Homicídio 24/03/2021 07h48 Atualizado às 15h01

Polícia indicia dono de fazenda por assassinato em Rio Pardo

Homem irá responder pelo homicídio de Murillo Santos após atirar nele e no avô, que estavam em barco com duas crianças

O trabalho investigativo da Polícia Civil esclareceu, em menos de um mês, o primeiro e até agora único homicídio ocorrido em Rio Pardo neste ano. Murillo Figueiredo dos Santos, de 23 anos, foi assassinado com um tiro de pistola calibre .380, pouco depois da meia-noite de 24 de fevereiro, enquanto andava de barco no Rio Jacuí junto do avô, de 62 anos; da irmã, de 9, e de um primo de 14 anos.

De acordo com o delegado titular da Delegacia de Polícia (DP) de Rio Pardo, Anderson Faturi, ficou esclarecido, mediante provas técnicas e testemunhais, que o autor do disparo que matou Murillo, e de outros dois tiros que atingiram o avô da vítima no braço e na perna, foi o dono da fazenda que fica nas proximidades de onde o barco estava, perto do balneário Porto das Mesas, em Rio Pardo.

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“Apuramos que o administrador dessa fazenda estava monitorando a movimentação de pessoas próximas ao Rio Jacuí utilizando um drone, com receio de que pudesse sofrer algum tipo de crime de furto abigeato em sua propriedade. Na ocasião, ele observou a movimentação junto da barranca do rio, próximo de onde fica sua propriedade, pegou seu veículo e alguns peões, foi até lá, junto de onde estava o barco e, utilizando uma pistola e uma espingarda, efetuou diversos disparos contra essa embarcação, atingindo a vítima e o seu avô”, explicou o delegado.


A própria família de Murillo encontrou em mata próxima uma cápsula de pistola calibre .380, compatível com a arma utilizada pelo indiciado. Segundo Faturi, embora a fazenda tenha sido alvo de abigeato no passado, há três anos não há mais registros de crimes do tipo no local.

O dono da fazenda foi indiciado por homicídio duplamente qualificado (com as qualificadora de motivo fútil e utilização de meio que impediu defesa pela vítima), tentativa de homicídio dos demais integrantes do barco e porte ilegal de arma de fogo. “Embora ele tenha registro para essas armas, não estava em sua propriedade com elas, mas sim às margens do rio, local que inclusive é de esfera federal”, explicou o delegado Anderson Faturi.

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Investigação não confirma legítima defesa

O corpo de Murillo foi encontrado por seu tio às 8h30 do dia 25 de fevereiro, no Rio Jacuí, cerca de 200 metros abaixo do balneário Porto das Mesas e a dois quilômetros de onde os disparos foram feitos. O cadáver tinha duas marcas de tiros na altura do abdômen.

“O laudo da necropsia indicou que a vítima foi morta com um tiro de pistola que atravessou seu corpo, entrando pela lateral esquerda e saindo pelo lado direito, fazendo-o cair na água, sendo encontrado em um momento posterior”, disse Faturi.

A DP de Rio Pardo apreendeu a espingarda calibre 12 e a pistola calibre .380 que foram utilizadas pelo autor do crime. Além da necropsia, do exame de sangue da vítima e das perícias nas armas, oito pessoas foram ouvidas como testemunhas para embasar o inquérito.

Em depoimento, o dono da fazenda, de 36 anos, alegou legítima defesa. Relatou que apenas teria atirado em virtude de antes ter sido alvo de um disparo efetuado pelos ocupantes da embarcação, versão que não foi confirmada pelos investigadores a partir das provas obtidas.

“Isso não encontrou respaldo algum no inquérito policial. Nenhuma das testemunhas ouvidas, seja as que estavam no barco, ou outras que presenciaram, comentaram o fato de ele ter apenas revidado um tiro inicial. Por isso, descartamos essa hipótese”, salientou o delegado.

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Embora a autoria tenha sido confirmada, o homem de 36 anos irá responder pelo crime em liberdade. “Não representamos pela prisão preventiva porque ele se apresentou à polícia, colocou-se à disposição para as investigações, e entregou as armas de fogo. Agora, essa análise ficará a critério do Ministério Público e do Poder Judiciário.”

Pós-Tentáculos

O único homicídio registrado em Rio Pardo nos quase três primeiros meses de 2021 revela o retorno a uma média baixa de crimes do tipo na Cidade Histórica. Em anos como 2017, 2018 e 2019, eram entre cinco e sete assassinatos. Em 2020, o número assustou as autoridades policiais; 21 homicídios foram confirmados em Rio Pardo, uma média que chegava perto de dois por mês. As mortes, quase sempre com requintes de crueldade, em sua maioria eram ligadas ao tráfico de drogas.

O fato motivou a megaoperação chamada de Tentáculos, que cumpriu 19 mandados de prisão na Cidade Histórica, em 10 de dezembro de 2020, a indivíduos ligados a uma facção criminosa, comandados por um homem de 40 anos que cumpre pena na Penitenciária Modulada de Ijuí.

Segundo o responsável pela DP de Rio Pardo, delegado Anderson Faturi, dos 21 homicídios do ano passado, apenas quatro ainda não foram concluídos. O restante está com autores identificados, indiciados e presos.

“Esse único homicídio de 2021 foge à esfera da grande maioria de 2020, pois não teve ligação com o crime organizado ou narcotráfico. Essa baixa da média, considerando os níveis de anos anteriores, mostra o trabalho da nossa equipe, bastante focada em cessar ou diminuir drasticamente a incidências dessas ações criminosas. Acredito que esse trabalho surtiu efeito”, comentou Faturi.

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