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JOSÉ ALBERTO WENZEL

Neblina que afaga

Foto: Romar Beling

Os Campos de Cima da Serra nos receberam num abraço úmido. Em São José dos Ausentes nos apressamos. Queríamos aproveitar a tarde para chegar à borda do Cânion Monte Negro. Com a previsão de chuva para o dia seguinte, talvez ficasse mais difícil o acesso. Antes decidimos vivenciar os Dois Rios, um correndo ao lado do outro, mas em desnível de 18 metros. Impressionante! Só a natureza, soerguida e erodida pelo tempo geológico, para nos recepcionar com um cartão natural dessa ordem. 

Foi ao atravessar o Rio Silveira para então ficar entre ele e o Rio da Divisa que o inusitado, talvez nem tão imprevisível, nos colheu. Resvalei na rasa rocha de fundo e caí de costas na água que me envolveu com a gelidez do inverno. Se frias durante o ano, neste período as águas fluem geladas. Foi quase um susto. Quase, porque purificador. Pensei na Vera, esposa que seguira em frente há um mês. Imaginei-a preocupada, mas sorridente, acalentadora. Ela diria para sairmos logo da água, dar um jeito de colocar uma roupa seca e encontrar um café com leite quente. Quem sabe diria ao nosso filho Rodrigo que não poderia ter deixado um idoso de 74 anos se fazer de guri atrevido. Rodrigo, que nos mobilizara, pois nas palavras da filha Aline: “pai, tu precisas dar uma volta, respirar outros ares”, apressou-se em socorro. 

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Já de roupas trocadas tomamos a direção do pico mais elevado do Rio Grande do Sul, o Monte Negro. Antes que a tarde se fizesse ainda mais atarefada em cobrir os campos com seu manto de neblina, seguimos para o cânion logo adiante. Deslumbrante paisagem! Imensidão abrindo frestas sobre nuvens respirantes que iam e vinham, se aproximavam e distanciavam. Um pulmão de neblina pulsante, brincando com o entardecer, que nos acolhia em fervoroso delírio de imagens. Rodrigo, jornalista, comentou: “É impossível uma foto fazer justiça a essa maravilha toda. Até o céu parece mais perto”.

A chuva apertou. Mesmo assim, retornarmos no outro dia. Havia que se subir o morro da “Cruzinha”. Uma cruz missioneira feita mirante. Dali o panorama se faz amplitude integratória. Em torno os campos em tons amarelados abraçando as nativas matas e suas araucárias; lá adiante o Pico do Monte Negro, a 1.403 metros acima do nível do mar; aqui e ali, riachos entalhados nos basaltos habitados por biodiversas criaturas. Tudo em sintonia, em compartilhamento. Simbiose ampliada nos túmulos dos nativos, habitantes primevos da região. Impossível não cultuar o cemitério originário antes da subida ao morro da Cruzinha. Cume que reverencia os campos de espíritos livres planando nas altitudes das neblinas, vertidas dos olhos nativos que nos afagam.

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O chamado 

Ao afago o compromisso: com o afeto que ressignifica a ciência, com o fazer colaborativo para além do feito interveniente, com o pensar renovador que compreende a natureza em fluxo e não dela se apropria, com o ativismo dialogante ao invés da omissão, com a escrita que transforma. 

5 de junho

Na sexta-feira vivenciamos o Dia Mundial do Meio Ambiente. A data remete ao dia da abertura da Conferência de Estocolmo/Suécia, evento de grande magnitude socioambiental organizado pela ONU em 1972. Passados 54 anos, como estará nossa relação com a Natureza daqui a outras cinco décadas?

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