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REPORTAGEM ESPECIAL

A avó santa-cruzense de Suzane von Richthofen

Século 20: perspectiva da rua do Centro, nas imediações da praça, com a nova igreja católica em construção

por Ricardo Düren e Romar Beling

Era manhã de 1º de março de 1996 quando Claudio Júlio Tognolli, então repórter do extinto Jornal da Tarde, de São Paulo, apertou a campainha da casa de Manfred Albert von Richthofen. A recepção, contudo, não foi exatamente como o jornalista esperava. Embora tivesse aceitado a entrevista, rendido pela insistência de Tognolli, Manfred – um tipo sisudo e desconfiado – ainda não estava convencido de que aquele era, de fato, um repórter. Ordenou então que Tognolli e o fotógrafo José Diório jogassem suas credenciais por debaixo do portão e passou quase um minuto analisando a veracidade dos crachás, até finalmente franquear à dupla o acesso a sua casa – segundo algumas fontes, mantendo uma pistola Mauser na cintura.

Alemão naturalizado brasileiro, Manfred era engenheiro da empresa de Desenvolvimento Rodoviário (Dersa) e orgulhava-se de ser um dos projetistas do Rodoanel de São Paulo. Mas o tema da entrevista não tinha nada a ver com obras de engenharia. Para fazer suas reportagens, Tognolli tinha mania de folhear, em listas telefônicas, nomes e sobrenomes homônimos a heróis de histórias em quadrinhos – já havia, inclusive, encontrado a família Batmann em São Paulo. Por conta disso, um amigo sugeriu-lhe entrevistar um certo Von Richthofen, um dos últimos descendentes do lendário Barão Vermelho, piloto alemão que derrubou 80 aviões inimigos durante a Primeira Guerra Mundial. Ao longo de quase todo o mês de fevereiro de 1996, o repórter telefonou para Manfred duas vezes por semana, até convencer o engenheiro a recebê-lo para conversar sobre o antepassado aviador.

Uma vez tendo instalado os dois jornalistas em sua biblioteca, Manfred abandonou a frieza glacial com que os recebera e destravou a língua. Exibiu uma antiga árvore genealógica e apontou, entre os galhos repletos de nomes escritos em letra gótica, onde estava o Barão Vermelho e, enfim, onde ele mesmo aparecia. Disse que o Barão – homônimo a ele – era seu tio-avô.

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O casal Von Richthofen foi sepultado em jazigo simples, onde já haviam sido enterrados os avós dele, Ernst e Margot Matheis, no Cemitério do Redentor, em São Paulo. Posteriormente, Margot Gude Hahmann foi sepultada no mesmo local | Foto: Livro Suzane – Assassina e manipuladora (Matrix, 2020)/Divulgação/GS

Não parou por aí. Afirmou ainda que seu próprio pai fora, também, piloto a serviço da Alemanha e comandante de um grupo de bombardeiros batizado por Hitler de “Esquadrão Richthofen”. Curiosamente, não revelou o nome do pai. E não fez nenhuma alusão, durante a entrevista, a sua mãe, Margot Gude Hahmann – de casa, Matheis – uma santa-cruzense que, à época, somava 72 anos de idade.

Embora nunca tivesse pilotado um avião, Margot Gude também era uma personagem curiosa. Viúva por três vezes, teve uma vida repleta de desventuras, perdas e tragédias. Uma das mais graves foi a morte de seus pais, Ernst e Margot Matheis. Alemão, Ernst chegou a Santa Cruz do Sul com a esposa na década de 1920, trazendo na bagagem o diploma de engenheiro-arquiteto. Sócio da firma Schütz e Matheis, foi, nada mais, nada menos, que um dos projetistas da imensa Catedral São João Batista.

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Contudo, ao final da década de 1930 aceitou uma proposta de trabalho em São Paulo, para onde se transferiu com a esposa e as duas filhas nascidas em Santa Cruz, Margot Gude e Edeltraut. Acabou encontrando a morte ao volante de um automóvel, acompanhado da esposa, em um acidente ocorrido em 1953 na estrada de Santos. Contudo, a perda mais chocante de Margot Gude aconteceria seis anos depois da estranha entrevista concedida pelo filho, fruto de seu segundo casamento, ao Jornal da Tarde. Em 31 de outubro de 2002, o próprio Manfred morreria de forma brutal junto com a esposa, Marísia – ambos assassinados a pauladas por uma dupla que ficaria conhecida, no noticiário nacional, como os irmãos Cravinhos. O resultado das investigações chocou ainda mais o País: a mandante do crime fora Suzane, a filha das vítimas.

Agora, passados 19 anos desde o duplo homicídio, o tema voltou à baila por conta do lançamento de dois filmes sobre o caso. E, na esteira disso, a Gazeta do Sul revela com exclusividade detalhes da vida de Margot Gude, a avó santa-cruzense de Suzane von Richthofen.

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Família Von Richthofen: Suzane, o irmão Andreas e os pais Marísia e Manfred

O caso que chocou o Brasil completa 19 anos

O lançamento, ao longo de setembro, de dois filmes simultâneos sobre o caso Von Richthofen (A Menina que Matou os Pais e O Menino que Matou meus Pais), reacende a memória de uma tragédia familiar: o assassinato do casal Manfred Albert e Marísia von Richthofen, que completa 19 anos no próximo domingo, dia 31 de outubro, e fecha duas décadas em 2022. No contexto das reportagens relacionadas com as duas produções cinematográficas, uma informação tem voltado à tona na imprensa: a de que teria nascido em Santa Cruz do Sul a avó paterna de Suzane Louise von Richthofen – a jovem que tramou a morte dos próprios pais.

Margot Gude Hahmann, a avó, deu depoimentos e foi citada nos autos do processo, afirmando, na época, que até mesmo perdoava a neta, embora soubesse que a jovem teve participação direta no crime. Margot faleceu em 15 de março de 2005, aos 82 anos, e acabou deixando seu apartamento na capital paulista, avaliado em R$ 1 milhão, como herança para Suzane, enquanto o irmão desta, Andreas, ficou como herdeiro dos demais bens da família.

Mas, afinal, qual circunstância vincularia a avó de Suzane von Richthofen a Santa Cruz do Sul? Tais afirmações conferem com a realidade? A Gazeta do Sul, em esforço de investigação, verificou que isso é verídico. E mais: Margot Gude era filha de Ernst Matheis, o arquiteto responsável pela obra da Catedral São João Batista, o cartão-postal de Santa Cruz do Sul. Ou seja, Matheis, o engenheiro-arquiteto envolvido, em meados da década de 1930, na construção do templo referencial em todo o Sul do Brasil, é o bisavô de Suzane Louise von Richthofen.

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E haveria na Santa Cruz dos dias atuais alguma memória ou um testemunho da época e das situações associadas à presença dos Matheis na cidade? A Gazeta descobriu que sim. A viúva santa-cruzense Luza Schütz Gewehr, hoje com 95 anos, conviveu na infância tanto com Margot Gude quanto com a irmã mais nova dela, Edeltraud, ambas filhas do casal Ernst e Margot Matheis. Dona Luza recebeu a Gazeta na companhia da filha Dóris em sua casa, na Rua Thomaz Flores, para falar das lembranças do período em que conheceu os Matheis.

Já o arquiteto Ronaldo Wink, em livro sobre a construção da Catedral, menciona que Ernst Matheis era alemão, tendo nascido em Munderkindem, na região de Donau, em 31 de março de 1895. Ainda no país natal se formara engenheiro arquiteto e, jovem, transferira-se para o Brasil. Teria vindo ao Sul do País já na companhia da esposa Margot – Dettinger, de casa. Dona Luza tem lembrança de que o casal, num primeiro momento, teria se fixado em Cachoeira do Sul, logo se mudando para Santa Cruz, onde deve ter chegado no início da década de 1920.

Andreas e Suzane – que chorou copiosamente – no enterro dos pais

Um engenheiro que fomentava o teatro

Em Santa Cruz, o engenheiro-arquiteto Ernst Matheis tornou-se sócio da construtora Schütz e Matheis, em parceria com Heinrich Schütz, que vinha a ser tio de Luza Schütz Gewehr, irmão do pai dela, Oswald, e ainda do outro mano, Arnoldo. A firma criada por Ernst Matheis e Heinrich Schütz foi responsável por projetar e executar obras como a nova usina elétrica de Santa Cruz, em 1935, bem como o hospital e a igreja evangélica em Cachoeira do Sul, em 1938, assinando também inúmeras obras residenciais e comerciais em Santa Cruz.

A família Matheis ocupava, em sua temporada santa-cruzense, uma casa com porão que existe ainda hoje, localizada na Rua Marechal Deodoro, esquina com a Sete de Setembro, defronte ao atual restaurante Minato Mirai. Ali, nasceram as duas filhas: a primogênita, Margot Gude, no dia 16 de setembro de 1923; e Edeltraut, em 8 de março de 1932. Luza Schütz Gewehr nasceu em 23 de abril de 1926 e, assim, era de idade intermediária entre as irmãs Matheis, com as quais pôde conviver bastante, uma vez que suas famílias moravam próximas, na mesma área da cidade.

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Sede da Sociedade Ginástica, onde Matheis conduzia um grupo de teatro


Ronaldo Wink refere no livro sobre a Catedral que Ernst Matheis ainda tivera forte atuação cultural em Santa Cruz, sendo, entre outros, fundador de um grupo teatral, chamado Thegesa (Theater Gemeinschaft), responsável pela encenação de diversas peças e pelo fomento às artes. Dona Luza, que vivenciou isso de perto na infância e na juventude, embora sem integrar o elenco das peças, lembra que as apresentações eram sediadas na Sociedade Ginástica, a duas quadras da casa dos Matheis. O porão da residência deles funcionava como um garde-robe, um guarda-roupa, espaço onde eram guardadas e manuseadas as fantasias e as roupas utilizadas nas encenações. “Recordo que, muitas vezes, eu e outras amigas, em visita às filhas de Matheis, brincávamos naquele ambiente”, relembra. Ou seja, de certo modo, Gude e Ethel, como as chama Luza, cresceram num ambiente familiar que estimulava a imaginação e a fantasia.

Tudo isso acabou interrompido quando Ernst, ao final da década de 1930, aceitou proposta profissional em São Paulo e se mudou com a família para a capital paulista, onde foi um dos responsáveis pela construção da refinaria petrolífera Presidente Bernardes, em Cubatão, conforme cita Wink. Se a passagem dos Matheis por Santa Cruz estava concluída, nem por isso dona Luza deixou de ter contato com as amigas de infância ou de ter notícias delas. Ao menos de Ethel, porque com Gude, a mais velha e já adolescente, nunca mais conversou, ainda que seguisse tendo algumas informações esporádicas sobre ela nas décadas seguintes.

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Ernst Matheis, em foto de época, anos 30

O bisavô de Suzane ajudou a construir a Catedral

Por mais inusitado que possa parecer, a história de vida da família de Suzane von Richthofen acaba por se vincular à construção da Catedral São João Batista, de Santa Cruz do Sul. Foi seu bisavô, que imigrara da Alemanha com a esposa para o Rio Grande do Sul, quem respondeu, como engenheiro-arquiteto, pela obra do templo. Ao lado da esposa Margit, Ernst, na condição de sócio de Heinrich Schütz na Construtora Schütz e Matheis, coordenou os trabalhos a partir de 2 de março de 1934, quando foi assinado o contrato com a Paróquia São João Batista, como recorda o arquiteto e professor Ronaldo Wink em seu livro dedicado à Catedral São João Batista.

O projeto original do templo, cuja obra estava interrompida naquela ocasião, era do arquiteto Simon Gramlich, também um alemão. Porém, este foi embora de Santa Cruz em 1931 para se fixar em Blumenau. Saiu após uma briga feia com setores da Igreja que não gostaram de seu estilo arquitetônico – e levou consigo todas as plantas da obra. O resultado é que coube a Schütz e Matheis, por contrato, inclusive fazer um levantamento completo da etapa já executada até cerca de 1930, para então elaborar uma nova planta a partir do já existente. Wink entende que a contratação da empresa foi muito acertada, pois ambos eram profissionais com larga experiência.

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Depois de concluída a elaboração do novo projeto, as obras finalmente recomeçaram em janeiro de 1935. A nova matriz foi usada pela primeira vez em 2 de agosto de 1936, mesmo com as obras ainda em pleno andamento. E, após uma década de espera desde o seu início, a Catedral foi enfim inaugurada em 24 de dezembro de 1939. Por essa época, Matheis também já havia projetado e executado as obras em Cachoeira do Sul, no caso, o hospital e a Igreja Evangélica, isso em 1938. E logo a família, já com as duas filhas, Margot e Edeltraud, mudava-se para Cubatão, em São Paulo, onde a história seguiria.

Um elo perdido da família em Santa Cruz

Uma parte da história da passagem dos Matheis por Santa Cruz seguiu por aqui. Ocorre que Margot, esposa de Ernst, quando as filhas eram pequenas, convidou sua irmã, Frieda, a vir da Alemanha a Santa Cruz para ajudá-la a cuidar das meninas.

Frieda não só veio para cá como aqui se casou, justamente com Arnoldo Schütz, um dos tios de dona Luza Gewehr. Arnoldo nasceu em 14 de abril de 1896 e faleceu em 15 de abril de 1947. De Frieda não se conhece a data de nascimento e morte. O casal teve dois filhos: Myra, nascida em 18 de dezembro de 1927 e falecida em 24 de março de 1985, solteira e sem filhos; e Guido, nascido em 5 de novembro de 1938, que casou com Ruth Esther Lange, ambos já falecidos. Eles tiveram a filha Suzana, também falecida, vítima de um incêndio. O casal Frieda e Arnoldo se instalou bem próximo da casa na qual Luza se estabeleceu com seu marido, Edgard Gewehr, falecido (além de Dóris, tiveram os filhos Úrsula, que mora em Porto Alegre, e Geraldo, radicado em Formosa, Goiás). Assim, se os Matheis acabaram deixando Santa Cruz, por aqui ficou a irmã da esposa de Ernst.

E, em questão de anos, a comunidade ficou em choque com a notícia de que Ernst e a esposa Margot haviam morrido em acidente de carro, nas curvas de Santos, no dia 5 de julho de 1953. Por aquele tempo, Margot Gude, a filha mais velha, que herdara o primeiro nome da mãe, estava na iminência de completar 30 anos, e a informação que Luza tinha era de que ela havia se transferido para a Alemanha. Mas não tinha muita clareza sobre o que havia acontecido em sua vida. Essa incógnita motivou questionamentos, ainda mais porque em 1953 Margot Gude teve em Erbach, na Alemanha, um filho: Manfred Albert von Richthofen. O sobrenome aristocrático logo remete ao Barão Vermelho, o icônico aviador da Primeira Guerra Mundial. O Manfred, filho de Gude, viria a ser o pai de Suzane, sua própria assassina.

Os vários mistérios que persistem na vida de Margot Gude

Se dona Luza Schütz Gewehr e os santa-cruzenses nunca mais tiveram notícias muito claras e frequentes de Margot Gude, a primogênita dos Matheis, as lacunas em sua biografia começaram a motivar indagações logo após o assassinato de seu filho Manfred von Richthofen, e da esposa dele, Marísia, em 2002. Margot, avó de Suzane, já aos 80 anos, não assinava Richthofen, mas sim Hahmann; e ninguém conseguia associar fatos sobre quando, onde e com quem havia casado para assumir tal sobrenome – se em São Paulo ou em outra região do Brasil, se na Alemanha ou em outro país.

Houve mesmo quem afirmasse, inclusive em livro, que logo após o nascimento de Manfred, e em sequência à morte dos pais, ela teria retornado a Santa Cruz na companhia do filho pequeno, quando este estaria com 1 ano. E que por aqui teriam permanecido até os anos 60, para então se fixar novamente em São Paulo, onde Manfred efetivamente ingressou na faculdade, no início da década de 1970.

Mas Luza é taxativa ao afirmar que Gude jamais retornou a Santa Cruz, nem sozinha, nem na companhia do filho. Garante que, com sua tia e preceptora Frieda residindo na cidade, seria impossível que a presença da sobrinha desta passasse despercebida, ainda mais por tantos anos, como supostamente teria sido. Assim, o mais provável é que Gude, ao retornar com o filho pequeno ao Brasil, tenha se fixado em São Paulo, onde ficaram os bens dos pais, recém-falecidos, e onde morava a irmã Edeltraud, a Edel, como Luza a chama. Edeltraud se casou com Walter Helmut Koessel, e o casal não teve filhos. Luza seguiu trocando correspondência com Edel, e esta veio ao menos duas vezes visitar a tia Frieda em Santa Cruz, ocasiões em que as amigas de infância se reencontravam.

Uma visita aos Koessel

Já nos anos 1990, Edeltraud e seu marido Walter Helmut insistiram para que Luza fosse visitá-los em São Paulo. Ela passou uma semana hospedada na casa deles e diz que teve a impressão de que as irmãs Matheis eram distantes uma da outra, e nem sequer se davam bem, até pela diferença de idade. Edel, a mais nova, tinha gênio mais forte e Gude, por sua vez, insinuava espírito muito aventuresco. Tanto que, durante a semana em que Luza ficou em São Paulo, nunca houve referência nem a Gude nem ao casal Manfred e Marísia, nem os sobrinhos-netos Suzane e Andreas, já adolescentes, alguma vez visitaram a casa. Luza apenas recorda que Helmut, que logo após sua visita ficaria viúvo, perdendo a esposa por um câncer, manifestava apreço por Andreas, o filho de Manfred.

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Castelo que se salienta em Erbach, onde nasceu o pai de Suzane e Andreas

Os aristocráticos Von Richthofen

E, no entanto, como teria seguido a vida de Margot Gude, se no início dos anos 2000, já morando sozinha, e viúva, nem sequer assinava Von Richthofen? Quem levantou informações é a blogueira Gabriella Raires, no site Medium. Curiosa acerca do suposto parentesco de Suzane von Richthofen e, naturalmente, de seu pai com o famoso Barão Vermelho, Gabriella passou a investigar a família numa tentativa de esclarecer o que seria verdadeiro e o que se mostraria inverídico.

Gabriella começa por estabelecer que o Barão Vermelho, apelido de Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen (que, aliás, tinha justamente o mesmo nome do filho da santa-cruzense Margot Gude), nascera em Breslau, em 1892, e morrera em Vaux-sur-Somme, em 21 de abril de 1918, abatido em combate ainda na reta final da Primeira Guerra. Na entrevista ao jornalista Claudio Tognolli – que citamos no começo dessa reportagem –, Manfred, pai de Suzane, garantiu que o Barão Vermelho era seu tio-avô, e seu próprio pai teria sido indicado para testar o primeiro esquadrão de aviões de bombardeio de mergulho Stuka, que Hitler teria batizado de Esquadrão Richthofen. O pai de Manfred teria comandado o grupo e ainda teria sido designado para atuar na Guerra Civil Espanhola (em 1936), uma vez que o general espanhol Franco teria solicitado a Hitler o apoio logístico dos Stukas. Manfred ainda disse ao repórter que seu pai teria morrido em decorrência de problemas nas costas, porque mergulhava muito com os bombardeiros e, quando o avião arremetia, ocorria o que se chamava de “chicote” – uma batida forte das costas no encosto do Stuka.

Em pesquisas, Gabriella identificou que o Richthofen responsável por bombardeios na Espanha foi Wolfram Freiherr von Richthofen. E observa que um detalhe não fecha: Wolfram nasceu em 1895, na Polônia, e morreu em 12 de julho de 1945 – ou seja, cerca de oito anos antes de Manfred nascer. Gabriella frisa que, no final das contas, Manfred não cita nomes na entrevista, o que deixa tudo muito enigmático. E acrescenta mais um fato: em 1977, em proclama de casamento publicada em jornal, anuncia-se a união de Manfred e Marísia, e ali se informa que ele, “nascido na Alemanha, aos 3 de fevereiro de 1953”, profissão engenheiro, seria filho “de Joachim Hermann Oskar von Richthofen e de Margot Gude von Richthofen”, enquanto Marísia Abdalla era nascida em José Bonifácio, em São Paulo, aos 22 de de janeiro de 1952, de profissão médica, filha de Salim e Lourdes Magnani Abdalla. A Gazeta do Sul também teve acesso ao mesmo documento.

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O curioso é que não há referência, na internet ou em qualquer organismo, a um suposto Joachim Hermann Oskar von Richthofen. A única citação é a Hermann Freiherr von Richthofen, nascido na Breslávia em 20 de novembro de 1933 e falecido em Berlim, muito recentemente, em 17 de julho de 2021, aos 87 anos. Hermann de fato era sobrinho-neto do famoso Barão Vermelho e teria 19 anos em 1953, quando o filho de Gude nasceu. Porém, assumiu carreira diplomática, como embaixador da Alemanha no Reino Unido entre 1989 e 1993, e, naturalmente, poderia ter sido facilmente contactado ou consultado caso fosse mesmo pai de um Manfred no Brasil.

Parentesco em xeque

Gabriella lembra que, quando as notícias sobre o duplo homicídio foram divulgadas, alemães foram à imprensa para negar qualquer parentesco entre o Barão Vermelho e os Von Richthofen no Brasil. Para complicar mais o cenário, páginas de genealogia na internet, como a ancestors.familysearch.org, em inglês, têm informação ainda mais emblemática. Esta menciona justamente Manfred Albert von Richthofen, nascido em 3 de fevereiro de 1953, em Erbach, Alb-Donau-Kreis, em Baden Württenberg, na Alemanha, e agrega a foto do pai de Suzane. E ali consta que quando Manfred nasceu, “seu pai, Manfred von Richthofen, tinha 18 anos e sua mãe, Margot Gude Hahmann, tinha 29” – ainda que Margot só tenha adotado o sobrenome Hahmann muito mais tarde, por conta do terceiro casamento. A idade de Margot realmente confere, uma vez que nasceu em 1923. O site acrescenta que o Manfred pai teria nascido em 1934 e morrido em 2014, na altura dos 80 anos. Por essa via, Margot teria tido relacionamento com um Von Richthofen mais novo do que ela, e teria dado o nome do pai ao filho que nascera em Erbach e logo fora trazido ao Brasil.

Sobrinho do Barão?

A trajetória da família Von Richthofen sempre motivou referências a um dos mais emblemáticos personagens da história, o Barão Vermelho (foto), apelido do piloto de caça alemão da Primeira Guerra Mundial que até hoje é chamado de “o ás dos ases”. Mais curioso ainda é que o filho de Margot, Manfred Albert, carrega justamente o nome do Barão Vermelho: Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen.

Não só por terem o mesmo nome é que o filho de Margot é referido, mas porque, supostamente, o Barão Vermelho seria seu tio-avô, conforme o discurso assumido em família, ainda que na Alemanha esse dado tenha sido refutado com veemência.

Independentemente do que de fato tenha ocorrido, e de quem seja seu pai, em acontecimentos já ocultos nas brumas do início da década de 1950, Manfred realmente teve como xará um dos mais ilustres aviadores e líderes militares do primeiro conflito mundial. E a santa-cruzense Margot Gude, falecida em 2005, era a única que poderia contar a verdade dos fatos e elucidar essa incógnita que, ainda hoje, vincula Suzane e o irmão Andreas aos nobres Von Richthofen europeus. Ou teriam Margot e o pai de Manfred, na época, escolhido o nome do filho justamente para sugerir um parentesco e a alusão ou criar essa associação com o famoso aviador?

Ela também teve uma filha

A blogueira Gabriella Raires levantou mais aspectos da vida da santa-cruzense Margot Gude e de sua irmã Edeltraud, esta nascida em 8 de março de 1932 e falecida em 24 de março de 2002. Lembra que Edeltraud casou-se em São Paulo com Walter Helmut Koessel, nascido em 4 de fevereiro de 1918 e falecido em 5 de março de 2007. A irmã de Gude faleceu pouco mais de meio ano antes do assassinato de Manfred e Marísia. E nos dias que se seguiram à morte deles, viúvo e na condição de tio de Suzane e Andreas, Helmut, como o chama (pelo segundo nome) a santa-cruzense Luza Schütz Gewehr, foi um dos poucos membros da família a dar declaração pública, condenando e refutando de forma veemente a atitude de Suzane.

Gabriela frisa que Manfred não foi o primeiro filho de Margot Gude. Nos anos 1940, com pouco mais de 20 anos, ela teria se casado com um rapaz chamado Kaare Hafström, e em 1º de maio de 1949, aos 25 anos, teria dado à luz uma filha, Karin Margot Hafström. Ao que tudo indica, esse casamento foi com um estrangeiro, pois na internet um Kaare Lambert Hafström, dinamarquês, é referido como filho de Rose Maria Birgitte Hafström, nascida Thomsen (1878-1958). O marido de Margot teria morrido três meses após o nascimento da filha Karin. E esta, por sua vez, também teria morrido jovem, aos 21 anos, em julho de 1970, um ano após ter se casado com um rapaz chamado Christiano Dieter Neis. O casal não tivera filhos.

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Encontra-se na internet (em www.jusbrasil.com.br/diarios), em página do Diário Oficial do Estado de São Paulo, do Poder Judiciário, uma comunicação de 24 de março de 1969 de que pretendiam se casar Christiano Dieter Neis, brasileiro, solteiro, administrador de empresa, nascido em São Paulo em 30 de setembro de 1943, filho de Hermann Wilhelm Neis, e Karin Margot Hafström, filha de Kaape Hafström e Margot Gude Matheis Hafström.

A confirmação

Margot confirmou em 2004, quando depôs em favor da soltura de Suzane, que tivera uma filha, já falecida. E que, uma vez que vivia sozinha, dispunha-se a receber a neta, filha de Manfred, para morar com ela, mesmo após os assassinatos. O curioso é que, nesse caso, não há clareza sobre se Margot, ao se mudar para a Europa, levou consigo a filha, que, tendo nascido em 1949, deveria ser bem pequena, ou se a deixou aqui no Brasil, talvez com seus próprios pais – no caso, os Matheis. De todo modo, se isso tivesse acontecido, certamente a irmã Edeltraud em algum momento o teria mencionado nas conversas com sua tia Frieda, que morava em Santa Cruz, e esta o teria referido a Luza.

De todo modo, pouco tempo depois da morte do marido, Hafström, Margot mudou-se para a Europa, onde teria se casado de novo, agora com um Von Richthofen. O certo é que em 3 de fevereiro de 1953 deu à luz Manfred Alfred von Richthofen. O marido, uma vez mais, teria morrido pouco tempo depois. Ao que tudo indica, Margot, de novo viúva, voltou para o Brasil com seu casal de filhos ou apenas com o pequeno Manfred, se Karin tivesse permanecido por aqui.

Trajetória com muitas perdas

A biografia de Margot não parou por aí. Em 1976, anos depois do falecimento de Karin, e três anos após o casamento do filho Manfred com Marísia, a santa-cruzense se casou uma terceira vez, agora com Carlheinz Hahmann, engenheiro e fotógrafo de ferrovias, também viúvo e pai de um casal, Walter e Úrsula.

Eles ficaram juntos por 12 anos, até 1988, quando Carlheinz faleceu, deixando-a mais uma vez viúva. Gabriella Raires afirma que Manfred e Walter, enteado de sua mãe Margot, eram próximos e chegaram a ser sócios em uma empresa de engenharia chamada MAVR Consultoria e Engenharia Ltda.

Sobre Carlheinz há muitas referências na internet, com trabalhos publicados, em textos e fotos, sobre ferrovias, bem como as referências à execução de seu espólio, no qual se cita inclusive um imóvel em Canela, no Rio Grande do Sul. Gabriela sintetiza a trajetória de Margot: casou três vezes, enterrou os três maridos; teve dois filhos, perdeu os dois; perdeu o pai e a mãe em um acidente de carro; nunca foi próxima da única irmã, muito menos da tia Frieda, que ficara em Santa Cruz. E, no entanto, foi capaz de afirmar que perdoava a neta Suzane mesmo ela tendo tramado a morte do pai (no caso, o filho de Margot) e até de deixar seu apartamento como herança para a neta.

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Há quem diga que na verdade Suzane nem era tão próxima da avó, mas, diante da solidão em que se encontrava, na prisão e em meio aos processos, aceitara de bom grado o aceno de Margot de que a perdoava e estava disposta a conversar com ela e acolhê-la de algum modo. Ou seja, por essas opiniões, a neta, nesse caso, teria se aproveitado da condição de fragilidade da avó, igualmente sozinha, na reta final de sua vida, para tentar tirar algum benefício dessa condição.

A Gazeta do Sul, ao longo da elaboração desta reportagem, buscou exaustivamente localizar algum registro em foto de Margot Gude, mas sem sucesso. Parece que nenhuma fotografia dela foi captada, mesmo em sua vida adulta ou de idade já mais avançada.

Como Manfred fez um novo amigo

Quando o assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen ganhou as manchetes internacionais, a a imprensa alemã se apressou em tentar desmentir os supostos vínculos entre o engenheiro morto e o Barão Vermelho. O diário alemão Bild deu voz a um estudioso da história do herói de guerra alemão, para o qual tais relações de parentesco não passavam de uma invenção da imprensa brasileira.

Por sua vez, o jornalista Claudio Tognolli, autor da famosa entrevista com Manfred publicada em 1996 no Jornal da Tarde, saiu em defesa da categoria e de si mesmo. Em artigo veiculado em novembro de 2002, no site Observatório da Imprensa, Tognolli relatou os bastidores da visita à casa de Manfred e deixou nas entrelinhas que, se alguém mentiu naquela ocasião, não foi o repórter. Hoje, Tognolli é professor de jornalismo na Universidade de São Paulo (USP), apresentador da Rádio Jovem Pam e autor de uma penca de livros.

O fato é que, verdadeiros ou não, os relatos de Manfred von Richthofen acerca dos antepassados aviadores deram curso, ainda que indiretamente, aos fatos que culminariam no brutal assassinato dele e da esposa. Na biografia de Suzane – obra que chegou a ser proibida pela Justiça (foto) – o também jornalista Ullisses Campbell relata que, em 3 de julho de 1999, data do aniversário de 12 anos de Andreas, Manfred presenteou o filho com um aeromodelo – um avião em miniatura, movido por controle remoto. Realizava-se ali o sonho de um garoto que passou a infância ouvindo, do pai, as histórias sobre as aventuras do avô piloto nos céus esfumaçados da Segunda Guerra Mundial, bem como sobre os feitos do temido Barão Vermelho.

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Mas faltava montar o aeromodelo e aprender a pilotá-lo, para que o brinquedo não se estatelasse no chão. Então, no mesmo dia, Manfred, Marísia e Andreas seguiram de carro até o Clube Escola de Aeromodelismo, situado no Parque Ibirapuera. Foi então que conheceram um jovem de 19 anos já famoso por sua perícia com aeromodelos. Seu nome: Daniel Cravinhos de Paula e Silva. O engenheiro simpatizou com o rapaz e logo passou a contar, também a ele, as histórias sobre os feitos do pai e do tio-avô em combate. Daniel correspondeu. Tratou o casal e o garoto com cortesia e comprometeu-se a montar o aeromodelo de Andreas até o dia seguinte. Naquele momento, nascia uma amizade que terminaria tragicamente.

Uma brutalidade

A simpatia de Manfred por Daniel Cravinhos começou a azedar depois que o rapaz deu início a um namoro com Suzane. Para o alemão, manter uma amizade com o jovem instrutor de aeromodelismo era uma coisa, mas tê-lo como candidato a genro era outra bem diferente. Segundo a polícia, a desaprovação que o casal Von Richthofen mantinha em relação ao namoro e os interesses pela herança foram os principais motivos que levaram Suzane a planejar a morte dos pais. E a recrutar, como executores, o próprio namorado e o irmão dele, Cristian Cravinhos de Paula e Silva, então com 27 anos, um apaixonado por motos barulhentas e esportes radicais.

Também foi Suzane que, na noite de 31 de outubro de 2002, dirigiu seu Gol, com os irmãos Cravinhos a bordo, até o interior do pátio da própria casa, passando pela guarita do condomínio sem gerar desconfiança entre os vigias. Dias antes, ela já havia desligado os alarmes e câmeras da residência. Uma vez dentro da mansão, os irmãos Cravinhos avançaram, de capuz e luvas, até o quarto onde o casal Von Richthofen dormia. Suzane esperou do lado de fora do quarto, sem olhar para dentro, enquanto os pais eram trucidados a golpes desferidos com barras de ferro.

Daniel foi quem golpeou Manfred, enquanto Cristian investiu contra Marísia. Foram vários golpes, que esfacelaram os rostos das vítimas, provocando-lhes, conforme a perícia, imensurável dor. Depois, os algozes cobriram as cabeças dos cadáveres com sacos plásticos – uma tentativa de amenizar o terror da cena por eles criada, pois presumiam que o garoto Andreas poderia ser o primeiro a descobrir o assassinato. A seguir, foram embora, levando R$ 8 mil, 6 mil euros e 5 mil dólares. Imaginavam que, assim, a polícia acreditaria que aquele fora um latrocínio (roubo com morte), cometido por ladrões comuns.

A artimanha não funcionou. Desde o início, a polícia desconfiava que o latrocínio fora encenado e, em 8 de novembro de 2002, o trio confessou o crime. Após cinco dias de julgamento, em julho de 2006, Suzane e Daniel foram condenados a 39 anos de prisão, e Cristian, a 38. Já em maio de 2015, a Justiça determinou que a herança da família fosse entregue apenas a Andreas. Para Suzane ficou, “apenas”, o apartamento de R$ 1 milhão deixado por Margot Gude Hahmann, sua avó santa-cruzense.

Os irmãos Cravinhos: Cristian e Daniel, após as confissões para a polícia

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