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CUIDADO COM A MENTE

Vencendo barreiras e tabus, agro também deita no divã

Foto: Magnific

Os transtornos da mente têm sido apresentados como o mal do século. Depressão, ansiedade, bipolaridade, autismo, TDAH (déficit de atenção e hiperatividade) passaram a fazer parte do cotidiano das famílias. Pelo menos agora, com diagnóstico. Mesmo assim, o tabu sobre esses temas faz com que muitas pessoas evitem buscar ajuda profissional, como atendimento de psicólogo ou psiquiatra.

No meio urbano, os cidadãos passaram a contar com um suporte, como forma de diminuir os motivadores para esse tipo de dificuldade, a NR-1. Ela estabelece as diretrizes de segurança e saúde no trabalho, com mecanismos para que as empresas incluam fatores de saúde mental – como estresse ocupacional, burnout, assédio moral e sobrecarga de trabalho – no gerenciamento de riscos.

Mas esse não é um problema apenas das empresas ou da frenética agitação das grandes cidades. A imaginada vida tranquila do meio rural também é palco para os diagnósticos. Muitas vezes, eles demoram para ser definidos, em função da falta de entendimento de que depressão e ansiedade precisam ser tratadas e que os profissionais para isso são os psicólogos ou psiquiatras.

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Muitos ainda têm vergonha ou receio de sofrer algum tipo de preconceito, ou convivem com o senso comum de que se trata de “dengo”, quando na verdade é algo progressivo e precisa ser tratado por quem conhece o assunto. Diante disso, seguindo a imagem que vem à mente ao falar em psicólogo, o agro também precisa deitar no divã, falar sobre suas dificuldades e encontrar o melhor caminho.

O exemplo é a dica dada por uma produtora rural, identificada nesta matéria com o fictício nome Maria. “Eu gostaria de dizer às pessoas que procurem ajuda de profissional o quanto antes, e que a família sirva de apoio. É muito importante, porque na verdade o que importa é a VIDA.”

Apoio profissional faz a diferença

A música, os filmes, até os desenhos animados, todos descrevem o meio rural como um ambiente de tranquilidade e paz, que pode servir como refúgio para quem está estressado e cansado da barulhenta correria cotidiana dos grandes centros. Mas até nesse aparente mundo “zen” existem motivações que desencadeiam transtornos como a depressão e a ansiedade.

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Maria, nome fictício dado à produtora rural que buscou ajuda profissional como tratamento, é um exemplo. Ela entende que uma série de motivos levaram-na à necessidade de procurar atendimento médico. Cita a perda de pessoas especiais e as dificuldades enfrentadas na infância. “Mas o principal motivo para mim foi um trauma na adolescência que não foi tratado na época”, recorda.

Quando percebeu que havia algo errado, Maria não cogitou diagnóstico de ansiedade e depressão. Pensou que o desânimo que sentia era reação a algo que pudesse não ter dado certo e seria uma sensação passageira; voltaria à “normalidade” no dia seguinte, quando estaria pronta para os próximos desafios. “Por isso demorei alguns meses para procurar ajuda de um médico (clínico geral). O tratamento com a psicóloga começou há cerca de dois meses”, conta.

A situação vivida pela produtora rural não é algo recente. Ao perceber que o que tinha ia além do desânimo momentâneo, há quase 19 anos (atualmente, ela tem 40) foi atendida e medicada, tendo ampliada a concentração dos remédios. A melhora, recorda, foi percebida logo no início do tratamento medicamentoso. “Porém, se não tiver um acompanhamento mais especializado, não se tem o resultado que se espera”, alerta.

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Ela tinha períodos de melhora, com redução dos sintomas, mas a situação voltava a piorar e ela retornava ao atendimento médico. A busca pela terapia com psicóloga, mesmo que recente, já é apontada como uma melhora significativa. “A única pessoa que me entende de verdade é a psicóloga e ela me ajuda a lidar com a depressão de um jeito mais fácil”, explica. Atualmente, ainda tem receitados antidepressivo e remédio para ter sono tranquilo.

O caso de Maria não é isolado. Ela diz conhecer pessoas que foram em busca de ajuda e enfrentaram eventuais preconceitos. O primeiro passo costuma ser a chegada ao clínico-geral, depois aos especializados, como psicólogo e psiquiatra. A recuperação, salienta, tem sido por meio de medicação e terapia, isolados ou em associação.

Enquanto isso, a produtora conta com apoio da família. São quatro pessoas na propriedade. Além dela, o marido e dois filhos. Eles dividem as tarefas e as responsabilidades.

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Pesquisa mostra influência de problemas financeiros

Levantamento realizado pela Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box, mostra que, para grande parte dos brasileiros, a saúde mental e as finanças caminham juntas. E esse efeito é sentido no meio rural, que chegou a 8,8% de inadimplência no primeiro trimestre deste ano. É o maior patamar da série histórica.

Para 89% dos entrevistados, a saúde mental foi afetada pelos problemas financeiros. A falta de dinheiro e a dificuldade para pagar as contas estão entre as maiores preocupações para 80% dos cidadãos. Como consequência, 53% relatam alteração no humor; 50%, problemas de autoestima; e 47%, questões de instabilidade emocional.

“Esse cenário mostra que a relação com dinheiro não fica restrita ao momento de pagar uma conta ou administrar uma dívida, mas pode acompanhar o indivíduo em todas as áreas da vida. Na prática, a pressão financeira ultrapassa a organização e passa a interferir diretamente no sono, no humor, na autoestima, nas relações e até mesmo na vida profissional”, comenta Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira.

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As dificuldades na economia doméstica afetam a saúde mental e isso transforma-se na necessidade de investimento para tratamento. É algo que tem recebido a atenção dos brasileiros. A pesquisa mostra que 83% gostariam de investir mais na própria saúde mental; 67% já gastam com esse fim; e para 36%, o investimento equivale a 10% da renda mensal.

Nem sempre o orçamento familiar dá conta de cobrir o custo da ampliação dos cuidados com o bem-estar. Segundo o levantamento, 66% dos entrevistados já enfrentaram dificuldades financeiras por causa de gastos relacionados à saúde mental, enquanto 62% deixaram de buscar ajuda psicológica por não conseguir pagar, ante 49% em 2025.

Gastos com medicamentos, terapia e psiquiatria podem pesar no orçamento. Ainda assim, os brasileiros seguem buscando formas de priorizar esses cuidados, mesmo quando isso exige adaptações na vida financeira.

O caminho para buscar ajuda

Além de vivenciarem situações semelhantes às percebidas no meio urbano, como o excesso de tempo diante das telas, as pessoas do meio rural ainda enfrentam as incertezas relacionadas à produção que, na maioria das vezes, não dependem de sua capacidade de reação. Psicóloga no Hospital Monte Alverne e membro do Comitê Municipal de Promoção da Vida e Prevenção ao Suicídio, Leidi Mello acrescenta que a comercialização das mercadorias, as jornadas de trabalho exaustivas e o próprio isolamento geográfico contribuem para as doenças da mente. “A distância entre uma propriedade e outra pode ser grande, dificultando o convívio social e o acesso a alguém com quem conversar ou compartilhar suas preocupações”, exemplifica.

Esses fatores, confirma, podem contribuir para o sofrimento psíquico e o desenvolvimento ou agravamento de quadros de ansiedade e depressão. “É importante desconstruir a ideia de que, por ser um ambiente mais tranquilo ou afastado dos grandes centros, o meio rural estaria protegido dessas questões. A saúde mental também é uma realidade e uma necessidade da população do campo”, alerta.

A situação se agrava porque a população rural ainda apresenta certa resistência em relação à busca por atendimento psicológico ou psiquiátrico. Leidi acredita que isso está relacionado ao preconceito e ao estigma que ainda existem em torno da saúde mental. “A procura por um psicólogo ou psiquiatra é associada à ideia de ‘loucura’ ou de que a pessoa é fraca”, explica.

A procura da ajuda profissional está, em geral, ligada à expectativa de solução imediata. A percepção da psicóloga é que há dificuldade de entender a importância de um acompanhamento contínuo e de longo prazo, bem como estabelecer a relação entre o sofrimento emocional e a necessidade de acompanhamento.

E essa busca por atendimento pode ser feita via Sistema Único de Saúde (SUS). O acesso deve ser feito na Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência da comunidade, incluindo no interior. A partir do acolhimento e da avaliação realizada pela equipe local, será identificada a necessidade de cuidado. O acompanhamento pode seguir na Atenção Básica ou junto a um serviço especializado da Rede de Atenção Psicossocial, como o Centro de Atenção Psicossocial (Caps), por meio de indicação.

“O principal desafio está em fazer com que as pessoas reconheçam a importância de buscar ajuda para questões relacionadas à saúde mental”, pondera. E essa dificuldade é ampliada quando se trata dos homens. Leidi diz que tanto eles quanto elas procuram ajuda, mas as mulheres chegam de forma mais objetiva em relação às questões emocionais. Identificam e verbalizam com mais facilidade que estão enfrentando ansiedade, sintomas depressivos ou outros problemas dessa natureza.

“Os homens chegam com um discurso um pouco diferente. É comum que venham encaminhados por profissionais ou familiares, principalmente porque nem sempre relacionam questões emocionais ou psicológicas aos sintomas físicos que estão vivenciando”, relata. Procuram pelo tratamento de uma dor ou de algum sintoma físico.

Leidi Mello é psicóloga

Não se trata de ‘frescura’

Por mais que tenha se percebido evolução no entendimento de que terapia é um tratamento para transtornos graves, como depressão e ansiedade, ainda existe a ideia de que sofrimento emocional é “frescura” ou de que a pessoa precisa ser forte para resolver tudo sozinha. A afirmativa é da gestora da Gehlen Gestão e Consultoria Empresarial, psicóloga Fátima Gehlen.

Destaca que, no meio rural, isso pode aparecer ainda mais. “Estamos falando de pessoas muito trabalhadoras, acostumadas a enfrentar dificuldades e seguir em frente. E justamente por isso, muitas vezes, os sinais vão sendo ignorados.” Mas é preciso mudar esse olhar.

A busca por um psicólogo ou um psiquiatra quando necessário, reforça Fátima, não é sinal de fraqueza, mas de cuidado e responsabilidade. “E não precisamos esperar adoecer para buscar ajuda: psicologia também é prevenção, autoconhecimento e promoção de saúde”, acrescenta.

Fátima explica que muitos fatores contribuem para o adoecimento emocional. No meio rural há algumas particularidades, como instabilidade financeira, clima, perdas na produção, endividamento, excesso de trabalho, isolamento, sucessão familiar e a própria responsabilidade de manter uma propriedade que, muitas vezes, atravessa gerações.

E mesmo a tranquilidade do ambiente, frisa Fátima, não significa ausência de sofrimento emocional. “Podemos olhar para o campo e enxergar silêncio, natureza e uma vida mais tranquila. Para quem vive aquela realidade, porém, há cobranças, responsabilidades e incertezas como em qualquer outro contexto profissional”, ressalta. E passa a ter um peso maior quando se entende que a propriedade é uma empresa rural.

Fátima fala em atuação preventiva

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