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CONVERSA SENTADA

A guerra que não diz seu nome

“O mundo está em guerra?” A pergunta emerge não como anúncio espetacular, mas como sintoma de uma transformação mais profunda. Não há declarações formais, nem frentes claramente demarcadas, mas um estado difuso de conflito que atravessa territórios, economias e imaginários sociais. A guerra contemporânea não se apresenta como ruptura; ela se instala como condição.

A violência geopolítica deixou de obedecer à lógica clássica da exceção. Em vez de um confronto centralizado, observa-se a proliferação de conflitos simultâneos, interligados por alianças instáveis, interesses econômicos e disputas simbólicas. Ucrânia, Oriente Médio, Indo-Pacífico e guerras comerciais não compõem episódios isolados, mas fragmentos de uma mesma arquitetura de tensão permanente.

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Essa forma de guerra reflete uma mutação estrutural. As grandes guerras do século XX organizavam-se em torno de Estados, exércitos regulares e narrativas ideológicas totalizantes. Hoje, o conflito assume caráter híbrido e descentralizado. Sanções econômicas, ciberataques, controle de cadeias produtivas, sabotagem informacional e pressão tecnológica tornam-se instrumentos centrais. A guerra se desloca do campo militar para o campo sistêmico.

Trata-se menos de conquista territorial e mais de controle de fluxos: de energia, de dados, de capitais e de narrativas. Nesse sentido, a guerra contemporânea é também uma disputa pela capacidade de organizar o mundo. Ela opera abaixo do limiar da declaração formal, justamente para evitar os custos políticos e morais que as guerras explícitas carregam. O conflito torna-se administrável, contínuo e, por isso mesmo, normalizável.

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Essa normalização tem efeitos sociais profundos. A insegurança deixa de ser evento pontual e passa a estruturar a experiência cotidiana. Crises econômicas recorrentes, polarização política e desgaste institucional não são fenômenos paralelos, mas expressões internas de um mundo permanentemente tensionado. A guerra externa encontra ressonância na fragmentação interna das sociedades.

O perigo maior não reside apenas na possibilidade de uma escalada militar aberta, mas na naturalização do conflito como forma legítima de organização da vida global. Quando a exceção se torna regra, o estado de alerta permanente corrói a capacidade de imaginar alternativas. A paz deixa de ser horizonte e passa a ser intervalo.

Nomear esse cenário como guerra mundial pode parecer impreciso, mas recusar qualquer nome talvez seja ainda mais revelador. A dificuldade de nomeação indica que lidamos com um fenômeno novo, que escapa às categorias herdadas. A guerra que não diz seu nome é, antes de tudo, a guerra de um mundo que perdeu seus mecanismos de contenção.

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