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Da terra e da gente

Caíram as máscaras

Caíram as máscaras, mas continua a cara de pau, por exemplo, para jogar lixo na rua, inclusive as próprias, que são o novo, visível e horrível componente da vergonhosa dispersão de resíduos pelo chão na terra que já foi da limpeza e na sujeira, onde o vilão já não é mais e apenas o famigerado plástico.

Na verdade, não se tem mais vergonha na cara, que na realidade é artigo em falta há tempo, pois sempre se viu as caras desmascaradas da desfaçatez, da falsidade, da hipocrisia. Nem se fica mais vermelho nas faces, como já escrevia Nelson Rodrigues, em Engraçadinha, livro onde um personagem dizia que só confiava em quem ainda ruborizasse diante de situações delicadas.

De fato, não se deixa de dizer e fazer um monte de coisas no mínimo censuráveis, com a maior cara dura. Quando se trata de privilégios, por exemplo, ainda que injustificáveis sob os mais justos critérios, não falta, inclusive na própria Justiça, quem busque justificá-los sob os seus ângulos de interesse (há argumentos para tudo!).

A hipocrisia rola solta, com uma máscara invisível fazendo parte natural do organismo humano. Não se tem acanhamento em dizer e fazer algo aqui e outra coisa lá, ou vice-versa. A corrupção é condenada num lugar e aceita em outro pela mesma pessoa, quando interessa, e os escrúpulos foram para as cucuias. E não é só na política que isso se dá.

Ela é apenas a parte mais visível desse comportamento, que, é claro, deveria ser exemplar de sua parte, mas na realidade é apenas o espelho da sociedade, sem tirar nem pôr, e ainda serve de Judas para malhar e de Geni para apedrejar e, assim, aliviar as próprias culpas.

Caíram as máscaras, que tanto incomodaram a tanta gente, que, no entanto, tanto protegeram a tantos em tempo de tanto vírus solto, e para o qual tantos mantiveram os olhos tapados/mascarados, simplesmente porque não era visível, mas que atingia a tanta gente, acreditando-se ou não.

Caíram as máscaras, mas há quem heroicamente as preserve, consciente do seu valor protetor comprovado neste tempo de provações e cujo uso ainda é acertadamente exigido em ambientes de risco maior. Caíram as máscaras, que de modo bem gritante vêm sendo descartadas de qualquer jeito, desprezadas, jogadas às traças.

Mas não é de se estranhar que tais atos aconteçam em nosso mundo líquido, que com facilidade descarta as coisas e as próprias pessoas, um mundo líquido e descompromissado, de relações frágeis, de compromissos de ocasião e aproximações cada vez mais, e apenas, interesseiras.

No mundo pequeno onde circulo, acabei aderindo à queda da máscara, para o que já era cobrado há tempo por muitos importunados com o uso, mas que sempre defendi, pois não me incomodava tanto assim e me protegia muito, sim (nem o resfriado chegava perto). De qualquer forma, fiel às relações estabelecidas na vida, também não a descartei totalmente, carregando-a pelo menos no bolso, para o uso quando necessário, diante de situação de maior risco, pois proteção nunca fez mal a ninguém.

E se algum exemplar vai para o descarte, porque acabou sua vida útil, por certo isso não acontece de qualquer maneira, porém buscando o destino correto, no recipiente adequado, para o que tantos ainda estão tão cegos, com máscaras no lugar errado, nos olhos abertos, mas vedados por uma consciência ainda não desperta. Pois, ao se olhar para o chão, fica-se vermelho pelo que se vê, pelo desleixo com que ainda se trata a limpeza, a saúde, o ambiente, e com temor pelo futuro, pela educação que falta e teima em não se fazer presente.

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