Já que estão falando muito sobre cinema brasileiro, vou falar também. E sobre menosprezo e juízos preconcebidos. O ator Reginaldo Faria, que em junho deste ano será homenageado no Festival Santa Cruz de Cinema, faz filmes desde a década de 1950. O Assalto ao Trem Pagador, de 1962, foi seu primeiro trabalho de projeção internacional. A história se baseia em um caso real da crônica policial: em junho de 1960, criminosos atacaram um trem de pagamentos na Estrada de Ferro Central do Brasil, em Japeri, no Rio de Janeiro, e levaram 27 milhões de cruzeiros.
O filme começa já na cena do roubo e se desenvolve mostrando suas consequências. A primeira suspeita – e que perdurou por um bom tempo, alimentada pela imprensa – foi de que tudo era obra de uma quadrilha internacional. Explodir os trilhos daquela maneira não era coisa de amadores brasileiros. Não, só podiam ser estrangeiros. E de primeiro mundo.
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Enquanto a polícia investiga, o bando comandado por Tião Medonho procura manter as aparências e levar uma vida normal, sem levantar desconfianças. Quase todos são moradores de favela e, sem dúvida, seria estranho se saíssem rasgando dinheiro de um dia para o outro.
Os assaltantes fazem um pacto. Durante pelo menos um ano, cada um deve gastar no máximo 10% da quantia roubada e partilhada. Acordo que não vai ser cumprido. Um deles, apelidado Grilo (Reginaldo Faria), é branco e tem condição social melhor do que os comparsas. Mora na cidade, não na favela, poderia passar por classe média, mas é o primeiro a esbanjar: compra um carro caríssimo quase imediatamente. É só o começo.
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E a justificativa de Grilo está na ponta da língua: “Eu tenho cara de quem tem carro. Aquele pacto foi feito pra vocês, não pra mim”. “Vocês” são os negros e favelados da quadrilha, especialmente Tião Medonho. Aqueles que estão sempre em atitude suspeita e chamam atenção da polícia. Grilo sabe: toda a história do Brasil conspira a favor do seu argumento.
Essa é, enfim, uma história de menosprezo. A polícia demora para resolver o caso porque, primeiro, imagina que a ousadia do assalto não está à altura da capacidade dos “nativos”. Por sua vez, os quadrilheiros desprezam a si mesmos e cavam a própria sepultura.
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De 1962 para cá, muita coisa aconteceu no cinema nacional até chegar ao reconhecimento atual, com três Globos de Ouro e um Oscar. Mas alguns desconfiam ainda que brasileiros não são capazes de fazer grandes filmes, não estão à altura dessa empreitada. Ora, trabalhos ruins há, mas também existem os bons. Um país que já produziu Os Fuzis, Vidas Secas e, sim, O Agente Secreto está longe de ser um país sem talento.
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