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RICARDO DÜREN

Ágatha e os polvos

Nos últimos dias, tenho refletido sobre o sentido desta coluna. Por força dos pedidos insistentes de incontáveis leitores, fãs das peripécias da nossa caçula Ágatha e dos irmãos dela, esta se tornou uma coluna de assuntos amenos e engraçados, de histórias da infância, de causos de família. Confesso que, embora encantado com a magia de ser pai de quatro filhos, esses temas leves destoam da minha tradição como ex-repórter policial, editor de notícias e autor de livros sobre mistérios e crimes, caso do Assassinato na Real Biblioteca (2013), do Crônica policial (2020) e de O homem da sepultura com capacete (2020).

E destoam, particularmente, do atual momento de crise que vivemos, com um vírus que lota UTIs, testa os nervos de médicos e enfermeiros, corrói a economia do País e sufoca vidas e sonhos de uma forma assombrosa. Esse é, indiscutivelmente, o assunto primordial do momento. É preciso, sim, escrever sobre a Covid e relembrar a todo momento das regras básicas de cuidado e higiene – máscara, álcool gel, distanciamento… É preciso bater nessa tecla para incutir um mínimo de bom senso em quem, numa demonstração de total ausência de empatia com o próximo, ou de ignorância ante o que a ciência corrobora, insiste em fazer festas e outras aglomerações.

E então, em meio as minhas reflexões, escutei um áudio enfurecido que uma senhora remeteu à nossa redação esta semana. Na gravação, temperada com expressões de baixo nível, exigia que nós, jornalistas, parássemos de falar da Covid e de “contar mortos”. Argumentou que deveríamos só “postar” coisas boas e amenas, para que as pessoas se sentissem melhor.

Compreendo a angústia dela. Mas alerto que, assim como ela, nós, jornalistas, também estamos cansados, assustados e infelizes diante dessa crise. Somos humanos, temos família, pessoas que amamos e que não queremos perder. Não sentimos prazer algum em dar notícias sobre mortes e UTIs lotadas. Se o fazemos é porque os números estão aí, divulgados pelas autoridades de saúde, e não temos o direito de negligenciá-los. Não adianta fazer de conta que essa triste realidade não existe. Não é tapando o sol com a peneira que venceremos a pandemia.

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Contudo, a manifestação dessa senhora me mostrou que há, de fato, uma demanda também por assuntos mais leves. Creio que a Gazeta e o Portal Gaz atendem a essa necessidade, dado que trazem cotidianamente várias notícias sobre outros assuntos, além da Covid, muitas delas com finais felizes. E trazem também, aos fins de semana, esta coluna. Continuarei, portanto, escrevendo sobre amenidades por tempo indeterminado. E, dito isso, segue, enfim, mais um causo da nossa caçula, Ágatha.

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O fim das férias, com a volta das aulas online e das lições de casa, também gera uma redução no índice de traquinagens da caçula, que agora tem ocupações importantes para preencher o tempo. O ócio provocado pelas férias em meio ao confinamento vinha causando-me prejuízos, a começar por um sério desfalque na gaveta de meias.

Tudo começou com uma ideia que, na verdade, partiu da Yasmin, irmã um ano mais velha que a Ágatha: uma engenhoca que batizou de “máquina de bolhas”. A montagem do apetrecho é simples. Basta cortar uma garrafa pet ao meio e acomodar, na abertura que formou-se no lado oposto ao gargalo, uma meia – por alguns chamada de carpim –, de maneira que o tecido cubra todo o buraco. Depois, é só mergulhar a “máquina” em uma infusão de água com sabão em pó e assoprar pelo gargalho… e então, saem bolhas!

Fiquei impressionado com a beleza das bolhas, a refletir o sol do fim da tarde, e com a engenhosidade das marotas. Até constatar que a meia, na engenhoca, era minha. Mas logo percebi que haviam catado um carpim surrado, que eu ainda usava para acomodar os pés nas botas Sete Léguas, parceiras das lidas no jardim. Por sorte, uma meia velha e, segundo minha esposa, socialmente inadequada para sair ao trabalho – ainda que eu o faça com sapatos escondendo as meias.

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Contudo, não parou por aí. Animada com as possibilidades engenhosas que as meias proporcionam, Ágatha decidiu usá-las para criar bonecos de polvos. Para tanto, recheou meias com bolas de papel, a fim de formar a cabeça das criaturas, adornadas com olhos pintados com hidrocor. Após dar um nó sob a cabeça, deu forma aos tentáculos, cortando, com a tesoura escolar, a “boca” das meias em tiras.

Quando me mostrou o primeiro polvo, achei-o muito bonito e elogiei a marota pela criatividade – uma vez tendo constatado que o boneco fora produzido com o outro par do carpim usado na máquina de bolhas. Ainda perguntei se era um polvo perigoso, se enroscava os tentáculos na presa ou soltava tinta ao perceber um predador.

– Nãoooo, pai – respondeu-me. – Ele luta com jutsus – e mostrou-me como o polvo desferia golpes de arte marcial com os tentáculos.

Mas, no instante seguinte, fez-me uma revelação:

– Pai, ele tem uma família…

– Família?

– Uma família de polvos!

Então dei-me conta de que, antes do inverno chegar, terei de repor o estoque de meias.

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