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LA BELLA ITALIA

Beatrice Dummer: “Montale e La Farfalla di Dinard (A borboleta de Dinard)”

Acabo de terminar “Farfalla di Dinard” (A borboleta de Dinard, no Brasil), livro escrito por Eugenio Montale e lançado em sua primeira edição em 1956. Já falamos sobre o autor há duas edições. Montale é conhecido por ser um grande poeta, mesmo que sua obra em prosa seja infinitamente superior em número à sua poética. Ele foi um escritor que vivenciou as grandes transformações da Itália: a Primeira Guerra, na qual combateu, a Segunda Guerra, o regime fascista, o boom econômico e a cultura de massa. Por isso, é inevitável conhecer a sua história e aquela com “S” maiúsculo, para compreender profundamente as suas obras.

Para falarmos sobre o livro que acabei de ler, precisamos lembrar que Montale foi um grande jornalista do Corriere della Sera, de Milão. Ele viajou pelo mundo inteiro criando contos e compartilhando uma visão de mundo que, incrivelmente, permaneceu a mesma dos seus 20 aos 80 anos, sempre muito coerente com o “male di vivre” (o mal de viver) e “la prigionia della condição humana” (a prisão da condição humana). Essa filosofia já se fazia presente em sua obra de estreia, “Ossi di seppia” (Ossos de sépia), lançada pela Gobetti, editora de Turim cujo fundador faleceu pouco após o encontro entre os dois, enquanto tentava fugir do fascismo para a França.

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A linguagem de “Ossi di seppia” é profunda, simbólica e muito breve, usando imagens e palavras para retratar os sentimentos mais íntimos de dor e solidão, como se a vida fosse um longo caminhar ao lado de um muro intransponível, coberto por pedaços de vidro afiados. Na sua trajetória, também podemos mencionar a obra “Le occasioni” (A ocasião), onde Irma, a Clizia, é a protagonista. Ela foi a mulher que inspirou Montale em grande parte de sua poesia, mas em sua vida também conhecemos Maria Luisa, a Raposa, e Drusilla, a Mosca, sua esposa.

Enquanto Clizia representa um anjo salvador em meio à angústia humana e Maria Luisa encarna a sensualidade de uma paixão improvisada, sua esposa é aquela que vê a verdade além dos olhos. É inegável que Montale, assim como Dante, transformava as pessoas que conhecia nessa longa viagem chamada vida em figuras simbólicas. E isso acontece de forma ainda mais profunda em Farfalla di Dinard.

Dinard é uma cidadezinha na Bretanha, França, com a qual o poeta mantinha uma ligação afetiva muito forte. O fato de ter lançado esse livro no mesmo ano que a obra poética “La bufera e altro” (A tormenta e outras coisas) nos faz entender que, para Montale, não existia uma separação verdadeira entre poesia e prosa. Inclusive, ele definia o livro como “poesia não poesia” e “prosa que não é prosa”.

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Discordo, porém, quando ele dizia não ter criatividade o suficiente para escrever um romance; segundo suas próprias palavras, ele jamais seria capaz de inventar uma história do zero. Por isso, o livro tem um tom autobiográfico, mas sem se tornar um romance tradicional. É baseado em algo que ele viveu ou ouviu de conhecidos. Trata-se de uma inspiração que, como um vaga-lume, o incentivava a escrever, mas, a partir do momento em que as palavras tomam forma, a ficção se funde à memória e já não se sabe o que é real. Para isso, ele frequentemente cria alter egos e jogos de semelhanças entre os personagens.

Bea e Niccolò Fusaro, na França

Beleza nas pequenas atitudes

O livro inicia com dois textos que fazem referência aos seus autores-modelo. Montale decide prestar uma homenagem a Tchekhov com “Conto de um desconhecido”, título emprestado do autor russo. Porém, apenas o título é igual, pois a história é completamente diferente: narra o relato de um desconhecido que ele escuta em um bunker antiaéreo em Gênova. Entre o autor e o desconhecido existem muitos traços em comum, como o relacionamento conflituoso com o pai e a inércia, o retrato de um homem que deseja mudar de vida, mas jamais toma a ação necessária para essa transformação, vivendo na “busca pelo milagre”, o momento ideal que, na verdade, nunca chega.

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Já o segundo conto de abertura é “As Rosas Amarelas”, no qual ele se inspira no conceito proustiano de que um objeto pode despertar uma memória latente que subitamente toma conta do pensamento. Enquanto em Proust o personagem principal degusta uma madeleine com chá e se recorda do passado, em Montale o personagem Filip-po, alter ego do autor, ao enxergar as rosas do hotel em que está hospedado, lembra-se das rosas amarelas que havia ganhado de sua empregada em uma viagem. A partir daí, a história se desenvolve.

É interessante notar que os contos jamais entregam onde, quando, como ou por quê. Não há um contexto temporal preciso; é como se os eventos acontecessem em uma dimensão paralela da memória, diferente do que se esperaria do texto de um jornalista. O passado simplesmente reaparece no presente. Montale nos dá apenas as informações estritamente necessárias para entender o texto. Cada palavra é utilizada com precisão cirúrgica: nem menos, nem mais.

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O texto que mais me tocou foi dedicado à sua criada Maria, descrita como uma “mulher barbuda, analfabeta e simples”. Ela vivia o cotidiano repetindo as mesmas tarefas e, na visão de muitos, teve uma vida inútil por nunca ter construído a própria família, vivendo sempre para os outros. Para Montale, contudo, a vida dela foi repleta de significado. Ela serviu com amor, encontrou contentamento na rotina e deixou uma marca afetiva eterna. Isso nos lembra que a única coisa que realmente importa neste mundo, e que permanece, é a lembrança que deixamos na vida das pessoas.

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Apesar de muitos textos retratarem a condição do homem como prisioneiro, Montale termina o livro com a borboleta de Dinard. Todos os dias ele ia a um café e via uma borboleta cor de açafrão. Antes de partir, fez um último pedido à camareira: “Por favor, me avise se esta borboleta retornar”. Ele tinha dúvidas se ela vinha apenas para cumprimentá-lo ou se aquele bar específico fazia parte de sua rota diária. A camareira, confusa, respondeu: “Que borboleta?”. Ou seja: somente ele a via, somente ele enxergava além.

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E foi isso que o livro deixou impresso em mim: a capacidade de ver a beleza nas pequenas atitudes e nos hábitos do dia a dia. Montale, apesar de ter vivido sob o regime fascista, manteve-se íntegro; mesmo sob pressão, nunca desvirtuou seus valores. É um livro que exige uma pesquisa prévia sobre o autor e o contexto histórico antes da leitura, mas que merece ser relido muitas vezes, sempre sob uma nova interpretação, por retratar tão bem as várias faces da condição humana. Fica a minha calorosa sugestão de leitura!

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