Considerado um dos melhores novos cineastas brasileiros, Leonardo Martinelli exibiu suas obras em mais de 300 eventos de cinema em todo o mundo. Entre eles o Festival Santa Cruz de Cinema, com o qual tem uma relação antiga e marcante, participando de diversas edições.
A primeira ocorreu em 2019, quando o curta “Lembra” integrou a seleção oficial da segunda edição. Dois anos depois, esteve de volta para apresentar “Copacabana Madureira”. Em 2022, retornou com “Fantasma Neon”, que rendeu o Troféu Tipuana de Melhor Direção e de Melhor Trilha Sonora. No ano seguinte, já na sexta edição, competiu na Mostra Nacional com “Pássaro Memória”.
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Neste ano, Martinelli esteve de volta a Santa Cruz para apresentar seu trabalho mais recente, “Samba Infinito”, exibido na primeira noite e ganhador de dois troféus Tipuanas (Direção de Arte e Trilha Sonora). O trabalho, diz o diretor, foi fruto das conexões proporcionadas durante o Festival Santa Cruz de Cinema. Nele conheceu o ator Alexandre Amador, que se tornaria protagonista do curta, e fortaleceu a parceria com Renan Brandão, produtor e diretor assistente.
Antes de ser exibido no auditório da Unisc, o filme teve lançamento mundial no prestigiado evento cinematográfico de Cannes, na França. De lá, gravou vídeo destacando a importância em sua trajetória. “Faz parte da minha jornada”, ressaltou. Durante a estada em Santa Cruz, Martinelli concedeu entrevista exclusiva ao Magazine para falar sobre o projeto, a relação com o Festival de Cinema e a relevância do evento no cenário audiovisual brasileiro.
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Entrevista Leonardo Martinelli – cineasta
Gazeta do Sul – Costumas dizer que o Festival Santa Cruz de Cinema faz parte da sua jornada. O que significa retornar agora com um filme que estreou em Cannes e, de certa forma, nasceu a partir de encontros realizados aqui?
Leonardo Martinelli – Antes de mais nada, é um festival muito acolhedor em termos de recepção. Já viajei para vários festivais em todo o Brasil e no mundo todo. Em alguns nós ficamos meio largados, te colocam lá, exibem o filme e é isso. Acho muito interessante quando promovem espaço de encontros e troca para realizadores por meio dos jantares e festas, além dos eventos de negócios. Isso é muito importante para promover a conexão entre os realizadores e o pessoal da cidade. Realmente, é um festival muito acolhedor.
O que Samba Infinito representa?
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Definitivamente “Samba Infinito” só existe como ele é hoje por conta dos encontros que tive aqui em Santa Cruz. Foi aqui que conheci o trabalho do Alexandre Amador. Se eu não tivesse vindo ao festival, talvez não tivesse conhecido ele pessoalmente. Poderia ter visto o trabalho dele, mas talvez não teria conhecido a pessoa e saber que há uma possibilidade de conexão e troca. Então, ter conhecido o Alexandre Amador aqui em 2019, há sete anos, foi algo realmente definitivo no que depois se tornou o elenco do filme. E também pude aprofundar a relação com o Renan Brandão quando estive aqui com ele, em 2022. Dividimos o mesmo quarto e criamos uma grande amizade.
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Há um simbolismo especial em exibir em Santa Cruz um curta que passou por Cannes, diante das conexões feitas aqui?
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É uma sensação de círculo completo. Porque ao mesmo tempo, o filme entrou em Cannes em maio de 2025 e tem um ano de circuito rodando festivais. Então, para mim, estar com ele aqui é como se fosse realmente a última viagem que faço com o curta. É muito simbólico estar encerrando essa turnê aqui em Santa Cruz.
Como surgiu a ideia de Samba Infinito?
Ele nasce da vontade de tratar desse contraste simbólico que para mim existia entre o ofício do gari, que está trabalhando para limpar a rua, e a questão de uma labuta muito intensa, muito física e muito presente na cidade, enquanto ao mesmo tempo existe o carnaval, essa celebração onde eu acho que a população consegue retomar e repertencer à cidade, reconfigurá-la de uma forma como normalmente não a habitamos. Mas, ao mesmo tempo, o gari que está ali está através da lente da labuta. Para mim, ele está onipresente no carnaval, mas através dessa labuta que é uma ironia dramática e me interessava trabalhar.
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Também trabalhas de maneira muito marcante o luto e o seu ressignificado. O que te inspirou para incluir essa temática?
Foi mais uma soma de sensações e pessoas que passam pela nossa vida e ficam, têm um impacto e depois partem de alguma forma. Não diria que teve exatamente especificidade de uma pessoa, mas mais um conjunto dessa sensação de impermanência e de saudade.
A obra conta com Gilberto Gil e Camila Pitanga. Como foi trazer esses nomes?
O filme tem esse quarteto que ilumina a tela. Há o Alexandre Amador e o Miguel Leonardo, nosso ator mirim, que teve sua estreia no audiovisual com o filme. Fiquei muito contente por contar com esse ator, que eu acho que vai ter uma carreira brilhante no futuro. E, é claro, essa presença luminosa de Gilberto Gil e Camila Pitanga, ambos generosamente concordaram em fazer uma participação em um curta-metragem independente. Mesmo após um ano do lançamento, parece algo muito inusitado que me faz pensar: “Caramba, isso realmente aconteceu!”
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O Festival Santa Cruz de Cinema também proporciona um momento único que é, após as sessões, o debate com o público. Como foi a reação do auditório após a exibição do filme?
O formato aqui do festival é interessante, né? Nós temos o debate depois, mas não introduzimos o filme. Então, quando estava sentado ali na plateia, sou anônimo. As pessoas em volta não me viram apresentando porque não sabem que é meu filme passando. Isso torna a experiência mais interessante para captar a reação genuína das pessoas. E eu sentei mais ao fundo, em volta de um grupo de adolescentes, e foi interessante ver eles comentando e reagindo ao filme. Porque apesar de ser um drama, o Samba Infinito tem uma cinematografia com sacadinhas cômicas e propostas mais lúdicas no sentido visual. Então, a reação deles foi especial.
De que maneira o Festival Santa Cruz de Cinema ajuda cineastas a lidar com os desafios de se produzir audiovisual no Brasil?
Produzir cinema no Brasil é especialmente difícil. No caso do curta-metragem, adiciona uma camada de dificuldade, porque é um formato que, em geral, não é preterido em grandes meios de comunicação. Ficamos restritos ao Canal Brasil e não tem destaque nas plataformas de streaming. E ele não entra em cartaz nos cinemas comercialmente, são raríssimos os casos. Então, para onde ele vai? Para o festival de cinema. É o único lugar onde realmente temos um lar. Há festivais grandes em que os destaques são os longas-metragens e os curtas ficam em escanteio.
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O Festival Santa Cruz de Cinema coloca um holofote não apenas no curta, mas nos realizadores, e nos traz aqui para nos conectarmos às pessoas. É uma plataforma fundamental para pensar e ter um espaço do curta-metragem brasileiro contemporâneo. E os curtas pode ser grandes obras. O maior filme de todos os tempos é “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado. É o magnum opus dele, que é um grande cineasta. Para mim, realmente “Ilha das Flores” é uma das maiores obras do audiovisual no Brasil.
O Festival Santa Cruz de Cinema visa também mostrar a força do audiovisual no município. Como vês essa mobilização local?
É extremamente importante pensarmos essa descentralização de recursos, tirar as produções e os festivais dos grandes centros. Nesse sentido, Santa Cruz tem uma cena efervescente, especialmente com a equipe da Pé de Coelho e o Diego Tafarel. É superimportante esse gesto de descentralização para trazer não só os recursos, mas também emergir novas possibilidades de olhares, tanto para a cidade quanto para o audiovisual.
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