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Chile: abalos sísmicos no solo e na soberania

Palácio La Moneda é a sede do governo chileno e virou uma referência histórica

Minha primeira passagem pelo Chile, em 1991, foi prazerosa e dramática ao mesmo tempo. O lado fascinante provinha da chegada ao Oceano Pacífico, em uma longa jornada que passou também por Bolívia, Peru e Argentina. O lado dramático era o fato de que meu dinheiro havia praticamente acabado. Após cruzar de norte a sul o desértico norte chileno, cheguei “liso” em Santiago.

Em uma estreita e longa faixa de terra, comprimida entre os Andes e o Oceano Pacífico, estão as montanhas mais altas das Américas, o deserto mais seco do mundo, mais de 500 vulcões ativos e geleiras que quase tocam a Antártica. Antes do tsunami cultural dos espanhóis atingir a costa do Pacífico, tribos dos bravos Mapuche pararam a expansão do império Inca por cinco séculos e, ao menos por algum tempo, resistiram às invasões ibéricas.

Paisagem das diversas regiões do Chile inclui deserto, geleiras e vulcões ativos

O entusiasmo dos “conquistadores” europeus pelo Chile era bem menor do que nos atuais territórios do Peru (ouro) e da Bolívia (prata). Mesmo assim, Pedro de Valdívia fundou Santiago, em 1541. O Chile declarou sua independência em 1810, liderado por um descendente de bascos e irlandeses chamado Bernardo O’Higgins.

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O país se estabilizou já a partir de 1841, obtendo vantagem significativa em relação aos vizinhos sul-americanos. O resultado foi um antecipado desenvolvimento em educação, infraestrutura, ferrovias e na política de imigração, que favoreceu a mineração e a atividade industrial. Os avanços ecoaram também na cultura de um país que já teve dois prêmios Nobel de Literatura – Gabriela Mistral e Pablo Neruda. 

Embora seja delgada no continente americano, a nação se estende até a Oceania, com a Ilha de Páscoa, e passando pelo mítico arquipélago de Juan Fernández, onde o naufrágio do escocês Alexander Selkirk inspirou Daniel Defoe a escrever as aventuras de Robinson Crusoé.

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Após a Segunda Guerra Mundial, o Chile se aliou aos Estados Unidos, o que favoreceu temporariamente o país, mas não o suficiente para satisfazer as necessidades do povo. Em 1970, Salvador Allende venceu as eleições presidenciais. O socialista fez importantes reformas, porém acabou sendo vítima da doutrina Monroe dos americanos, que, com o pretexto de combater o comunismo, visavam as vastas reservas minerais do Atacama, onde estão seis das dez maiores minas de cobre no planeta.

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O golpe militar de 1973 levou ao poder o ditador Augusto Pinochet, apoiado pela CIA. O parlamento foi dissolvido, os sindicatos foram proibidos e muitos opositores do governo desapareceram. Seguiram-se milhares de prisões políticas, tortura, exílio e morte patrocinados pelos militares. A redemocratização só aconteceu em 1990, um ano antes da minha primeira visita ao país.

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Magro de recursos, usei os últimos dólares na capital chilena para alugar um quarto na casa de uma senhora octogenária e para comprar a passagem de ônibus até Uruguaiana para o dia seguinte. Na longa viagem de 30 horas, já antecedida por um jejum forçado, apenas um açucarado sonho foi fornecido. Nas paradas para refeições, optava por não descer do ônibus para não ver as pessoas comendo. Embora tenha sido por pouco tempo, a tortura da fome deixou uma lição inesquecível.

Em 2025, o Chile elegeu José Antonio Kast, um admirador do ditador Pinochet. O eleito faz parte do movimento católico de Schoenstatt. Lamentavelmente, uma parte da imprensa caracterizou Schoenstatt como um grupo ultraconservador de extrema-direita. Um contrassenso para uma congregação cujo fundador (Josef Kentenich) sofreu as agruras do campo de concentração de Dachau ao ser preso pelo nazismo, este sim, de extrema-direita.

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Felizmente, o novo presidente chileno parece assumir uma posição mais equilibrada e moderada, ainda que seu alinhamento com Trump e Milei não seja promissor. Fico na torcida para que Kast se revele um conciliador democrata que não esqueceu os duros golpes autocráticos do passado chileno. 

A pujante capital Santiago, aos pés da Cordilheira dos Andes, cujas geleiras estão sempre visíveis no horizonte urbano

Em pleno século 21, a lei do mais forte volta a se naturalizar na geopolítica, com o fascismo e a prepotência retornando sem timidez à cena internacional. A eleição de um político alinhado a Trump no Chile mostra que a influência externa, às vezes, nem precisa de retaguarda militar.

Sobre lições não aprendidas, fica o alerta de Alexis de Tocqueville: “Quando o passado já não ilumina o futuro, o espírito caminha na escuridão.

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