Nesta segunda-feira, 11, começa a contagem regressiva de exato um mês para o início da Copa do Mundo de Futebol de 2026. Mas na próxima sexta-feira, 15, chegará às livrarias um livro que convida a entrar no clima do evento. A obra em questão, Futebol Lado B, é o novo projeto do jornalista Ariel Palacios, um dos principais nomes do telejornalismo na América Latina, figura conhecida dos espectadores em especial na GloboNews, para a qual reporta informações de Buenos Aires, onde é correspondente desde 1996. Com 312 páginas, o volume chega pela Globo Livros, ao valor de R$ 74,90. Ariel participará de roteiro de eventos com sessão de autógrafos em quatro cidades no Brasil, como antecipa em entrevista exclusiva para a Gazeta do Sul, concedida por WhatsApp.
O roteiro começará por Londrina, no Paraná. Pela simples razão de que lá cresceu e fez sua graduação em Jornalismo, na Universidade Estadual de Londrina, e é torcedor do principal clube da cidade. Com 59 anos (faz 60 no dia 23), Ariel nasceu em Buenos Aires, mas tem também cidadania brasileira, uma vez que a família residiu em diferentes lugares no País.

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A nova obra afigura-se uma espécie de segundo tempo em relação a seu livro anterior, América Latina Lado B. Se neste Ariel colecionava uma impressionante série de casos e de situações inusitadas, estarrecedoras dos bastidores (ou, ao contrário, do centro do palco) das instâncias do poder no continente, agora se ocupa do pitoresco que envolveu o futebol, dentro e fora das quatro linhas, dentro e fora das arenas e dos estádios, em realidade global.
Nesta entrevista, concedida na reta final de abril, mas com conversas mantidas desde janeiro, ele comenta como surgiu seu interesse em torno do esporte e avalia o cenário geopolítico, social, cultural e econômico atual.
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Entrevista – Ariel Palacios, jornalista e escritor
- Gazeta do Sul – Estás com novo livro, Futebol Lado B, sendo lançado. Como foi o processo de seleção do material e ao longo de quanto tempo te dedicaste a ele?
Ariel Palacios – Há muitos anos colaboro e faço participações no programa Redação SporTV, do canal SporTV. Ali sempre tento dar um viés diferente às entradas, não ficar só naquela coisa estatística ou factual de um jogo de futebol em si, ou as expectativas, as repercussões. Mas tento ver algo, um viés diferente, se possível um viés novo ou uma forma diversa de encarar o assunto.
Então, fui produzindo, ao longo de anos esses textos para o SporTV. Por exemplo: se era o Dia Internacional do Livro, o dia de morte de Shakespeare, ou alguma coisa assim, fazia entrada falando sobre onde o futebol aparece nas obras de Shakespeare, por exemplo. Ou se é uma guerra na Ucrânia, com jogos cancelados, recordar o famoso “jogo da morte”, durante a Segunda Guerra Mundial, quando os alemães forçaram um time ucraniano a jogar contra um grupo de jogadores nazistas. Depois desse jogo, que os ucranianos venceram, os jogadores foram quase todos torturados e fuzilados.
Sempre tentava buscar algo diferente. Posteriormente, me veio a ideia: por que não juntar todo esse material e buscar mais coisas interessantes, diferentes, e fazer um livro, o Lado B do futebol, na linha do América Latina Lado B, que também me inspirou nisso. Por exemplo: o Papa Francisco, que era um papa futebolístico, e o futebol, na realidade, é de um advento recente na história do cristianismo.
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Em 2 mil anos de cristianismo, o futebol tem 180 anos, uma porcentagem pequena. Logo, evidentemente, seriam poucos os papas que conviveram com futebol. E, desses poucos papas que conviveram com futebol, apenas três tinham uma característica de certo interesse nesse esporte, caso do Francisco. Que, inclusive, organizava campeonatos de futebol. Fui juntando ideias e material; fui vendo outras coisas para explicar esse lado sociológico, antropológico, cultural, bizarro, sui generis do futebol.
- És correspondente internacional e analista da atualidade na política, na economia. Como o futebol se fixou entre teus interesses?
Bom, quando eu tinha nove anos de idade, vi o Estádio do Café sendo construído em Londrina, e aí o futebol começou a me interessar. E é curioso porque, ao ser criado numa cidade onde existe um time de futebol, há toda uma conexão diferente com esse time.
Bom, todas as cidades possuem algum time de futebol, mas o que eu lamento é que muitas vezes as pessoas acabam torcendo por times de outras cidades onde nunca moraram e que não têm conexão alguma com elas. Sei lá, um cara que nasce em São José do Iporanga, interior de… Acabei de inventar essa cidade, de qualquer estado, torce por times das grandes cidades, de São Paulo, do Rio de Janeiro. E qual é o sentido disso?
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Eu tenho uma conexão muito forte com Londrina, e o time de lá é o Londrina Esporte Clube. Dali é que o futebol surge para mim. Mas nunca havia trabalhado no jornalismo escrevendo sobre o futebol, até que, como correspondente, vim para Buenos Aires. Entre várias atividades do correspondente, política, economia, cultura, há também os esportes, e ali o futebol entrava.
- Como é tua rotina de trabalho na atualidade e como tende a ser a agenda de lançamentos de teu livro? Em relação à Copa, estarás envolvido na cobertura?
Sim, vou estar ali com todo o material sobre isso na cobertura da Copa, na GloboNews, também no SporTV. Já estou fazendo uma coluna na CBN sobre peculiaridades, assuntos diferentes, o Lado B da Copa, duas vezes por semana. E a ideia é justamente ir aumentando isso conforme vamos nos aproximando da competição, e depois durante a própria Copa, dependendo de como ela vai avançar, de qual vai ser o caminho e quais serão as seleções que estarão despontando para chegar na final. Nesse aspecto, o meu trabalho da Copa em si será esse.
Já pela agenda de trabalho de lançamento do livro, chego no Brasil no dia 17, e fico até o dia 30. Ou seja, estarei por quase duas semanas envolvido em lançamentos, em Londrina, em São Paulo, em Brasília e no Rio de Janeiro. Londrina talvez chame a atenção ou a curiosidade de alguns: mas é porque cresci lá e, como já mencionei, torço para o Londrina Esporte Clube. Por isso é que tem esse pit stop lá para iniciar o tour de lançamento.
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- A obra chega na véspera de mais uma Copa. Pelo cenário de confusão que cerca o período que antecede o evento, já haveria mais material para ser acrescido ao livro, não é? E nem começou!
Sem dúvida! Uma pena que o livro já tinha até entrado em processo de impressão quando surgiu toda essa confusão, Estados Unidos, Irã e Itália, quando esse representante especial do Trump para os esportes, o Paolo Zampolli, propôs que o Irã fosse oficialmente removido e em seu lugar fosse colocada a Itália. Essa é uma situação totalmente absurda; é uma pena que não deu tempo de colocar isso… Bom, olha só: a Copa ainda não começou. Com certeza, muito mais coisa vai acontecer até a Copa se iniciar.
- Com tua experiência, intuis que o mundo hoje tende a sofrer rupturas para a história? Como vês ou lês o cenário?
Sim, é muito difícil calcular ou prever algo para política e economia, levando em conta os comportamentos totalmente inesperados por parte das lideranças, seja nos governos, seja nas oposições. É um grande mistério qual será o caminho do planeta e levamos em conta também outro fator: os imbróglios, o descalabro climático global. Então, é muito difícil prever alguma coisa hoje em dia; é necessário aprender a navegar nessa incerteza. Os diplomatas terão um trabalho enlouquecido nas próximas décadas.
- A que a humanidade pode ou deve se aferrar para ter algum tipo de esperança de dias melhores?
Eu sou muito cético e o cenário não é nada estimulante. Geralmente não nasce esperança de ideias que sejam grandiosas. Nasce de questões como de mecanismos, de atitudes políticas que se repetem com frequência, e isso é que produz uns cenários sólidos para o futuro. Neste momento, não há nada do gênero.
Essa ascensão dos grupos extremistas assusta muito. Isso faz com que posições moderadas comecem a se diluir, a desaparecer. E isso cem anos atrás acabou levando à Segunda Guerra Mundial. É um cenário bastante complexo. Por um lado, sim, a ciência avança, e isso é muito bom, isso é espetacular, especialmente na área médica; mas, ao mesmo tempo, há grupos que são negacionistas da ciência.
Isso também é um passo para trás: o surgimento de fanáticos religiosos que pensam tal e qual na Idade Média, o que também é algo assustador, e o desmoronamento ou torpedeamento de organizações internacionais que visavam ter uma espécie de cooperação conjunta. Muitos governos extremistas torpedeiam essas organizações hoje em dia, e a humanidade vai ficando sem essas entidades.
São entidades multilaterais, que podem fazer negociações, e você tem políticas sólidas, feitas de forma concreta, passo a passo. Às vezes até erram, ou dá errado, mas sempre dá para consertar. O o problema é quando você não tem entidades assim. E não é um momento exatamente atual de lideranças internacionais de que você diga “uau, que lideranças iluminadas e civilizadas ou com grandes mentalidades”. Não, é uma época com um déficit dessas lideranças de forma assustadora. Existem lideranças pontuais, pequenas, localizadas, mas nenhuma delas, desses civilizados, tem influência global no momento, infelizmente.
- Por sinal, o cenário mundial está de um jeito que qualquer afirmação não dura nem até o dia seguinte, não concordas? O que te inspira a governança global na atualidade?
Exato, não há nenhuma afirmação, não dá para bater o martelo em nada. A instabilidade, a incerteza predominam. Por exemplo: a situação no Peru, em que, semanas depois de feita a eleição presidencial, ainda não se sabia qual o segundo colocado que irá disputar contra Keiko Fujimori no segundo turno marcado para junho. Oscilou muito, mas oscilou de 14 a 20 e poucos mil votos.
E a incerteza que prevalece no comando da maior potência do mundo, os Estados Unidos: uma figura como Donald Trump, que também é totalmente imprevisível. Todos os livros de diplomacia estão tendo que ser reescritos, porque Trump também está gerando uma série de pessoas inspiradas nele, que, com certeza, vão se comportar da mesma forma tresloucada que ele. Não é possível prever cenários mundiais a curto, médio e longo prazos.
Por um lado, é verdade que o governo Trump termina dentro de pouco mais de dois anos e supostamente, pela lei americana, ele não poderia ser candidato à reeleição. Mas surgirá alguém das filas de Trump para disputar a sucessão que seja mais ou menos nesse mesmo estilo, totalmente inesperado, imprevisível? Boa pergunta! Esse que é o grande mistério hoje em dia.
- Um modelo de esquerda está claudicante na Venezuela e em Cuba, entre outros. Já a direita extremista foi derrotada na Hungria, com Viktor Orbán, recentemente. Há um cansaço com os excessos?
Não, infelizmente não. A gente está vendo como a esquerda na Venezuela continua no poder. É uma esquerda esquisita também, isso é verdade. Não é esquerda europeia ou esquerda padrão, que teria de ser progressista, a favor do casamento de pessoas do mesmo gênero, a favor da legalização do aborto.
Isso na Venezuela não acontece de jeito nenhum. Eles tinham maioria total para fazer isso; nunca fizeram. E agora o regime de Delcy Rodrígues, que está tomando uma série de ativos do chavismo, com o mesmo pessoal… Toda a estrutura, com algumas pequenas exceções, continua no poder, mas agora fazendo o jogo totalmente da direita, de Donald Trump.
A grande pergunta é: os simpatizantes do chavismo continuam enxergando o chavismo como um movimento de esquerda, ou já caiu a ficha? Essa que é a pergunta. No caso do (Viktor) Orbán, na Hungria, acho que é uma derrota pontual, não acho que é início de uma derrota de pessoas da extrema-direita no mundo. Acho que não, pelo menos. Na América Latina, a extrema-direita está aumentando sua influência e chegando ao poder.
E tem-se até o caso de presidentes de esquerda, como a Xiomara Castro, em Honduras, que ainda no finalzinho do governo tomou medidas inspiradas em Nayib Bukele, presidente de El Salvador, em matéria de penitenciárias. Ou seja, alguns setores da esquerda latino-americana até estão se inspirando na extrema -direita latino-americana, o que é bastante paradoxal.
Infelizmente, há uma espécie de poder de sedução que os populistas extremistas, tanto da esquerda como da direita, possuem, e que faz com que eles caiam nas graças dos eleitores na América Latina.
- Que espaço há ou haverá, pela tua avaliação, para o Brasil e para a América Latina nessa nova ordem mundial que se estabelece?
Boa pergunta. A América Latina havia ficado dentro do interesse dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, com o seu lado bom e seu lado ruim durante muitas décadas. Mas quando a Guerra Fria acabou, a América Latina deixou de gerar interesse, e ficou totalmente abandonada.
A China aproveitou a situação para ir ampliando sua presença na região, coisa a que agora Trump prestou atenção. E reagiu para contrapor-se à presença da influência chinesa na região. Só que, claro, interferindo de uma forma absurda, ameaçando o México, a Colômbia e tantos outros. Cuba e Venezuela também, e tantos outros países. Com isso, a América Latina, de novo, está no foco dos Estados Unidos, mas de uma forma muito complicada.
O Brasil havia despontado no início do século, lá por 2002, 2003, como a liderança na América Latina, e foi isso na primeira década do século. Depois começou ou a se desinteressar, ou a agir sem a mesma agilidade, e o país perdeu a chance de liderar a região.
Hoje em dia, não há uma liderança brasileira. Esperava-se que houvesse uma liderança brasileira de novo; os países da região requeriam isso, mas o Brasil não se mexeu. E aí foram surgindo figuras que nunca poderiam constituir uma liderança regional, porque seus países não têm esse mesmo peso, mas desejam ter, como o Milei, por exemplo, ou o próprio Castro, do Chile. Mas são figuras que podem despontar como líderes parciais regionais, nunca como lideranças totais da região.
O Brasil perdeu o bonde de liderar a região. Deveria ter se colocado mais firme, por exemplo, contra a Venezuela, quando houve a fraude nas eleições. Deveria ter tomado atitudes como tomava no início do século, mas agora não. Então, acho que o Brasil perdeu bastante da capacidade diplomática que tinha no início do século, e agora vamos ver se poderá retomar ou não.
Essas coisas também são muito pessoais. Às vezes surge uma pessoa adequada para fazer isso e o Brasil acaba recuperando o espaço. Esperemos que sim.Mas vamos ver. Por enquanto, não há nenhum sinal de que isso vá acontecer.
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