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MEIO AMBIENTE

A vida em harmonia com a natureza na Lapônia sueca

Foto: Arquivo Pessoal

O texto que segue nas próximas linhas conta uma entre as muitas experiências de um arroio-tigrense que se aventurou no mundo. O empreendedor ambiental, Vianei Hermes, 43 anos, mora, desde 2005, em Estocolmo, na Suécia, onde trabalha com eventos corporativos na Hermes Group AB e com proteção ambiental, através da própria ONG, a Climate First, lutando, segundo ele, para minimizar os efeitos climáticos.

Conforme conta, desde à infância teve um contato muito próximo com a natureza. “Quem nasce em Arroio do Tigre já nasce com a natureza. Tive uma infância muito conectada a ela, tomando banho de rio, fazendo aventura nas florestas. Acho que o meu interesse por este assunto vem daí. Retornou com mais força quando tive maior contato com a transformação que está ocorrendo no mundo, relacionada às mudanças climáticas. Se tornou ainda mais importante preservar e conviver com a natureza – e não destruí-la”, ressaltou.

Casado com a sueca Anna e pai de Julia, de 11 anos, e Amanda, 6 anos, Vianei destaca que costumavam viajar anualmente, para rever a família brasileira. “Nós íamos todos os anos ao Brasil, mas agora com o coronavírus estamos devendo. Moramos em Santa Cruz do Sul por 7 meses, em 2016. Minha filha mais velha e minha esposa aprenderam português aí. Em janeiro do próximo ano pretendemos fazer isso novamente, permanecer de seis meses a um ano no Brasil”, revelou.

O relato a seguir é a descrição de momentos vividos na viagem mais recente, realizada entre 21 e 25 de julho. O destino escolhido por Hermes foi a Lapônia sueca, distante mais de 1,3 mil quilômetros de onde reside atualmente e a, aproximadamente, 12,3 mil quilômetros de Sobradinho, no Brasil.

Uma das belas paisagens da aventura pela Lapônia sueca

*Por Vianei Hermes

A Lapônia é uma região no norte dos países escandinavos. Um lugar pouco povoado e conhecido pelas suas riquezas naturais. A região é muito visitada no verão por turistas interessados em vivenciar o sol da meia-noite (são 24 horas de claridade). Já no inverno, o oposto ocorre. Entre os meses de novembro e março é possivel vizualizar o fenômeno da aurora boreal.

O aeroporto mais próximo fica na cidade de Kiruna. Uma cidade famosa pelas minas de ferro. Há mais de um século, o minério de ferro é extraído e exportado para o mundo todo. Kiruna virou notícia internacional, pois o centro está sendo deslocado para outra parte da cidade. Casas inteiras são transportadas vários quilômetros. Isso em função do risco de desabamento que existe devido às escavações para extração do minério. A gruta tem mais de 1,4 quilômetros de profundidade e é a maior gruta subterrânea do mundo. O maior desafio? Transportar a igreja intacta.

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Uma das áreas mais interessantes da Lapônia sueca é o parque nacional de Abisko, localizado próximo à fronteira com a Noruega. Esse é o destino da maioria dos aventureiros que caminham por dias nas diversas trilhas dentro e fora do parque. São cerca de 7,7 mil hectares de área protegida. Para proteger a natureza, várias regras devem ser observadas. Não existem lixeiras. Todo o lixo deve ser transportado por cada um. Não é permitido pescar ou caçar. É permitido acampar e fazer fogo em áreas designadas. A água é fria, abundante e potável. Um dos poucos lugares no mundo onde é possível tomar banho de rio e tomar água ao mesmo tempo.

Na Súecia existe uma lei que permite a todos ter acesso à natureza, seja em terra privada ou não. É permitido acessar, coletar os frutos da floresta e até acampar por uma noite. Essa lei chama-se allemansrätten (direito de todo homem). Na maior parte do território do parque, não há sinal de telefone, uma ótima oportunidade para desintoxicação digital, um dos objetivos da minha viagem. Viver alguns dias sem compromissos, sem hora marcada, sem notícias ruins e sem o coronavírus.

Minha viagem começou em Estocolmo. O trem da noite sai todas a tardes de Estocolmo para chegar às 11 horas do outro dia em Abisko. O trem possui restaurante e cabines para dormir. São seis camas por cabine. Nossa viagem foi interrompida por um pequeno acidente: a colisão com um pássaro que atrasou a viagem em quatro horas. Mas assim que cheguei em Abisko, peguei a trilha.

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Minha primeira parada foi em uma área designada para acampar dentro do parque. Coloquei a minha tenda/barraca e preparei a janta. Assim como muitos aventureiros, usei um kit de comida desidratada e seca. Basta adicionar água quente e esperar oito minutos.

No outro dia, acordei cedo para continuar a caminhada. Já na partida, estava em busca do “ouro da Lapônia”, uma frutinha de cor amarelada, rica em vitamina C e que cresce apenas nos banhados. Chama-se hjortron, em sueco. Saí várias vezes da trilha para ver se encontrava. No final da tarde, quando estava me aproximando da próxima estação de turismo dentro do parque, tive a felicidade de encontrar uma área com hjortron. Coletei os que estavam maduros para comer no próximo café da manhã.

Hjortron, a frutinha “ouro da Lapônia”

Ainda durante a tarde do segundo dia, sempre seguindo rio acima, cheguei ao final do parque. A partir dali, era permitido a pesca. Seria um sonho pescar um salmão selvagem ou uma truta. Assar na hora e garantir o jantar. Mas a falta de equipamento e paciência impediram esse objetivo. Segui viagem por mais cinco quilômetros e acampei para passar a noite. Depois de 20 quilômetros percorridos e uma mochila de 20 quilos, estava exausto. Ali encontrei com dois jovens italianos. Estavam também no segundo dia de viagem. Iriam percorrer a trilha toda: 430 quilômetros em 30 dias. Na trilha, também encontrei com várias pessoas que estavam percorrendo 90 quilômetros até a montanha mais alta da Suécia: Kebnekaise. Durante a noite, a temperatura caiu muito e passei até frio. Imagino que tenha caído para algo em torno de 2 a 4 graus.

No dia seguinte, comecei o retorno por outra parte da trilha. Ainda antes de retornar ao parque, passei pela casa de um morador local. Ali tinha uma venda de produtos artesanais, comida seca e equipamento para acampar. Lá morava uma família de “Sámi”, a população local indígena do norte da Suécia. Minha compra foi única e inesquecível. Carne seca de urso. Preço? R$ 720,00 o quilo. Comprei um pedacinho de 150 gramas embalado a vácuo.

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20 quilômetros pela frente até o alojamento do início do parque. Muito tempo para refletir e observar a natureza. A parte mais interessante de passar dias sozinho na natureza é que você desenvolve um diálogo com você mesmo. No terceiro dia esse diálogo era em voz alta!

Hermes em meio ao parque nacional de Abisko

O passeio não seria completo sem um banho gelado. A água do rio era água de gelo recém derretido. Imagino que tinha uma temperatura em torno de 3 graus. Um respiro fundo e um banho de 20 segundos. Mas valeu a pena.
À tardinha, cheguei de volta ao alojamento principal de Abisko, “a estação de turismo”. Decidi por uma cama no alojamento (um quarto com seis camas), ali também iriam dormir uma senhora de 82 anos e sua filha. Lúcida e energética, estava se preparando para uma caminhada no dia seguinte, uma trilha mais curta, é claro. No último dia, decidi ficar próximo ao alojamento, estava me preparando para voltar até Kiruna e voar para Estocolmo.

Em resumo, uma experiência única. Aproximar-se da natureza é a melhor forma de aprender a respeitá-la. A forma como me senti, confirmou o que já sabia: o ser humano foi feito para viver próximo e em harmonia com a natureza.

Vianei Hermes

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