Toda vez que me ponho a andar pelas estradas do interior de Três de Maio, terra onde nasci no noroeste gaúcho, sou assaltado por uma espécie de arqueologia burocrática. Lá na Entrada Barrinha, rumo a Alegria, se a gente afastar o capim da beira da estrada, capaz de ainda encontrar fincadas no chão as mesmas estaquinhas de madeira numeradas que o Daer espalhou no início da década de 1970. Era a promessa reluzente do escoamento agrícola moderno. O tempo passou, os colonos envelheceram, as colheitas se multiplicaram, mas as estacas – ah, as soberbas estacas – continuam lá, firmes como monumentos à nossa inabalável capacidade de não sair do lugar. Trata-se de um retrato da minha terra, é verdade, mas que se aplica ao que ocorre em tantos municípios Brasil afora, onde o planejamento de longo prazo é obra jamais iniciada.
É um fenômeno fascinante. O produtor rural é exaltado em discursos efusivos em épocas de feiras e campanhas. É ele quem acorda antes do sol para produzir a soja, o milho, o trigo, o arroz, o leite, o suíno, o boi e a fruta que abastecem os mercados da cidade e enchem o peito dos governantes na hora de ostentar o PIB municipal. No entanto, ultrapassada a linha do perímetro urbano, a estima do poder público pelo homem do campo parece derreter na primeira poça d’água.
Nas estradas rurais, a tecnologia viária parou numa solução pré-histórica: as “amarelinhas”. É assim que a colônia chama as patrolas. O ritual é o mesmo. A cada chuva mais forte, a estrada vira um labirinto de valetas, buracos e pedras soltas. Quando a situação fica insustentável, surge vitoriosa a máquina amarela espalhando uma camada generosa de cascalho. É o conserto milagroso. Dura exatamente até a chuva seguinte, quando o cascalho vai embora enxurrada abaixo e recomeça a romaria dos atoladouros.
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Convenhamos: seria algo quase utópico querer que as gestões públicas pavimentassem de uma vez todas as estradas rurais. O que se espera – e o bom senso clama – é planejamento de longo prazo. Bastaria eleger as vias principais para pavimentação progressiva e executar obras duradouras de drenagem nas demais, evitando que fiquem perpetuamente à mercê da visita das “amarelinhas”. Se ao longo de 50 anos a prefeitura tivesse asfaltado modestos 500 metros ao ano no trecho principal, hoje a ligação entre Três de Maio e Alegria seria um tapete. Mas para que planejamento se é mais emocionante comemorar a compra de uma patrola? A máquina vira personagem política; os buracos, esses sim, ganham direito a aniversário e aposentadoria por tempo de serviço.
Não bastasse o safári diário para transportar a safra, o morador do interior enfrenta o desmonte da educação rural. Tudo sob o pomposo pretexto da “busca pela qualidade”. O poder público decidiu que lugar de criança da colônia não é mais na escolinha da sua comunidade. Criaram a fábrica das “nucleações”. Fecha-se a escola do distrito, aposenta-se o convívio comunitário e empurra-se a gurizada para dentro de ônibus escolares que sacolejam pelas velhas estradas esburacadas até os colégios da cidade.
O contraste é quase poético, não fosse triste. Para o centro urbano, onde a densidade demográfica garante uma colheita mais gorda de votos, chovem emendas e asfalto novinho. Para o interior, que carrega o município nas costas e paga a conta da festa, reservam-se as migalhas: um ônibus que chacoalha dentes, a promessa de uma patrola que talvez passe no semestre que vem e as eternas estacas do Daer lembrando que o futuro, por aqui, continua previsto para 1970.
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