Aproveitamos uma rápida trégua na chuva que nos fustigou durante quase toda a semana que passou para fazer podas nas árvores na frente da casa e no pátio interno. Em questão de poucos dias, as folhas verdes das patas-de-vaca amarelaram e começaram a cair às pencas, assim como estão se despindo os ipês na Avenida do Imigrante.
Pode soar simplório, mas vejo nas podas uma simbologia que deveríamos levar para a vida. Quando executadas com técnica e aptidão, não se trata de mutilar as árvores, mas de uma prática que busca preservá-las, libertá-las dos excessos, dos galhos e ramos que se excederam no crescimento ou que já não se suportam nas alturas.
Alguém dirá que esta supressão de “membros de um ser vivo” é um ato de violência. Juro que penso nisso toda vez que se repete esse ritual em nossa casa e no sítio. Mas me conforta a convicção de que é para o bem da planta, para sua proteção e renovação, um ato de cuidado e não de agressão.
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O interessante é que não se desgalha uma árvore ano sim e outro também. Essa prática obedece a ciclos, até para lhe assegurar o tempo necessário para se recuperar, para se desenvolver e exibir todo o seu esplendor. Ou não.
Por vezes, brotos até nascem nos galhos eliminados, despertam esperança na renovação, mas logo perdem vigor, não se desenvolvem e, pouco a pouco, murcham e atrofiam até secarem em definitivo.
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Por que isso acontece? Bem, não sou biólogo, e não me qualifico para responder a essa questão. Mas aprendi ao longo da vida que se precisa observar alguns requisitos para uma boa prática da poda. A época, certamente, é um dos aspectos preponderantes. As podas devem ser feitas no outono e inverno, no período de dormência da planta, antes da primavera.
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Não parece sugestivo? Não lembra o ciclo eleitoral? Que também não se repete todos os anos, que dá tempo para a esperada regeneração, mas que nem sempre dá certo? Pois é, na vida real, quando uma árvore seca e morre, se costuma eliminá-la para, quem sabe, dar lugar a outra, mais adaptada ao clima e ao solo onde vai ser plantada.
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E se a gente transportasse as lições da natureza para o campo político? Estamos prestes a entrar no período eleitoral, ideal para avaliarmos a “sanidade das plantas do nosso jardim”. Será que não temos podas a fazer – por desgaste, por contaminação de plantas parasitas, que dependem de hospedeiras (leia-se eleitores) para sobreviver?
Você pode achar que seu quintal está maravilhoso e prefere mantê-lo assim. Ou pode entender que é hora de renovar o layout, substituir algumas plantas e ajustá-las às suas expectativas.
Nem sempre é fácil: como muitas pessoas que conheço, eu adoro plátanos. Nasci e cresci numa propriedade protegida e abrigada à sombra dessas imponentes árvores. Mas há quem prefira eucaliptos, ipês, ingazeiros, entre tantas outras variedades.
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Quem sabe, o bosque mais bonito é justamente aquele onde se mesclam harmoniosamente as variedades de plantas, suas cores, seus aromas, umas emprestando às outras o que de melhor podem oferecer. Melhor do que ninguém, a natureza sabe como exercitar a democracia.
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