucional. Mas o modelo, a plataforma tecnológica, é replicável.
O Brasil tem a condição de assumir um protagonismo na história econômica do mundo que nunca teve antes: a questão alimentar tem uma dimensão extraordinária, e com a pandemia, e agora com esse desastre da guerra, esse processo vai se intensificar.
Acho mais. Acho que o mundo inteiro está de olho no Brasil em três temas: segurança alimentar, energia e terras raras, que oferecem uma ação mineral igualmente gigantesca. O mundo tem simpatia pelo Brasil, e vejo uma coisa muito favorável. Mas tem que ter segurança jurídica, estratégia e mecanismos para que outros não cheguem e queiram dominar, para ter todo o processo da segurança interna do País, gerando emprego, riqueza e renda e dando para a gente a chance de ensinar o mundo a fazer, ensinar o mundo a pescar.
- Agregando valor?
Não quero exportar alimento só, quero exportar usina, indústria, tecnologia, que aprendemos a fazer. Quero ter papel protagônico em nível global e não apenas vendendo comida ou vendendo energia, mas ,mais do que isso, vender know-how. É uma lástima que hoje, ao que tudo indica, o que se enxerga é mais insegurança jurídica do que segurança jurídica. Quem vai investir num país que você não sabe se amanhã vai ter imposto maior ou menor, se o juro vai cair ou diminuir, não há certeza em relação ao futuro. Eu preciso que haja uma ação do Estado brasileiro mais na direção de parceria do que de adversário e abrir para tudo, para todo mundo.
- O senhor tem sido chamado muito ainda para ser interlocutor em instâncias governamentais?
Não, estou fora do baralho (risos). Tenho sido muito convidado pelo setor privado e faço palestra quase todo dia, no Brasil inteirinho e fora. Com frequência sou convidado para falar, explicar, com base na minha experiência; aos 83 anos já vivi muitas crises. E eu digo que a experiência vem dos fracassos; o sucesso não ensina nada, o que ensina é um fracasso. Mas não há valor algum na experiência de outro, você não passa a sua cicatriz para ninguém, a cicatriz cada um tem que ter a sua, e ter ideia de como atravessar o processo.
- O que o mundo mais admira no Brasil, na avaliação do senhor?
O mundo precisa de nós em termos de tecnologias na agricultura tropical. Porque o que nós fizemos há 50 anos realmente é uma coisa fantástica. A soja, para mim, é o máximo exemplo. Há cinco décadas só se tinha o plantio dela no Sul. A Embrapa promoveu a adaptação e hoje ela está em todo o Cerrado, com 48 milhões de hectares. É a maior revolução na história do mundo, que o Brasil fez com competência, com tecnologia, ciência e empreendedorismo.
E nunca canso de enfatizar: a grande alavanca foram vocês, os gaúchos. Muitos largaram tudo para trás, eu vi, ninguém me contou, fui ver, chegando no Centro-Oeste, os caminhõezinhos todos estragados, levava a criancinha, cachorro, a sogra, iam abrir área. Foram lá e fizeram essa conquista. Para mim, é a maior epopeia do século 20. E isso não é falado.
Abrir o Cerrado, ocupar o território, isso é uma glória. O que os gaúchos fizeram foi espetacular. A soja e outras culturas sendo implantadas. Essa conquista foi feita com gente brasileira, empreendedora, corajosa, determinada. Eu tenho orgulho disso. Quanto mais velho eu fico e mais eu conheço, mais tenho orgulho do que o brasileiro fez.
Não vejo a nossa sociedade urbana se orgulhando dessa façanha, respeitando e reconhecendo ela. Como o europeu, por exemplo, se orgulha. O italiano se orgulha de seus produtos, o alemão da sua batata, o francês do seu vinho, de seu champanhe. Eu tenho orgulho, e nós temos que ter muito orgulho do que protagonizamos, porque o que nós fizemos é extraordinário. Não houve nada parecido com isso no século 20, nada parecido com o que nós, brasileiros, fizemos há 50 anos, e vocês, gaúchos, participaram disso de forma espetacular. Isso merece os parabéns.
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