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DIRETO DA REDAÇÃO

Missões que nunca terminam

Foto: Divulgação

Igreja de São Miguel, projetada pelo jesuíta italiano Giovanni Battista Prímoli | Foto: Acervo pessoal de Aidir Parizzi Júnior

Muito provavelmente, a maioria do público da região central gaúcha desconheça que 120 anos antes do primeiro movimento para o estabelecimento de um núcleo de moradia permanente no que é a atual cidade de Rio Pardo, em meados do século 18, havia uma povoação com cerca de 6 mil habitantes ao sopé do Botucaraí, nas imediações da atual cidade de Candelária. Era ali que se localizava a Redução Jesus Maria José, implantada pelos padres jesuítas em 1633, na primeira fase das missões de evangelização dos indígenas em projeto sob a bandeira da Espanha. Jesus Maria José era uma das três reduções estabelecidas ao longo da margem do Rio Pardo, em posição estratégica, já bem além da margem esquerda do Rio Jacuí, que servia como referência para os espanhóis, estes vindo do Sul e do Oeste, e para os portugueses, que avançavam do Norte e do Leste.

É essa odisseia jesuítica em terras sul-americanas que se ilumina em um momento especial ao longo de 2026. Ocorre que em 3 de maio de 1626, portanto, há 400 anos, padres da Companhia de Jesus, atendendo aos interesses da Coroa espanhola, implantaram a primeira redução, a de São Nicolau, no território do atual município gaúcho de São Nicolau, iniciando suas operações no Sul da América. Naquele momento, pelo estabelecido no Tratado de Tordesilhas, de 1494, as terras situadas abaixo de Laguna eram possessão espanhola. No entanto, à medida que avançavam além desse ponto, rumo ao Sul, os portugueses deram-se conta da imensidão do Continente (como chamavam essa região), ainda praticamente desabitado, até próximo ao Rio da Prata. E os espanhóis, por sua vez, constataram a mesma coisa, e foi com as reduções jesuíticas que buscaram tomar posse dessa imensa área.

Quando os bandeirantes paulistas começaram a destruir esses núcleos (incluindo Jesus Maria José) e a aprisionar índios, levando-os como mão de obra para São Paulo, os jesuítas igualmente recuaram e estabeleceram seus povoamentos à margem direita do Jacuí. Mas, ao longo dos séculos 17 e 18, por quase 160 anos, mantiveram um pujante e revolucionário projeto social, econômico e cultural, conhecido como os 30 povos das Missões, até o Tratado de Santo Ildefonso, em 1777, que levou à troca dos Sete Povos no atual Noroeste gaúcho, então posse da Espanha, pela Colônia do Sacramento, que Portugal mantinha no Rio da Prata.

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Essa experiência missioneira jesuítica junto ao povo Guarani passa a ser iluminada pela Gazeta do Sul, a partir desta edição, com uma série de entrevistas e reportagens especiais. Mais do que a celebração de uma visionária ação evangelizadora junto a povos nativos na América, as reduções foram vanguardistas em inúmeros contextos de organização social e econômica. Nesta edição, o historiador e professor José Roberto de Oliveira, de Santo Ângelo, reflete sobre o que a presença jesuítica nessa área, chamada missioneira, deixa como legado para toda a sociedade gaúcha. Como refere, nas páginas centrais desta edição, bastaria mencionar a erva-mate (e o chimarrão) e a criação de gado (e o churrasco) como símbolos do modo de ser e de viver até a atualidade em todo o Rio Grande do Sul. Bom final de semana!

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