Em 1991, em Assunção, Paraguai, embarquei em uma aeronave Douglas DC-8 da Líneas Aéreas Paraguayas, com destino a Dakar. Eu tinha 19 anos e estava a caminho da Europa da forma mais econômica que encontrei, em minha primeira grande viagem sozinho. No dia anterior, em Porto Alegre, eu havia dado um abraço forte em meus pais, que jamais questionaram meu plano de passar um período de sete meses na Dinamarca, onde eu faria estágio em uma empresa de engenharia.
A única lembrança dos dois voos até chegar em Assunção é o estado de choque em que eu me encontrava. Ao decolar em Porto Alegre, o tempo foi se transformando em distância, e a distância em uma imensa saudade antecipada. O que eu não imaginava, mas talvez pressentia, era que aquela seria uma jornada sem retorno. Um salto do ninho para a vastidão incógnita da vida adulta.
Em Dakar, dei meus primeiros passos fora da América do Sul. Ao descer da aeronave, a madrugada quente e úmida me fez entender na pele a expressão “calor senegalês”. O Senegal é o país mais a oeste da África, no limite entre o Saara e a África subsaariana.
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Local de pujantes reinos desde o século 7, a região e, de certa forma, o mundo, mudaram para sempre no século 15, com a chegada dos portugueses e o advento da expansão marítima europeia. Com as naus e caravelas, aportava também a tragédia do tráfico intercontinental de escravos. A lucratividade do comércio de seres humanos logo trouxe ingleses, espanhóis, holandeses e aqueles que colonizaram e exploraram de forma arrasadora o país por quatro séculos: os franceses.
Em meados do século 20, um movimento de renascimento cultural tomou conta do país, comandado por um líder atípico. Léopold Sédar Senghor era poeta, filósofo e escritor, além de ser cristão em um país predominantemente muçulmano. Com a independência do Senegal, em 1960, ele foi eleito o primeiro presidente. Senghor foi também arquiteto do movimento conhecido por Negritude, que celebra as origens, a identidade e os valores africanos em todo o mundo. Foi ainda o primeiro africano negro eleito para a Académie Française, epicentro da língua e literatura francófonas.

O poeta e filósofo Léopold Senghor, que foi o primeiro presidente do Senegal
Apesar das dificuldades econômicas, o país continua sendo uma das democracias mais estáveis da África Ocidental. Encontrei em Dakar um povo solidário e hospitaleiro. Mais de 90% dos 17 milhões de habitantes do país seguem o islã, religião difundida a partir do século 10 pelas rotas comerciais transaarianas. Como curiosidade local, a poligamia é legal e largamente praticada no Senegal.
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O fascínio por novos povos e novas culturas
Se Dakar é um grande centro urbano, no interior pequenas aldeias seguem antigos hábitos tribais. Mesmo com poucos recursos, encontram-se comunidades que vivem com alimentação simples, ajuda mútua e acesso à educação básica. Entre as etnias do norte do país estão os mandingas. Durante o tráfico negreiro, eles carregavam pequenas bolsas de couro com mensagens do Alcorão ou com orações de proteção em árabe. Sem entender o significado, os europeus interpretavam aquilo como feitiço, e a mandinga tornou-se sinônimo equivocado de bruxaria. As pequenas bolsas eram chamadas de patuás, e entraram no folclore brasileiro.
A ilha de Gorée fica a dez minutos de barco de Dakar, e foi um importante entreposto do tráfico de escravizados que partiam do Senegal para o Novo Mundo. Ali, no prédio em que os cativos eram comercializados, há uma “Porta Sem Retorno”, a última visão da terra natal.
O Monumento do Renascimento Africano, em Dakar, é o maior da África, uma belíssima escultura de 52 metros de altura construída por norte-coreanos. Nela, uma mulher aponta para trás, representando as tradições, enquanto uma criança aponta para frente. Entre eles, um guerreiro senegalês une passado e futuro.
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Dakar me ajudou a despertar o fascínio de conhecer novos povos e novas culturas. No breve período que ali passei, experimentei uma espécie de melodia envolvente. Senti pela primeira vez que, longe da família e do meu mundo conhecido, eu estava levando somente aquilo que sou, o que aprendi e a confiança e o afeto depositados por meus pais. Aquela harmonia silenciosa me deu a certeza de que estava no caminho certo. Nela, eu também sentia a alegria e o orgulho dos que, com amor incondicional, haviam me trazido pela mão até aquele salto no desconhecido.
Desde então, eu ouviria aquela canção que eleva e impulsiona inúmeras vezes, imerso nos meus próprios sonhos e me sentindo compositor e maestro de meu próprio concerto. Como porta de entrada, e com significado radiante e promissor, Dakar também acabou sendo a minha porta sem retorno.
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