Neo-Tóquio está prestes a explodir. Está é a frase que estampa “Akira”, clássica animação japonesa que retorna aos cinemas brasileiros quase 40 anos após o seu lançamento. Em cartaz no Cine Max Brasil, o filme revolucionou os animes, elevando a um patamar técnico e cinematográfico que gerou um enorme impacto internacional, mudando a percepção do ocidente em relação às produções.
O ano é 1988. Uma explosão destrói Tóquio, dando início à Terceira Guerra Mundial. Passados 30 anos, sobre as ruínas da tragédia, surge Neo-Tóquio, uma metrópole gigantesca e tecnológica que se prepara para receber os Jogos Olímpicos. Contudo, por trás da aparência de progresso, a cidade – que optou por esconder os seus traumas e seus conflitos nas ruínas – está em cima de um barril de pólvora cercado por violência, protestos e tensões políticas.
É nesse cenário que Kaneda e Tetsuo, integrantes de uma gangue de motociclistas, se envolvem em uma intriga que irá mudar seus destinos. Durante um confronto pelas ruas com uma gangue rival, Tetsuo se envolve em um acidente envolvendo um estranho garoto com poderes psíquicos, sendo levado para uma base secreta por militares.
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Enquanto Kaneda tenta resgatar o amigo, Tetsuo começa a manifestar habilidades psíquicas cada vez mais poderosas e difíceis de controlar. Sua transformação é o estopim para que Neo-Tóquio exploda em caos e revolução social, trazendo de volta o nome Akira, ligado à destruição de trinta anos atrás.
O filme pode ser resumido em uma palavra: ambiciosa. A obra escrita e dirigida por Katsuhiro Otomo foi concebida como uma produção de escala quase incompatível com a animação japonesa de seu tempo: três anos de trabalho, uma equipe gigantesca, um orçamento extraordinário e cerca de 160 mil desenhos para transformar Neo-Tóquio em uma cidade que precisasse parecer viva. Os detalhes são riquíssimos, não apenas nos prédios, mas pela quantidade de personagens nas ruas, vivendo suas rotinas e reagindo com naturalidade aos eventos. No aspecto visual, destaca-se também a arquitetura futurística e de objetos, especialmente a motocicleta de Kaneda, uma das mais icônicas do cinema.
No aspecto sonoro não é diferente: o desenho de som ajuda a dar vida à cidade e ao caos, evidenciando o caos, a destruição e a vida da cidade – além do memorável som da mencionada motocicleta. O mesmo pode ser dito da inesquecível trilha sonora de Geinoh Yamashirogumi, sobretudo os temas de Kaneda e de Tetsuo.
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Por isso, “Akira” não foi feito apenas para ser assistido. Foi feito para ser experimentado. E no cinema, a obra-prima de Katsuhiro Otomo ganha outra dimensão. Neo-Tóquio está prestes a explodir. E você precisa estar na primeira fila.
Futuro Profetizado
A história de adolescentes com poderes psíquicos é apenas uma peça de um quebra-cabeça muito mais complexo. “Akira” não fala apenas sobre o conflito entre dois amigos que tomam caminhos diferentes. Por trás da ficção científica, Katsuhiro Otomo constrói uma história sobre poder, exclusão, violência e uma sociedade que parece avançar tecnologicamente enquanto continua carregando os mesmos problemas.
Tetsuo é o melhor exemplo disso. Sempre colocado à sombra de Kaneda, é um jovem marginalizado, ressentido e sem perspectivas. Quando finalmente recebe um poder extraordinário, passa a ter aquilo que nunca teve: força para deixar de ser o mais fraco. Mas poder não significa maturidade para lidar com ele. Sua transformação expõe as consequências de alguém receber um poder praticamente ilimitado sem ter os limites necessários para lidar com eles.
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Tetsuo, porém, não é apenas um indivíduo em colapso. Ele também é um reflexo de Neo-Tóquio. A cidade foi reconstruída sobre as ruínas da antiga Tóquio e transformada em uma metrópole tecnológica, moderna e grandiosa. O problema é que a reconstrução não significa resolver aquilo que provocou sua destruição. Sob a modernização, continuam a existir desigualdade, violência, insatisfação e conflitos políticos. Neo-Tóquio prefere esconder seus traumas sob o concreto, enquanto a tensão social cresce até o ponto de tornar um novo colapso inevitável.
É nesse ponto que Akira deixa de ser apenas uma ficção científica e passa a funcionar como uma espécie de profecia. Otomo, o profeta, olhava para o Japão de 1988, um país marcado pelo trauma da guerra, pela reconstrução acelerada, pelo crescimento econômico e pela modernidade cada vez mais tecnológica. Em vez de imaginar um futuro perfeito, enxergou as contradições que poderiam acompanhá-lo: a tecnologia avançaria, mas os problemas sociais não desapareceriam por conta disso.
Quase quatro décadas depois, a profecia continua inquietante. Esperávamos chegar ao futuro com a motocicleta de Kaneda e toda aquela tecnologia. Chegamos à parte dele. O que não esperávamos era continuar convivendo com desigualdade, violência, exclusão e conflitos que parecem cada vez mais difíceis de conter. Otomo não precisou prever o futuro. Bastou observar o presente. E, se continuarmos ignorando aquilo que está sob as ruínas, talvez um dia testemunhemos a explosão.
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