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AUTORA GAÚCHA

Patrícia Vilela lança livro sobre os dilemas da sociedade contemporânea

A dramaturga e atriz Patrícia Vilela, santa-cruzense radicada em São Paulo

A humanidade sonha com o melhor dos mundos, mas na prática forja um cotidiano cada vez mais violento e caótico: pelo qual ela própria é diretamente responsável. E é sobre esse panorama que uma escritora santa-cruzense reflete em livro que acaba de ser lançado. “Trilogia de uma sociedade distópica” é a obra de estreia da atriz e dramaturga Patrícia Vilela, 54 anos, desde o ano de 2000 radicada em São Paulo, onde cumpre exitosa carreira no teatro, no cinema e na televisão. A edição é da paulista Patuá, em 148 páginas, e exemplares podem ser adquiridos no site da editora por R$ 60,00.

Ainda que tenha longa vivência no universo da teledramaturgia, apoiada em sólida e ampla formação acadêmica e de imersão na área, Patrícia efetivamente elaborou as três peças reunidas no livro a partir de 2020, já no contexto da pandemia. “Cães de rua” foi a primeira, seguida de “Perda maior” e “Demônio de poeira”. Com intuição premonitória, o que coloca em cena é um espelho que reflete dramas sociais contemporâneos, e que fazem da suposta disfuncionalidade algo tenebrosamente concreto e real.

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Desse modo, o leitor/espectador se depara não com hipotética distopia a la A revolução dos bichos ou 1984, e sim com a degradação escancarada nas ruas em inúmeros lugares do planeta. Nem se demorará a perceber que os assuntos escancaram responsabilidades dos brasileiros.

Na primeira peça, “Cães de rua”, 13 pessoas frequentam um grupo de apoio a vítimas orientadas por um psicanalista. Em meio a debates, o ambiente se torna cada vez mais tenso, agressivo e perigoso. Como Patrícia informa, o texto é anterior à invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, mas parece trabalhar de maneira desconcertante com esse acontecimento.

Em “Perda maior”, dois homens e uma mulher, a partir de um anúncio de suposto treinamento, tornam-se voluntários em um experimento que acaba por se revelar uma armadilha. E os mantém aprisionados longe da civilização, submetidos a experiências brutais.

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Por fim, a terceira, Demônio de poeira, encena a história de um órfão uruguaio que foi parar em orfanato, aos 12 anos, depois que seu pai desapareceu e sua mãe morreu. É adotado por um casal mexicano, mas acaba aprisionado pelo chefe de um cartel de drogas, que matara por engano seus pais adotivos.

Treinado, torna-se um assassino implacável. A certa altura, tentará fugir e entrar nos Estados Unidos. Em comum entre os três textos, vidas marcadas por violência, em circunstâncias atuais, como a polarização, as drogas e a migração clandestina, entre tantas outras.

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A expectativa de um lançamento em Santa Cruz

O livro de estreia de Patrícia Vilela teve lançamentos com sessões de autógrafos em São Paulo. No começo de junho, no dia 6, ela participou da Feira do Livro da capital paulista, no Pacaembu. Já nessa quinta-feira, 18, houve um segundo lançamento, desta vez na Livraria e Café Patuscada, da editora Patuá.

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Outras ações devem ser promovidas em breve, uma delas em Curitiba, cidade onde residiu na década de 1990, e na qual realizou sua formação, com o bacharelado em Artes Cênicas e a habilitação em Direção Teatral. Conforme antecipou à Gazeta do Sul, sua expectativa é organizar lançamento com sessão de autógrafos também em Santa Cruz do Sul, sua terra natal, a princípio em dezembro, na reta final de ano, durante visita que planeja fazer à cidade.

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Patrícia: “Com apoio na logística, adoraria levar as peças para Santa Cruz”

Entrevista Patrícia Vilela — escritora, atriz, professora e diretora de teatro

Gazeta do Sul — Patrícia, fale-nos um pouco das circunstâncias e das motivações a partir das quais elaboraste as três peças deste primeiro livro, que agora está sendo lançado.

Patrícia Vilela — Escrevi a primeira peça no começo da pandemia. Íamos começar os ensaios da produção seguinte da minha produtora e companhia de teatro, a “COLAATORES”. Em ensaios online, discutimos qual seria o plot da peça e citamos várias questões, entre elas equilíbrio emocional e psicológico, golpes, abusos, manipulação do universo das fake news, negacionismo científico, políticos imorais e de como esses aspectos podem resultar em violência.

A segunda peça escrevi em 2021, ainda na pandemia. O que me motivou, desta vez, foram reflexões sobre isolamento, solidão, propósito de vida, crítica ao sistema fascista, autoritarismo, desigualdade social, guerras e arrivismo.

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E a terceira, um monólogo, em 2022. Conto a história de um órfão uruguaio que é sequestrado por um cartel de drogas no México e luta pela sobrevivência, dividido entre o livre-arbítrio e o destino a que foi imposto. Nessa terceira peça da trilogia, me inspirei no comportamento do ser humano quando vive em uma sociedade desnorteada e à deriva.

As três peças remetem a uma sociedade distópica, e, no entanto, parecem lidar com comportamentos e situações bastante contemporâneos, dentro e fora do Brasil. Entendes que a sociedade atual já é um tanto distópica?

Penso que estamos vivendo uma era em que a tecnologia conecta a todos de uma maneira ultrarrápida e abrangente, mas nos deparamos com um paradoxo: uma sociedade que está interligada globalmente pelas big techs, mas desconectada muitas vezes das relações interpessoais e dos próprios sentimentos. Numa sociedade subjugada por um sistema capitalista, que incentiva os jogos de interesses, o sucesso a qualquer preço, desigualdade e comportamentos perniciosos nos quais a superficialidade é enaltecida, a distopia está mais do que evidente.

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As três peças desse volume já foram encenadas em algum momento? E, nesse caso, como tem sido a reação do público nessas ocasiões?

Da primeira, “Cães de rua”, já fizemos três temporadas e vamos para a quarta, com estreia prevista em agosto. A segunda, Perda maior, teve estreia nacional no Festival de Teatro de Curitiba e em julho faremos a estreia em São Paulo. A terceira está em pré-produção. Tenho percebido que o público gosta muito, penso que talvez pelo motivo de as temáticas dos espetáculos falarem sobre o momento atual. Há identificação em várias questões.

As peças provocam alguns debates sobre o posicionamento político e a conduta social das pessoas, o que as leva a questionamentos sobre as próprias posturas diante de um mundo tão violento e sem empatia, em que o capitalismo dita as leis que raramente beneficiam a população menos favorecida economicamente, como no Brasil, que em muitos lugares não tem saneamento básico, para dizer o mínimo. Um país onde a corrupção rouba esse direito da população. Acredito que essa provocação faz o público refletir sobre como pretendemos seguir num mundo tão disfuncional e injusto.

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Pensas ou planejas em algum momento trazer alguma dessas peças a tua terra natal? E o livro, esse pretendes lançar por aqui ao longo do ano?

Sim, se eu conseguir apoio na logística da produção, adoraria levar as peças para Santa Cruz. O livro pretendo lançar no final do ano, que é quando estarei na cidade. Desde já, estão todos convidados.

Como tem sido tua rotina no teatro e como atriz nesse período mais recente? Projetos em curso?

A rotina está bem movimentada. Estou estreando em São Paulo agora em julho, depois de apresentações no Festival de Teatro de Curitiba, o espetáculo Perda maior, segundo texto da trilogia, e onde participo como atriz e produtora, com direção do Elias Andreato. Ele é um dos artistas mais prestigiados e respeitados no teatro, e nos honra muito tê-lo no projeto.

Ficaremos a princípio dois meses em cartaz. E retorno para a quarta temporada do primeiro texto da trilogia, “Cães de Ru”a, na direção e na produção, para o segundo semestre. O espetáculo reúne 13 atores. E a pré-produção do monólogo “Demônio de poeira”.

Para ler

Triologia De Uma Sociedade Distópica, de Patrícia Vilela. São Paulo: Patuá, 2026.
148 p. R$ 60,00.

“Obrigado por estarem aqui, neste dia, neste lugar, neste tempo, nesta reunião. Meu nome é Diógenes. Nasci em 405 antes de Cristo, em Sínope, atual Turquia. Meu pai era banqueiro e me confiou a fabricação de moedas, mas agi como um corrupto e as adulterei. Por isso me exilei em Atenas, onde tive uma vida simples. Lá, vivi como um mendigo praticando o desapego e o isolamento. Morei dentro de um barril e me sustentei com esmolas. Aprendi a viver somente com o que necessitava e ainda desfrutar da companhia de meus amigos queridos. Os cães. Foi desse modo que percebi que o luxo e a ambição desmedida de ter dinheiro a qualquer preço, não tinha sentido e não me levaria ao caminho certo. O exercício do pensamento me transformou num filósofo. (pausa) E minhas reflexões me impulsionaram a procurar durante séculos seres humanos que seguem a linha da simplicidade da vida e que possam externar seus pensamentos livremente onde os valores da dignidade e honestidade sejam o seu norte.”

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