Algumas datas não trazem sorte. Por exemplo, 5 de julho. Minha lembrança mais antiga sobre futebol é a derrota do Brasil para a Itália na Copa do Mundo de 1982, nesse dia, na Espanha. O time comandado por Telê Santana era visto como favorito: tinha Zico, Falcão, Júnior, Sócrates, só para mencionar alguns. Mas o italiano Paolo Rossi fez três gols, e precisamos adiar o sonho do tetra.
Como aquele time podia perder? Todos pareciam arrasados na minha casa, no País todo, após o 3 a 2 em Barcelona. Foi uma tristeza imersiva, que me impressionou aos 9 anos de idade. Então, mais de quatro décadas depois, noutro 5 de julho, o Brasil perde para a Noruega e está fora da Copa. Decepcionante mas nem tanto comparado a 1982, quando as expectativas eram maiores.
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Mas a Copa segue em frente de qualquer modo, e é necessário completar o álbum de figurinhas. Comecei a comprar para meu sobrinho, e outras memórias infantis foram ativadas. Lembrei dos “futebol cards” do chiclete Ping Pong, coleção que era uma febre no início da década de 80. Os cromos vinham na forma de cartões de papelão, eram mais resistentes e maiores do que esses da Panini. E era mais fácil terminar: 486 figuras de jogadores de 22 clubes brasileiros, e não 980.
Existe algo estimulante nesse processo de comprar figurinhas, verificar se conseguimos as que procurávamos, aquelas mais difíceis, se há cromos repetidos etc. Mesmo adquirindo para outra pessoa, é divertido e nostálgico. Dedicar algum tempo para coisas inúteis faz bem à saúde mental. E ocupar a mente com algo que não seja o noticiário diário habitual – predominantemente negativo – faz bem. O futebol é o “ópio do brasileiro”, alguém já disse, mas para que serve lucidez gélida o tempo inteiro? Para nada.
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E a Copa tem seus aspectos interessantes e ensinamentos. Independentemente de ter simpatia pela seleção argentina, como não reconhecer o brilhantismo de um jogador como Lionel Messi? A partida contra o Egito foi inacreditável.
Ver Messi perder um pênalti no início do jogo (como aconteceu com outra seleção…), depois a Argentina levar dois gols (também familiar), mas empatar e reverter o resultado ao marcar três gols em 12 minutos… Tudo o que palavras já gastas pelo uso como “resiliência” e “superação” pretendem significar está dito aí.
Mais incrível do que isso, só a Argélia dando passes para o lado durante cinco intermináveis minutos contra a Áustria. De repente, num inesperado lance ofensivo, os argelinos vão lá e marcam um gol. Claro: fizeram os austríacos dormir no campo e atacaram. O futebol é uma caixinha de surpresas.
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