Estudar o turismo não é um exercício de catalogação de destinos, mas um mergulho na própria condição humana. Como numa atualização da premissa kantiana sobre os limites e as possibilidades do conhecimento, debruçar-se sobre o ato de viajar exige mapear até onde vai o nosso aparato cognitivo (e cultural) e onde começa a resistência da realidade.
O turismo, longe de merecer uma condenação por seus excessos, sobrevive como uma das raras oportunidades de fricção com o outro: o desejo de descoberta que, paradoxalmente, move economias inteiras. O impasse contemporâneo não reside na viagem em si, mas no filtro que interpomos entre os nossos olhos e o mundo.
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A autenticidade encenada
Desde os anos 1970, a pesquisa sociológica, com o conceito seminal de staged authenticity (autenticidade encenada), nos avisa que o mercado da hospitalidade opera na lógica do proscênio. Organiza-se o espaço turístico como peça teatral: quando as cortinas se abrem, moradores locais vestem máscaras, performam tradições e atendem exatamente ao que o figurino do imaginário estrangeiro exige. Afinal, o turista busca o “exótico”. O erro do viajante ingênuo, com o seu olhar já moldado pelas redes sociais, é esquecer que o palco se arma e se desarma; que aquela encenação é um setor econômico vital, e não a vida em seu estado natural.
Essa engrenagem gera um impacto profundo nas próprias comunidades locais, que se descaracterizam para cumprir as expectativas do mercado. É o fenômeno visível na Itália: em Veneza, a milenar tradição do vidro artístico acaba sufocada por miniaturas industriais importadas em larga escala, vendidas como legítimas para um público que busca um souvenir rápido. O mesmo ocorre na gastronomia, onde restaurantes não tradicionais se vendem como tais, criando “armadilhas para turistas” que pagam o dobro do preço por uma refeição de baixa qualidade.
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Uma das coisas de que me orgulho é que, morando há quase dois anos na Itália, aprendi a reconhecer tais armadilhas e desenvolvi o meu paladar. Lembro-me de que uma das primeiras coisas que meu companheiro me disse foi: “Não é porque você está na Itália que tudo é bom; você precisa aprender a diferenciar os sabores dos ingredientes, entender a construção das receitas e, principalmente, o ponto exato do macarrão”. E, realmente, abre-se um novo mundo quando ampliamos os nossos sentidos. Desenvolvemos um senso crítico próprio.
Nesse cenário, estabelece-se uma via de mão dupla negativa. De um lado, o cidadão local é estereotipado, enfrenta a inflação imobiliária e perde o direito de caminhar tranquilamente pela sua própria cidade, invadida por um fluxo desqualificado. Do outro, o visitante paga valores exorbitantes por produtos de qualidade inferior e se submete a filas intermináveis apenas para cumprir um checklist de pontos turísticos. Importa mais a foto no Instagram do que a oportunidade de se deixar transformar por uma verdadeira troca cultural.
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O “novo pitoresco” e a ditadura da instagramabilidade
Com a emergência das mídias digitais, essa dinâmica ganhou uma imensa escala. O que Daniel Penny diagnosticou na Boston Review como o “novo pitoresco” é a ditadura da instagramabilidade. Se no século XVIII William Gilpin definia o pitoresco como aquilo que “fica bem em pintura” ou algo meticulosamente construído para parecer espontâneo, como os jardins ingleses, hoje elegemos o mundo a partir do que é compartilhável. O gosto deixou de ser faculdade individual e íntima para se tornar uma produção social mediada por algoritmos.
Esse mecanismo cria uma multiplicação exponencial: o algoritmo detecta uma imagem de sucesso, entrega-a a milhões de telas e, de repente, todos querem ir para o mesmo lugar. O objetivo da viagem passa a ser a captura da selfie que serve de prova social de que você realmente esteve ali. Busca-se preencher checklist de pontos turísticos em uma corrida movida pela FOMO (Fear of Missing Out), um consumo voraz e superficial de paisagens estáticas que ignora o tempo exigido pela verdadeira experiência estética.
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O que quero dizer é que conhecer uma cidade vai muito além de um clique; exige tempo, observação e apreciação em um ritmo muito mais lento do que o das redes sociais. Exige sentar-se em um café e simplesmente observar o movimento das ruas acontecer. Exige visitar um museu para entender quais artistas estão ali e o que eles buscavam comunicar. Exige, no mínimo, pesquisar a história de um lugar antes de pisar nele.
Não pretendo ditar regras sobre o que você deve fazer na sua própria viagem, mas sim propor um convite: que você busque estar realmente presente, expandindo o seu conhecimento e a sua bagagem cultural no próximo destino.
Diante disso, vale a provocação: como você escolhe o destino da sua próxima viagem? É irônico pensar que, hoje, temos acesso a infinitas imagens com apenas um clique, mas isso não significa que a realidade corresponda à expectativa. O que você de fato aprendeu com o monumento, o lugar ou a paisagem que visitou? Absorveu história, cultura e arte, ou apenas tirou a foto?
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Efeito overtourism
As consequências são visíveis no desenho urbano e territorial. Locais hiperfotografados sofrem a fratura do overtourism, onde a pressão volumétrica destrói o equilíbrio invisível entre o território, o ambiente e a paisagem.
O coração do Louvre ilustra esse colapso: o museu adotou rígidos controles de acesso porque multidões atropelavam séculos de fragilidade estrutural para apontar os celulares para a Monalisa. Leonardo da Vinci nunca quis criar uma obra cênica ou extravagante; a Gioconda é discreta, silenciosa, misteriosa, pede tempo e reflexão.
O contraste entre a expectativa do espetáculo e a realidade da pintura gera a frustração do turista desatento, que sai dizendo não ter visto “nada de mais”, mas nem buscou entender a obra.
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