O crescimento do contrabando de medicamentos utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes tem preocupado autoridades e profissionais da saúde. Somente na área de atuação da 4ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF), sediada em Lajeado, foram registradas neste ano sete ocorrências envolvendo produtos transportados de forma irregular.
As apreensões, realizadas nos últimos meses até junho, somam 637 unidades entre canetas e ampolas. Os casos são investigados pela Polícia Federal de Santa Cruz do Sul. De acordo com o chefe da 4ª Delegacia da PRF de Lajeado, inspetor Marcos Cesar Barboza Silva, foram recolhidas 224 canetas emagrecedoras e 413 ampolas de remédios de uso controlado.
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Uma das maiores ações ocorreu na primeira semana de junho. Em uma única abordagem, os policiais encontraram 369 ampolas e nove canetas emagrecedoras, além de outros produtos introduzidos irregularmente no País.
Na ocasião, também foram confiscados 71 garrafas de vinho, 46 cosméticos, dois telefones celulares, um aparelho eletrônico, sete anabolizantes e outros dez medicamentos controlados, totalizando 515 itens. Por questões de segurança operacional, a PRF não divulga detalhes sobre a fiscalização ou a forma como as mercadorias eram transportadas.
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Uso é restrito a pacientes com indicação
Apesar da popularização nas redes sociais, a endocrinologista Gabriela Jacques Hoss explica que as chamadas canetas emagrecedoras são destinadas ao tratamento de doenças específicas e não devem ser usadas como recurso para emagrecimento estético.

Segundo ela, trata-se de medicamentos injetáveis aplicados por via subcutânea, indicados principalmente para pacientes com diabetes tipo 2 e obesidade. “Eles atuam reduzindo o apetite, retardando o esvaziamento gástrico e melhorando o controle glicêmico. A indicação depende de avaliação médica individualizada, levando em consideração diagnóstico, índice de massa corporal, presença de comorbidades e análise do risco-benefício”, explica.
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Gabriela ressalta que esses produtos fazem parte de um tratamento completo, que envolve alimentação adequada, prática de atividade física e acompanhamento médico contínuo. A médica alerta que o uso sem prescrição representa riscos significativos para a saúde. Além da possibilidade de utilização por pessoas que têm contraindicações clínicas, o paciente pode usar doses inadequadas, fazer associações perigosas com outros medicamentos ou deixar de identificar efeitos adversos relevantes.
Outro problema é a falsa expectativa criada em torno do emagrecimento rápido. “A perda de peso não pode ser analisada isoladamente. É necessário acompanhar massa muscular, estado nutricional, glicemia, função renal, sintomas digestivos e hidratação. Sem acompanhamento, aumentam os riscos de complicações e de frustração com resultados irreais.”
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Produtos contrabandeados
Se o uso sem orientação médica já representa perigo, a compra de medicamentos contrabandeados amplia significativamente os riscos. Segundo Gabriela, quem adquire esses produtos perde todas as garantias relacionadas à qualidade, autenticidade e conservação da medicação.
“Não há qualquer segurança sobre a origem do produto, a cadeia de transporte, a integridade da embalagem, a validade real ou mesmo sobre qual substância existe dentro da caneta. O paciente pode utilizar um medicamento ineficaz, degradado, contaminado, falsificado ou com concentração incorreta”, diz a endocrinologista.
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Lembra que medicamentos biológicos são extremamente sensíveis à temperatura e podem perder estabilidade quando transportados ou armazenados fora das condições recomendadas pelo fabricante. Na prática, isso significa que o paciente pode acreditar estar recebendo a dose correta, quando, na realidade, o remédio já perdeu parte ou toda sua eficácia.
Outro fator apontado pela médica é o aumento da circulação de medicamentos falsificados. Segundo ela, autoridades sanitárias nacionais e internacionais já alertam para a existência de produtos adulterados, reembalados, diluídos ou contendo substâncias diferentes das informadas no rótulo.
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“Em medicamentos injetáveis esse risco é ainda mais grave, porque além da possibilidade de não existir o princípio ativo correto, há risco de contaminação biológica e de infecções.” Para ela, o aumento das apreensões realizadas pela PRF deve ser encarado como um problema de saúde pública.
“O crescimento do mercado paralelo expõe a população a medicamentos potencialmente falsificados, ineficazes ou perigosos. Trata-se de uma questão de risco sanitário coletivo, porque envolve automedicação, circulação de produtos sem procedência e aumento do risco de eventos adversos graves, além de enfraquecer toda a relação de segurança entre paciente e tratamento”, afirma.
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Efeitos colaterais exigem acompanhamento
Mesmo quando utilizados corretamente, esses medicamentos podem provocar efeitos adversos. Os mais frequentes são náuseas, vômitos, diarreia, constipação, dor abdominal, refluxo, sensação de empachamento e diminuição importante do apetite.
Também podem ocorrer episódios de hipoglicemia em pessoas diabéticas que utilizam outros medicamentos, além de complicações mais raras, como pancreatite e doenças da vesícula biliar.
Entre os sinais de alerta que exigem atendimento médico imediato estão dor abdominal intensa e persistente, vômitos que impedem a ingestão de líquidos, sinais de desidratação, reações alérgicas, falta de ar, inchaço no rosto, alterações importantes da glicemia e infecção no local da aplicação.
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Para saber
Nem todos podem utilizar
A endocrinologista afirma que esses remédios possuem contraindicações. Entre elas estão histórico pessoal ou familiar de alguns tipos específicos de câncer da tireoide, determinadas síndromes endócrinas, pancreatite prévia, doenças gastrointestinais relevantes, gestação, amamentação e algumas doenças renais ou hepáticas. Por isso, a decisão pelo tratamento deve sempre ser individualizada.
Como verificar a procedência
A orientação é que os medicamentos sejam adquiridos exclusivamente em farmácias regularizadas, com nota fiscal e procedência comprovada. O consumidor deve conferir se a embalagem está íntegra, observar lote, validade, rotulagem e verificar se o armazenamento ocorreu conforme as orientações do fabricante, especialmente em relação à refrigeração.
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Caso haja qualquer dúvida sobre o transporte, conservação ou autenticidade do produto, ele não deve ser utilizado. Além disso, algumas fabricantes disponibilizam sistemas próprios para verificação da autenticidade dos medicamentos. Isso permite ao consumidor confirmar a procedência por meio das informações presentes na embalagem.
Popularização nas redes sociais preocupa
Segundo Gabriela, a divulgação intensa dessas medicações nas redes sociais tem influenciado cada vez mais pessoas a procurar tratamentos sem indicação adequada. “Muitos pacientes chegam ao consultório solicitando um medicamento específico por influência de relatos publicados na internet. Isso favorece a compra em canais clandestinos, a automedicação e a banalização de um tratamento que exige acompanhamento médico.”
Ela afirma que remédios injetáveis e termossensíveis jamais devem ser adquiridos por meio de redes sociais, grupos de mensagens, atravessadores ou sites sem garantia sanitária.
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