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LUÍS FERNANDO FERREIRA

Alguém tem que resistir

Há duas semanas, ao escrever sobre o Dia da Consciência Negra neste espaço, citei o livro O avesso da pele, do gaúcho Jeferson Tenório, como uma importante obra literária para discutir o racismo no Brasil de hoje. E foi com satisfação que vi, na quinta-feira passada, Tenório ser premiado com o Jabuti – o mais relevante troféu anual da literatura brasileira – de melhor romance, justamente por esse trabalho.

Mas a abrangência de O avesso da pele vai além da discussão étnica. Também é com extrema sensibilidade que o autor expõe o cenário da educação pública, sob o ponto de vista de um professor negro de 52 anos, com duas décadas de magistério e todo o desencanto sedimentado ao longo desse tempo. A educação, como sabemos, é o grande mantra nacional, a solução de todos os problemas de hoje e amanhã. Ela está sempre na ponta da língua de políticos profissionais e amadores, formadores e deformadores de opinião, especialistas em generalidades e visionários do óbvio. E, como é de praxe no Brasil, tudo que soa pomposo nos discursos termina sucateado na realidade: escolas sem infraestrutura à espera de melhorias prometidas há anos, professores pouco valorizados e desprezados, evasão escolar (agora agravada pela pandemia), essas coisas.

“Anos e anos acreditando que você estava fazendo algo de significativo, mas vieram outros anos e anos e soterraram suas expectativas. A precariedade da escola venceu e você estava cansado”, desabafa o personagem. Afinal, ele nunca se sentira como um daqueles professores dos filmes norte-americanos, sempre capazes de virar o jogo em qualquer ambiente hostil.

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Mas nada dura para sempre, nem a melancolia. Certa noite, ele se surpreenderá com a própria capacidade de fazer uma de suas turmas, alheia e distante, empolgar-se com a leitura de Crime e castigo, de Dostoiévski. A paixão de ensinar retorna, e ele agora planeja levar aos jovens alunos Kafka, Virginia Woolf, Toni Morrison… “Depois daquela noite, tudo era possível.” Não contarei como a história acaba. Nem importa. Importa saber isto: o jogo não está encerrado antes do último segundo, desistir está fora de questão e “mesmo que o barco afunde, alguém tem que resistir”.

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