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OPINIÃO

Dejair Machado: “Muito além do álbum”

Foto: Rodrigo Assmann

Enquanto as atenções se voltam para os placares, as ruas ganham as cores da bandeira e os palpites se multiplicam, um fenômeno paralelo tem sido responsável, arrisco dizer, por um dos resultados mais positivos da Copa do Mundo até o momento. Pode parecer algo superficial, até com ares de brincadeira de criança, mas a troca de figurinhas adquiriu proporções impressionantes, capazes de alimentar uma pontinha de esperança na humanidade.

Em busca do cromo que falta para completar o álbum ou para reduzir a pilha de repetidos, adultos e crianças se encontram em shoppings, praças ou em qualquer outro local para fazer algo que parecia esquecido: negociar à moda antiga, no olho no olho. Tem quem opte pelos grupos de aplicativos para a operação, mas, mesmo assim, as pessoas voltaram a interagir umas com as outras. Prova disso é que estações para troca de figurinhas têm arrastado verdadeiras multidões, especialmente aos finais de semana.

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O diálogo começa meio tímido, mas logo avança para algo que dificilmente aconteceria em outro contexto.
– Você tem figurinha para trocar?
– Agora tenho estas. Quer olhar?

Dali em diante, a conversa se desenrola. Do bolso sai o celular com o app de gerenciamento ou uma folha de papel toda rabiscada com indicações das que ainda faltam para preencher a coleção de 980 imagens de jogadores ou escalações. Na sequência, vem uma história, um lamento ou uma dica de como atingir o objetivo. Do nada, alguém oferece um cromo para venda e o outro imediatamente pergunta para qual Pix pode efetuar a transferência. E o contato ganha corpo.

Pais e filhos se conectam, estranhos cedem espaço em suas mesas no shopping e parentes que não se viam há tempos combinam um reencontro. Uns, como eu, relembram o tempo em que eram crianças e como faziam na década de 1990 para preencher seus álbuns percorrendo armazéns.

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Sabemos que por trás de tudo isso existe um negócio cujo objetivo é vender um produto. É preciso atenção para evitar ciladas ou exageros, especialmente entre os mais novos. Também é necessário lidar com expectativas, frustrações e, acima de tudo, com o orçamento, porque o hobby pode sair caro.

Em uma época na qual as telas parecem sugar as atenções, a troca de figurinhas, tão despretensiosa, tem o poder de trazer benefícios, apontam especialistas. Abrir o envelope, conferir o conteúdo e buscar os espaços para colagem nas páginas estimula uma série de habilidades, desperta a memória, ajuda na organização e traz uma satisfação rara hoje em dia. E o fato de estimular a convivência social é, sem dúvidas, um dos maiores ganhos.

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Se a Seleção vai levantar a taça, não sabemos. Mas o que fica até o momento desta Copa do Mundo é o efeito multiplicador que os cromos foram capazes de gerar. E isso pode ser mais valioso do que qualquer título ou troféu.

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