Nesta semana, os fãs de Cangaço Novo ficaram chocados ao saber que a história dos irmãos Vaqueiro não terá continuidade: o Amazon Prime anunciou o cancelamento da série após duas temporadas. Os motivos, conforme reportagem da Folha de S. Paulo, foram o alto custo da última leva de episódios e uma queda de 40% na audiência em relação à temporada anterior.
Lançada em agosto de 2023, Cangaço Novo acompanha os irmãos Vaqueiro em uma trama que mistura ação, crime e elementos do cangaço contemporâneo. A produção rapidamente ganhou destaque no catálogo do Prime Video e chegou ao top 10 da plataforma em dezenas de países. A segunda temporada, no entanto, só chegou ao streaming em 24 de abril deste ano, quase três anos depois da estreia da primeira, com sete episódios lançados de uma vez. A produção também tem uma relação especial com Santa Cruz do Sul: Allan Souza Lima e Hermila Guedes, que integram o elenco da série, foram homenageados no Festival Santa Cruz de Cinema.
O anúncio do cancelamento veio depois de uma entrevista concedida ao Portal Gaz pelos criadores e roteiristas Mariana Bardan e Eduardo Melo. Parceiros na vida e no trabalho há mais de 15 anos, eles estão entre os nomes da nova dramaturgia brasileira, trabalhando em projetos de diferentes formatos.
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A conversa foi realizada antes do cancelamento e, naquele momento, a dupla ainda falava sobre a possibilidade de uma terceira temporada. “Nas nossas cabeças, tem muita história para ser contada ainda”, afirmou Eduardo. Mariana resumiu o sentimento: “Queremos tanto quanto todo mundo”.
Entre os próximos trabalhos da dupla estão o roteiro de Bruna Surfistinha 2, continuação do longa de 2011 estrelado por Deborah Secco, e a animação pré-escolar Tuntum, que terá a TV Cultura como primeira janela de exibição. Na entrevista, eles falaram sobre o impacto de Cangaço Novo, a pressão para continuar uma série bem-sucedida, os caminhos que poderiam ser explorados em uma terceira temporada e os novos projetos.
Entrevista – Mariana Bardan e Eduardo Melo, criadores de Cangaço Novo

Eduardo Melo e Mariana Bardan (Foto: Lucas Seixas/2026 | @retratoslucas).
Gazeta do Sul – A primeira temporada de Cangaço Novo conquistou público e crítica no Brasil e no exterior. Como vocês receberam o retorno dos espectadores após o lançamento da segunda temporada?
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Eduardo Melo – A ansiedade era altíssima na primeira temporada. Sempre fui otimista e empolgava todo mundo que eu podia na equipe, falando: “Gente, vai dar muito bom, vai ser legal”. E foi isso que de fato aconteceu.
Recebemos uma enxurrada de surpresas, de amor e de pessoas comemorando o audiovisual brasileiro. Para nós, foi um orgulho enorme. Houve também uma sensação de confirmação, porque foram tantos anos de trabalho. Brinco que foram tantos anos na caverna e, na hora que saímos de lá, fomos recebidos assim. Acho que as pessoas estavam com vontade de assistir a uma coisa com essa intensidade, com esse barulho, com esse deslocamento, sabe? Então foi muito gratificante e tem sido até hoje.
Mesmo com o lançamento da segunda temporada, nós entramos nas redes sociais e vemos as pessoas conhecendo a série e comentando: “Meu Deus, por que eu não assisti Cangaço Novo antes?”
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Mariana – Quando entramos na segunda temporada, todo mundo já tem uma expectativa maior. Cada um tem seus desejos e vontades, tanto quem está do nosso lado quanto o público. Mas a sensação é que as pessoas estão gostando e nos surpreendendo por estarem gostando, porque as segundas temporadas são sempre mais difíceis de fazer.
O sucesso da série aumentou a pressão criativa para os novos episódios? Como vocês lidam com as expectativas dos fãs?
Eduardo Melo – Muito. Havia um sentimento de “a primeira temporada deu certo, então a segunda tem que ser melhor”. E nós pedimos calma. O texto que entregamos no final da primeira temporada passou por anos de desenvolvimento. Quando começamos a segunda, as pessoas tinham uma expectativa muito imediatista, perguntando onde estava e dizendo que queriam ver.
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E nós pedíamos calma, falávamos que estava acontecendo. Porque os tratamentos levam meses para ficarem prontos. Mas foi uma delícia, porque, a partir do momento em que eles começaram a “ficar em pé”, aceleramos.
Mariana Bardan – Eu estava com muito medo e muito insegura. Porque temos muitos desejos, alguns conflitantes até. E aí eu entendi que, se eu ficasse insegura e tentando agradar todo mundo, meio que não ia dar. É como ser você mesmo, sabe? Se você ficar tentando agradar todo mundo, no final das contas você não vai nem para lá nem para cá. Mas, se você for aquilo que você é, de alguma forma, ou buscar pelo menos aquilo que você é, aí eu acho que o acerto é maior. Então seguimos esse caminho e acho que está dando certo.
Em que medida a repercussão da primeira temporada influenciou as decisões narrativas da continuação?
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Eduardo Melo – Acho que sim. Ao mesmo tempo que tínhamos um planejamento — você assistiu às duas, deu para sacar algumas coisas que estavam preparadas desde a primeira — há um avanço muito interessante. Porque, quando escrevemos, não sabíamos ainda quem estaria no elenco. A partir do momento em que sabíamos quem eram os atores, foram feitas muitas alterações e adaptações.
Mariana Bardan – Eu não sei se tive tanto isso, porque, quando a gente pensa em uma obra seriada assim, já pensa em um fio condutor de uma história para a primeira, segunda e terceira temporada.
De alguma forma, o que eu tentei foi trazer as coisas de que gostei para dentro da unidade do que a gente quer contar, do nosso tema e das próprias linhas narrativas. Fomos pegando carona com os outros personagens de que gostávamos e colocando todo mundo dentro do mesmo vagão, indo para a mesma história.
Como surgiu a ideia original de Cangaço Novo?
Eduardo Melo – Em 2012, eu e a Mariana participamos de um grupo de estudos e escrita de roteiro, formado por colegas. Nós nos formamos e estávamos em busca de um projeto audiovisual. Na época, eu queria ser diretor e a Mariana, fotógrafa. Só que pensávamos o seguinte: acabamos de nos formar, ninguém vai te dar um projeto, você tem que escrever o seu.
Nesse balaio de procurar um projeto, assistimos a O Profeta, um filme do Jacques Audiard, sobre um menino que entra na cadeia e, depois de cinco anos lá, vira um mestre do crime. Ele ficou na nossa cabeça até que, em uma viagem para o interior de São Paulo, onde vive a família da Mariana, ela falou: “E se pegássemos o personagem do filme e colocássemos lá no Sertão, na cidade de onde o teu pai veio?”
A sensação era que uma bomba havia explodido na minha cabeça. Bati no console do carro e falei: “Essa ideia é muito boa!”
A partir dessa faísca, começamos uma pesquisa extensa. Naquele ano, havia sido uma espécie de epidemia de assaltos a banco, no formato do Novo Cangaço. Ele foi o estopim para começarmos a colocar as coisas no papel e organizar o projeto.
Qual foi a reação de vocês ao ver o roteiro transposto para a tela?
Mariana Bardan – Lembro da primeira visita que fizemos aos sets de filmagem, lá atrás, na primeira temporada. Visitamos o terreno dos Vaqueiros e a igreja da Irmandade das Três, e lembro de entrar na igreja e ficar muito impactada. Sentei em um banquinho e fiquei olhando, até o ator Ênio Cavalcante, que faz o Jeremias, sentar do meu lado e falar: “É como se você andasse no seu próprio pensamento, né?”
Sabe quando você é criança e faz uma maquete e quer muito estar dentro dela? É um pouco isso.
Em 2012, nós apresentamos um curta-metragem na Cinemateca, em São Paulo, e ganhei uma garrafa de uísque de um amigo muito querido. E eu falei para o Edu que só iria abri-la se um dia tivéssemos uma série que fosse ao ar. Nós não tínhamos a ideia de Cangaço Novo ainda. Em 2018, a produção começou e eu falei que não era o momento de abrir. O Edu insistiu e eu disse que só seria quando assistíssemos.
E aí, no dia 18 de agosto de 2023, abrimos a garrafa. Havia um monte de amigos, demos o play e servimos um shot para todo mundo. Foi uma loucura.
Eduardo Melo – Só sobrou um golezinho para mim. (Risos) Foi muito impactante. Essa coisa de acompanhar antes vai absorvendo para você não ter um piripaque no dia em que for assistir. Me recordo de um momento em que tem uma apresentação do material. É uma reunião que leva umas três horas. E, quando ela acabou, meu irmão parecia que tinha explodido uma coisa dentro da minha cabeça. Eu me emocionei muito porque foi nesse momento que virou realidade. Foi emocionante, chocante, inesquecível e, de certa forma, representa uma transformação na nossa vida.
A série tornou-se uma referência na cultura popular. Como vocês reagiram à resposta dos fãs?
Mariana Bardan – Eu não imaginava que ia acontecer isso. A mais maluca que eu vi foi uma tatuagem.
Eduardo Melo – Mais de uma, inclusive, né, Mari? As pessoas tatuando o rosto da Dinorah, a frase do Amaro, o chapéu do Amaro, a arma dos Vaqueiros. Isso gelou a espinha.
Mas uma coisa muito bonita que acontece até agora são muitas artes e muitos cartazes que as pessoas fazem espontaneamente. São lindos. Além dos depoimentos emocionantes. Você perde um pouco a reação porque é muito bonito mesmo ver a obra ecoar nas pessoas.
Os fãs estão fazendo campanha na internet pela terceira temporada. Alguns pedem para sair ainda este ano. Vocês já estão elaborando a história? Em que estágio está o processo?
Eduardo Melo – Nunca podemos falar dos projetos em que estamos trabalhando, pois estão sempre em sigilo. Posso dizer que, nas nossas cabeças, tem muita história para ser contada ainda e que esperamos poder contá-las.
Mariana Bardan – Queremos tanto quanto todo mundo.
Eduardo Melo – Mas é muito bom ver. Às vezes eu dou uma entrada lá no X, e é o que você falou: as pessoas pedindo a terceira temporada já!
Sem entregar nada, mas acreditam que há mais histórias para oferecer dentro desse universo? Há algum personagem que vocês desejam desenvolver ainda mais?
Eduardo Melo – Sinto que tem muita história e ainda temos muitos caminhos. Claro que o final da segunda temporada indica… certos movimentos. Acho que a personagem da Vitória, essa criança que entra na trama, tem uma coisa muito interessante para explorarmos. É impossível não pensarmos em histórias para o trio que todos amam, que é Ubaldo, Dinorá e Giovânia.
E tem sempre um novo bando a ser formado. E isso é uma delícia, porque existe a oportunidade de ter várias pessoas novas no elenco. Às vezes você está em uma série e está fixo naquele grupo. Pela atividade que o bando faz, sabemos que sempre vamos ter novos personagens em cada temporada.
Mariana Bardan – Eu gosto tanto dos personagens, de todos eles, que qualquer um em que eu botar mais pilha, botar mais lenha, eu sei que vai render histórias. Tem um que eu amo, que aparece bem pouquinho, que é o Moacir, dono da Eletronaves. Eu adoro ele, acho ele um ator maravilhoso, acho que o personagem é maravilhoso. É um tiozinho que eu encontro na rua, que tem história, que é capaz de ficar sentado ao lado dele e falar “bom dia”, e ele vai falar das seis da manhã às seis da tarde. Qualquer um que for, será bem-vindo.
Vocês foram responsáveis por desenvolver o roteiro de Bruna Surfistinha 2. Qual o sentimento e a expectativa de trabalhar nesse projeto?
Mariana Bardan – Foi um convite maravilhoso que a gente recebeu do diretor Marcus Baldini, diretor do original. É um universo que nós não havíamos explorado. E isso foi o que chamou muito a nossa vontade de fazer, sabe?
É arriscado, porque é uma sequência, então as expectativas são similares às da segunda temporada de Cangaço Novo. Há muitos fãs.
Eduardo Melo: Tinha essa coisa de trabalhar com o Baldini também, mas, para mim, era muito doido pensar assim: “Nossa, eu vou escrever e a Deborah Secco vai ler esse texto. A Drica Moraes vai ler esse texto, sabe? O Cássio Gabus Mendes vai fazer esse personagem”. O desafio realmente me motiva. Acho que as pessoas vão ficar surpreendidas com o filme e, ao mesmo tempo, também acho que o espírito de Bruna Surfistinha foi mantido.
O filme original causou um impacto na cultura brasileira. Estou curioso para saber como isso vai ser retratado na sequência.
Mariana Bardan – Só você indo lá no cinema mesmo para saber. (Risos) É porque, se eu te contar, eu vou te contar a história, você vai saber.
Vocês também foram responsáveis pela animação Tuntum. Como foi trabalhar em um projeto infantil, especialmente após o sucesso de Cangaço Novo?
Mariana – Curiosamente, o projeto nasceu no mesmo ano que Cangaço Novo, lá em 2013. É uma animação pré-escolar, que segue outro caminho completamente diferente. Quem teve a ideia foi o Edu. Tuntum é a história de uma tartaruga aventureira, que mora em um jardim e tem dois amigos, um bicho-pau e um besouro-rinoceronte. E todos os dias eles saem do jardim para a floresta, encontram uma maneira de fugir do jardim e encontram o desconhecido.
E ela é essa tartaruga aventureira muito enérgica, que vai levando esses amigos para a aventura.
E foi uma doideira, porque demorou muito tempo para acontecer. É bastante difícil fazer um drama pré-escolar, de maneira que não fique totalmente simples demais, porque entendemos que esse tipo de obra é para a família. E foi uma felicidade muito, muito grande no ano passado, quando falaram para a gente: “Gente, vamos produzir, e a primeira janela de exibição vai ser a TV Cultura”. Que honra o projeto poder estrear assim. E é pura diversão. É música, é aventura, são personagens divertidos. Ninguém morre e é uma delícia. (Risos)
Quais são os grandes desafios para sair do papel, terminar o projeto, escrever e fazer com que ele se torne um projeto audiovisual? Quais lições dessas experiências vocês deixam para aqueles que desejam ser roteiristas?
Mariana – Olha, são muitos desafios. Muitos mesmo. O maior conselho que eu posso dar é você ter alguém ao seu lado. Porque não é sempre que você vai ter a energia de fazer o que tem que ser feito e de desapegar do que tem que desapegar. Criar com alguém, ter algum parceiro de trabalho em quem você confia plenamente, foi o que me fez seguir. Senão, eu acho que teria desistido, honestamente.
Eduardo – Uma coisa que eu comento sempre quando dou uma palestra: não seja você o inimigo do seu projeto. As coisas vão mudar ao longo do processo. Desenvolver o projeto é mudá-lo. E todo esse processo faz parecer que você está perdendo, mas você está ganhando.
Quando você vai escrever o roteiro, são tantas etapas para chegar até lá, e você vai trabalhar com essas pessoas por anos. Então, para além de ter o seu talento de escrita, você tem que ter um talento de relacionamento interpessoal, de entender os limites que o projeto tem, as necessidades que o projeto tem. Você é o maior especialista do seu projeto. Estude, pesquise, escreva e reescreva. Nunca está pronto. Lá na montagem, ainda vamos estar mexendo.
Vocês possuem 15 anos de parceria. O que vocês mais admiram no processo do outro?
Mariana – O Edu é um baú de ideias infinitas, infinitas. Nunca vi ninguém com a criatividade dele e a capacidade de imaginar, criar e achar soluções criativas. Às vezes, a nota que vem para a gente para ajustar no roteiro é ruim ou não está ajudando muito. E ele vai lá e tem ideias maravilhosas.
Eduardo – E não tomaria nenhuma forma se não fosse também com a parceria e a colaboração da Mari, que escreve de forma absolutamente elegante, melhora tudo o que você diz. Você conta uma ideia, na hora que ela escreve, a ideia já está melhor.
Tem hora que eu leio um texto e falo: “Nossa, mas isso aqui está maravilhoso”. Ela fala: “Não, foi você que escreveu”. Eu falo: “Não, foi você que escreveu”.
Virou uma simbiose. Parece que estamos jogando tênis e o texto é a bola. Eu bato a bola para lá e ela faz as alterações dela e bate para cá. Eu faço as alterações e bato para lá.
Eu acho que, para mim, a gente fala muito disso: as coisas não teriam sido como foram se não estivéssemos trabalhando juntos e como a sinergia é poderosa. É isso mesmo: você é o um mais um, dá bem mais que dois.
Mariana – Mas é curioso porque nós trabalhamos separados. Ele tem o escritório dele e eu tenho o meu. Não trabalhamos um do lado do outro, até porque já fizemos isso e é infernal, terrível. (Risos) Os métodos de cada um escrever são muito diferentes, quase sempre discordamos, e acho que isso ajuda o texto.
Eduardo – Nossa, é extremamente importante discordar para ter diálogo e debate. Todo mundo se sente parte para ver e aprovar. Você tem que confiar no outro. Você está falando: “Então vamos, vamos nessa, vamos embora, vamos ver como é que bate”. E bateu.
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