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RICARDO DÜREN

Aventuras na colônia

Para muitos, as férias são um período de exercícios intensos, de recuperar o atraso nas atividades físicas que, por falta de tempo, acabam negligenciadas no resto do ano. Esses corajosos têm enfrentado o calor sufocante dos últimos dias às voltas com caminhadas, corridas, ciclismo… Haja fôlego.

Quanto a mim, tenho dedicado as férias a um exercício de outra ordem, talvez bem menos desgastante nestas tardes abrasivas: o exercício da escuta. De certa maneira, é também uma forma de recuperar o atraso, de colocar em dia, principalmente com as crianças lá de casa, tantos assuntos adiados no corre-corre do ano que passou. E as gurias, que não são bobas, têm aproveitando essa oportunidade repentina para tagarelar sobre tudo.

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Outro dia as três passaram a falar das suas aventuras na colônia, durante as visitas à propriedade do saudoso bisa, em Rio Pardinho. Então lembraram do tumulto que provocavam no galinheiro, durante as caçadas aos ovos. Bastava uma galinha cacarejar, supostamente anunciando a chegada de um potencial rebento, para que as marotas se precipitassem em desabalada carreira ao galinheiro, causando um revoar de aves e penas, para revistar os ninhos em busca do prêmio.

Porém, uma vez encontrado o ovo, sempre ficava uma dúvida:

– Como saber se aquele ovo poderia ir para a frigideira, sem ter certeza de que não havia um pintinho nele? – comentou Yasmin.

Para sanar essa dúvida, Ágatha desenvolveu uma teoria que mantém até hoje – ainda que possa soar desacertada, na ótica dos entendidos nas coisas do campo.

– É preciso verificar se a galinha que colocou o ovo está ou não acompanhada de um galo – explicou. – Se estiver, é porque são casados e estão formando família. Então, certamente será um ovo com pintinho.

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As gurias então lembraram da algazarra que faziam na hora de alimentar os porcos. Era uma festa – para elas e para os porcos. Primeiro, as traquinas assaltavam o paiol de milho, de onde saíam com as mãos carregadas. Depois, davam início a um bombardeio de espigas sobre o chiqueiro, até que os suínos desistissem, rendidos, de tanto comer.

– Aposto que os porquinhos ficavam faceiros assim que percebiam nosso carro chegando na casa do bisa – comentou Ágatha. – Quando nos viam, até nos cumprimentavam, fazendo oinc, oinc, oinc…

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Outro relato foi de uma das muitas explorações pelo potreiro. Para as crianças, essas eram verdadeiras aventuras, repletas de perigos, dada a presença ameaçadora de vacas e bois com chifres imensos no ambiente – motivo pelo qual minha companhia era sempre requisitada para tais expedições. Isadora lembrou que certa feita passamos a ser seguidos por um boi enorme, o qual – nas palavras dela – tinha até um “piercing” em forma de argola no nariz.

– O pai tentou enxotá-lo, mas o boi não deu a mínima e continuou nos seguindo, com aquele rosto mal-encarado…
As gurias ainda hoje especulam sobre as razões do interesse daquele boi em nossa presença. Em meio a nossa conversa, fizeram um esforço para tentar lembrar se alguém estava vestindo vermelho naquela ocasião. Expliquei então que isso não faria diferença, dado que os ruminantes – diferentemente do que se acredita – não distinguem cores. A crença de que o vermelho irrita bois e touros deve-se tão somente à tradição do uso dessa cor nas touradas.
A explicação contribuiu para manter o mistério: o que o boi queria conosco? Isso, jamais saberemos.

O fato é que, naquela aventura, tal enigma nos forçou a bater em retirada. Conduzi minha tropa de pequenas expedicionárias pela pinguela, rumo a outra margem do arroio, enquanto o boi, sem ter como cruzar o córrego, ficou do outro lado, sozinho, encarando-nos com seus olhos sem expressão.

– O problema – recordou Ágatha – é que fomos obrigadas a dar uma baaaaiiita volta para retornar à casa do bisa por outro caminho… Mas não faz mal. Foi muuuiiiito divertido!

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