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AS VOZES DA INDÚSTRIA

Profissionais do cinema explicam por que Santa Cruz chama atenção do universo audiovisual

Foto: Rodrigo Assmann

O 9º Festival Santa Cruz de Cinema fez com que a comunidade deixasse a Copa do Mundo em segundo plano para celebrar o audiovisual. Muito além das sessões de curtas no auditório central da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), a programação reuniu alguns dos principais nomes responsáveis por manter o meio ativo no País. O 2º Evento de Mercado, em parceria com o Santa Cruz Polo Audiovisual e com apoio institucional do Sebrae, debateu o futuro do setor. Mais: aproximou realizadores de produtoras e distribuidoras, o que pode resultar em novas produções.

As vozes desses profissionais confirmaram que o momento de projeção internacional vivido pelo cinema brasileiro, impulsionado pelo sucesso de obras como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto no exterior, abriu janela de oportunidades. Eles defendem que este é o momento de transformar reconhecimento em desenvolvimento estrutural, fortalecendo políticas públicas, ampliando investimentos e consolidando novos polos de produção.

Nesta reportagem, alguns dos principais nomes do mercado trazem seu olhar e reflexões acerca do papel que o audiovisual pode desempenhar na geração de empregos, na atração de investimentos e no fortalecimento da economia criativa. Foram unânimes ao destacar a relevância do trabalho desenvolvido em Santa Cruz por meio da combinação entre Festival de Cinema, Polo Audiovisual, Film Commission e formação acadêmica, que posiciona a cidade no mapa nacional do setor.

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“O Brasil namora o seu cinema outra vez”

Nicolas Piccato, Adido Audiovisual da França no Brasil

“O Brasil está namorando o seu próprio cinema outra vez. Quando cheguei aqui, em agosto de 2024, não senti isso. Seis meses depois vivi cena em que, aguardando para comprar ingresso no cinema, vi pessoas entusiasmadas por assistir a um filme brasileiro. Esse novo momento de namoro do brasileiro com seu cinema é muito importante e estratégico.

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Nesses dois anos em que o Brasil esteve em Cannes, sendo país de honra em 2025, além de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, tudo isso, no ponto de vista audiovisual, evidencia que o País está em caminho certo e ótimo. Neste ano, em que o Brasil não era país de honra, profissionais brasileiros estavam em todos os painéis e em todas as divisões pequenininhas do mercado. Significa que foi uma aprendizagem no ano passado que deu frutos e funcionou.

Vejo a mesma coisa agora em Santa Cruz com os painéis. É minha primeira vez aqui e vi profissionais bem focados com o futuro da indústria brasileira, trabalhando unidos para a expansão do cinema gaúcho e brasileiro. Era o que precisava ser feito, soltar a energia criativa à vontade. Agora é o momento de as coisas acontecerem. Ouvi os profissionais presentes falarem da indústria e de como eles escolhem e valorizam projetos. E estão aqui procurando projetos novos. Acho ótima a energia daqui, e o profissionalismo também.

O mercado brasileiro é formado por 215 milhões de pessoas. A metade da América latina. É algo que na Europa não conhecemos como mercado. Penso que um país tão gigante como o Brasil precisa ter muitos lugares de desenvolvimento do cinema. É preciso que cada um tenha sua própria identidade. 

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Gramado é o festival dos longas. O Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre (Frapa) é voltado a roteiros. E Santa Cruz é dos curtas. O Rio Grande do Sul tem quase 500 municípios. É importante que façam festivais e tenham suas manifestações de cinema, que contribuem para o profissionalismo, a educação e a difusão do cinema. E oferecem ainda visibilidade aos talentos.”

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“Ninguém faz milagre sozinho”

 – Sofia Ferreira, diretora do Instituto Estadual de Cinema (Iecine-RS)

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“O momento atual do cinema brasileiro é uma grande conquista. Quando conseguimos trazer o audiovisual para um grau de engajamento em nível nacional, como já tivemos outrora no futebol, é de fato uma conquista inquestionável.  E quando lotamos as redes sociais do Oscar é um passo que damos para a superação de uma mentalidade colonizada, de autodepreciação e desvalorização de quem foi colonizado e tem maior apreço pelo cinema norte-americano ou europeu. O processo de desconstrução de pensamento é longo. Então, estamos celebrando uma vitória em um processo absolutamente complexo.

Por outro lado, não acredito que devemos nos iludir. É uma vitória que merece ser reconhecida e celebrada, mas não é o suficiente. Precisamos avançar com os marcos legais. Esse espírito de vitória e torcida precisa estar engajando o Congresso, para que tenhamos uma valorização digna. Não dá para se iludir. É preciso ter amadurecimento de como vamos traduzir esse espírito. Não é o suficiente para termos marcos regulatórios fundamentais para garantir que existam novos filmes que tenham capacidade de apelo, de massificação e de democratização. 

Então, vamos celebrar com os dois pés no chão. Penso que Santa Cruz, sobretudo o Festival de Cinema, faz um importante trabalho de integração, com amplitude nacional e internacional, com relações que estão sendo construídas e estabelecidas. Existe todo um ecossistema com Polo Audiovisual e Film Commission. Ninguém faz milagre sozinho, é necessário a construção de uma ambiência com interesse do poder público municipal.

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Vocês têm aqui em Santa Cruz conjuntura que é muito benéfica. Para conquistar passo consistente, é necessário conjuntura. Um elemento isolado não é possível. Para construir um lastro de ecossistema, um crescimento que atraia e dialogue em nível industrial para ter essa conquista, é preciso conjuntura. E é uma conjuntura que cresce e amadurece cada vez mais aqui em Santa Cruz.”

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“O brasil está sendo visto”

 – Carla Domingues, gerente-executiva da Vitrine Filmes, distribuidora independente responsável pelo lançamento de O Agente Secreto

“Vivemos uma onda maravilhosa com o sucesso de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. Mas é importante dizer que são dois exemplos em um oceano de outros projetos que têm muito menos oportunidade de viajar e maturidade para estar em outros mercados. 

Na estratosfera parece que está tudo bem, mas está difícil de pensar que, para que outros projetos como esses voltem a existir no cenário internacional, precisamos continuar investindo em política pública, formação e desenvolvimento. Vale complementar: está acontecendo agora em Xangai, na China, um festival tradicional no qual o Brasil está com delegação pela primeira vez. Isso nos dá um norte e mostra que o Brasil está sendo visto. Não vou dizer que está mais fácil, mas fica menos difícil marcar reuniões com produtoras estrangeiras e distribuidoras. 

Temos que aproveitar o momento, pois estão querendo nos ouvir. Poucas vezes isso ocorreu na história. E eventos no Brasil, como os festivais, têm atraído curadores internacionais. Figuramos em um lugar no qual a porta não estava aberta para chegarmos. Isso não se converte em projetos e negócios necessariamente, mas está bom viver esse momento. Tenho esperança de que vai contribuir. Mas não é automático que aconteça novo O Agente Secreto ou novo Ainda Estou Aqui. 

O Festival Santa Cruz de Cinema proporciona troca muito importante. É muito bom conhecer as pessoas para além de um e-mail com troca fria. Fomos muito bem recebidos aqui. Ouvi falar muito bem antes de estar aqui. Isso mostra que ele possui maturidade e relevância no cenário brasileiro. As pessoas estão ouvindo falar do festival de Santa Cruz e fazendo questão de vir aqui, ter essa experiência, e querem voltar no ano que vem.

As iniciativas fazem com que Santa Cruz ganhe destaque no mapa. Ter conseguido trazer um longa para ser filmado aqui e outras produções é passo importante. E há o curso de audiovisual na universidade. Tudo resulta em ciclo virtuoso para novas produções.”

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“A potência dessa arte está aqui”

Isabella Vidal, produtora-executiva da Gullane, uma das principais produtoras do País, responsável por obras como Carandiru e Bingo – O Rei das Manhãs

“Com tantas obras nacionais alcançando performance de público relevante, e também prêmios e prestígio, isso faz com que aumente nossa força para negociações que precisamos fazer, de toda ordem, seja no âmbito regulatório, especificamente de vídeo em demanda. Ou seja, isso traz força porque mostra a importância desse território, pois existe muito aquela coisa de que, se você apertar um pouco mais ou exigir um pouco mais, eles podem ir embora. E isso jamais irá acontecer, porque esse território é gigante e os números que conseguem ter aqui e a rentabilidade não acontecem em todo lugar. 

É até uma noção do poder para pressionar e para que nós, realizadores, entendamos quanto poder temos para contar nossas histórias. Muitas vezes não performa só localmente; se você contar uma história relevante a partir da sua perspectiva, ela também consegue viajar. E os números comprovam uma coisa que já falávamos e observamos em outros países, como a  Coreia do Sul. 

Sempre considerei os festivais em cidades menores muito mais interessantes, pois há concentração de energia e todo mundo está de fato se encontrando e conversando. Nas grandes cidades, há certa dispersão e aqui, graças a essa convivência mais informal, há trocas muito mais ricas e espontâneas, o que é incrível. A potência está aqui. Santa Cruz tem cenário superinteressante, com várias ações coordenadas, em que uma retroalimenta a outra. Quando você tem  Film Commission, curso de audiovisual e um festival, você cria um mercado, no qual um puxa o outro e vão se potencializando, criando hub audiovisual que é mais forte que iniciativa isolada.”

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“Santa Cruz é uma vitrine de desenvolvimento”

 – Zeca Brito, Secretário de Cultura de Bagé e diretor artístico do Noronha2B e Festival da Fronteira  

“Vivemos um momento de maturidade da linguagem do cinema brasileiro, que resulta da persistência dos realizadores, do conhecimento acumulado por gerações. A partir das limitações, superamos aspectos tecnológicos que são condição para muitos países produzirem. O fato de não termos acesso a tecnologia de ponta fez com que tivéssemos que desenvolver a narrativa, aspectos técnicos da fotografia, da construção dramatúrgica e da atuação.

Isso nos levou a uma excelência na produção que hoje se traduz na participação do Brasil nos grandes prêmios de legitimação internacional, independente de nossos orçamentos. Nossos filmes são muito mais baratos do que os feitos na engrenagem de produção estrangeira. Ao mesmo tempo, conseguem ocupar espaço de igual para igual no sentido da qualidade. Agora cabe ao poder público, cabe à engrenagem sistêmica também, que é regida pela iniciativa privada, reconhecer esse grau de potência e qualidade e resguardar os aspectos industriais desse cinema que, mesmo sem ter garantias, conseguiu chegar até aqui.

O Festival Santa Cruz de Cinema tem papel importantíssimo na medida em que o território já é associado ao desenvolvimento econômico. Santa Cruz do Sul é a segunda cidade mais rica do Estado, e assume o protagonismo de alfabetizar outras regiões sobre o papel que a cultura tem. Santa Cruz é uma vitrine de desenvolvimento e na medida que aposta na cultura, na economia criativa, cumpre papel local e motiva outras engrenagens municipalistas a apostarem nessa economia criativa e na cultura como um aspecto necessário para o ambiente salutar e o ambiente civilizatório que desejamos.”

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“Precisamos aprender a surfar essa onda”

Rodrigo M. Boecker, responsável pela área de criação e conteúdo da Glaz, produtora independente que tem no portfólio grandes títulos para cinema e televisão, incluindo O Caso Evandro e De Volta aos 15

“O mercado já vinha ganhando notoriedade há muitos anos. O que aconteceu é que o Oscar tem mais notoriedade. Estamos sendo brilhantes há alguns anos em Cannes, em Berlim, no Globo de Ouro e em outros. O que ocorre agora é que estamos tendo reconhecimento. Ainda temos incertezas quanto ao futuro, porque vivemos um momento político delicado. Porém, apesar de tudo, a previsão é positiva. Precisamos aprender a surfar essa onda e aprender a nadar de braçadas, do jeito que queremos.

É o segundo ano em que estou no Festival Santa Cruz de Cinema. Se deixarem, venho todo ano. Primeiro, porque ele é incrível; e segundo, porque é importantíssimo. Quanto mais conseguirmos mostrar a possibilidade de produção e criação de projetos fora do eixo tradicional, mais rico será para a gente. O que tem que acontecer é que precisamos não só mostrar essa possibilidade, mas também mostrar que existe capacidade para aquilo ser feito. 

Santa Cruz do Sul tem todos os elementos para se projetar cada vez mais, o que, por si só,  já é um grande diferencial. Não adianta você ter só incentivo se não tiver a instrumentalização para que o incentivo efetivamente aconteça. Dentro do cenário brasileiro, Santa Cruz se mostrou como um lugar onde podemos ter um cenário não apenas do Sul, mas no qual podemos reproduzir outras regiões, falar aquilo que é de outro lugar. 

Há uma pluralidade de cenários que está sendo subaproveitada e pode ganhar mais relevância. Acho que isso tudo é muito importante para que o mercado possa vir ver. E com um festival eficiente como esse, não tem como não olharmos para isso.”

Avaliações

“Queremos continuar a ser referência” 

“Santa Cruz é referência no Rio Grande do Sul no audiovisual, acumulando prêmios, além de ser considerada a melhor para se filmar. O Polo não se limita a fazer filme para ser apresentado em tela, mas gera renda, emprego e desenvolvimento. Cada vez mais o audiovisual evidencia a importância do nosso território, da nossa cultura. E não tem setor que consiga mostrar isso de melhor maneira do que o audiovisual.” – Jaqueline Marques de Souza, secretária de Turismo de Santa Cruz do Sul

“O evento de mercado é um sucesso!”

“Estou feliz em dizer que a segunda edição do Evento de Mercado foi sucesso! Reunimos profissionais de destaque de diferentes áreas. A principal lição é que, além de talento e boas ideias, é preciso construir redes, compreender o funcionamento do mercado e estar preparado para apresentar e desenvolver projetos. A aproximação com profissionais que atuam em empresas como Vitrine Filmes, Gullane e Glaz permite conhecer novas perspectivas.” – Natália Corrêa, diretora da Santa Cruz Film Commission

“Uma grande conquista para quem faz audiovisual”

“Ter um evento de mercado desse porte no interior do Rio Grande do Sul é uma grande conquista para quem faz audiovisual no Estado, porque aproxima de fato quem está produzindo de quem está querendo produzir e gera oportunidade para grandes projetos nascerem. Então, estamos muito felizes com esse evento.” – Diego Tafarel, organizador do Festival Santa Cruz de Cinema

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