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Dia do Professor: janelas abertas para o mundo

Foto: Rafaelly Machado

Agda Baracy Netto é professora há 15 anos

“Professor não deveria deixar de ser aluno. Esse lugar tão ímpar – o do estudante – faz com que pensemos por outros ângulos, variados pontos de vista. É disso que gosto e é o que me move.” É assim que Agda Baracy Netto define seu papel. Professora há 15 anos, ela sabe da importância do professor na vida dos alunos e do compromisso de acompanhar a evolução e mudanças pelas quais a carreira vem passando.

E para isso, mais do que preparar aulas e aplicar técnicas pedagógicas, é preciso estar atualizado. No caso de Agda, que ministra aulas de Língua Portuguesa para o 5º e o 9º ano e produção textual na 1ª série do Ensino Médio do Colégio Mauá, a inspiração veio de casa. Sua irmã Aida Baracy Klafke também é formada na mesma área e muito dedicada à educação.

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Formada em Letras – Português, Literaturas e Espanhol pela Unisc, ela participou de cursos, seminários, palestras e congressos e concluiu o mestrado em 2011. Toda essa bagagem trouxe reflexos positivos para a sala de aula, conta a professora que, em março deste ano, ingressou no doutorado, também na Unisc. Isso fez com que intensificasse a rotina de estudos e leituras. “Penso que nenhum aluno sai de uma aula sem levar nada com ele. Assim acontece comigo, a cada texto, a cada olhar e bagagem de um professor, algo fica em mim. Dessa relação tão especial, acontece o óbvio: de alguma maneira, o que permaneceu em mim vai adiante. Aí está o meu papel: professora que tenta abrir janelas – da sala, do olhar, do mundo”, define.

“É ser encantado: por olhares, por pessoas, por afetos, por conhecimento. O encanto nos faz sobreviver em meio a uma sociedade que precisa revisitar o simples: encantar-se!”

Agda Baracy Netto

A importância do olhar para ensinar e aprender

Uma das áreas mais impactadas pela pandemia foi a da educação. Com escolas fechadas, professores e famílias precisaram se adaptar. E em meio a todas essas transformações ocorridas de uma hora para outra, a professora Agda encontrou novas formas de trabalhar. A tela do computador, antes utilizada com moderação, passou a ser sua sala de aula, seu quadro, agenda. A escola estava, então, em uma tela. Mas o novo veio acompanhado da cooperação. “Com ajuda, com olhar carinhoso, estudo e atualizações, principalmente tecnológicas, foi possível a tão falada ‘reinvenção’. Porém, existe uma constatação: nada, absolutamente nada substitui o professor e o que ele traz em sua bagagem: conhecimento, afeto e a sua voz.”

Com a flexibilização das regras e retomada das atividades presenciais, hoje a experiência que fica diante de tudo vai além de aspectos técnicos. “A maior lição de todas é: fazemos a diferença com o olhar. É com ele – através dele – que o nosso ‘estar em sala’ se diferencia e transforma vidas. Quer lição mais bela que essa?”, reforça.

Este olhar, conforme a professora, é muito importante para o aluno. Mas também é preciso ter uma dose de coragem para seguir em frente ainda com a pandemia e aos poucos recomeçar. “Foram – e são – tempos difíceis, mas é preciso reagir: cada qual a sua maneira, no seu tempo, entretanto, com passos firmes para frente. Mais uma vez, estaremos aqui: professor e aluno, juntos nessa jornada”, afirma.

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Para fazer cada vez melhor

A opção pelo magistério veio cedo. Quando decidiu ir para o curso Normal em Sinimbu, Katiele Naiara Hirsch tinha 14 anos. Estimulada pelos pais, mesmo sem ter nenhum professor na família, a jovem já estava pensando no futuro. Na época, o objetivo era cursar Psicologia e ela acreditava que o curso proporcionaria mais experiências relacionadas a esta área.

Mas a vivência no decorrer do curso Normal fez Katiele tomar a decisão que mudaria sua vida. “Tive uma excelente professora de língua portuguesa. O incentivo dela, junto ao meu interesse crescente pela língua inglesa, fez com que, no momento de prestar o vestibular, Letras fosse minha primeira opção.”

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Passados dez anos, a professora Katiele não esconde a satisfação com a sua escolha. Atualmente ela integra o quadro do Colégio Mauá, atendendo alunos do 1º e 2º ano dos anos iniciais do Ensino Fundamental e ainda atua com língua inglesa, dentro da proposta de currículo bilíngue da instituição. O trabalho com crianças, oportunidade relativamente recente, foi uma experiência e um estímulo. Por vários anos, Katiele trabalhou exclusivamente com adolescentes e adultos, tanto na educação básica quanto no ensino superior e em cursos livres.

Estar em sala de aula trouxe também a necessidade de se manter atualizada. Afinal, como diz a professora, a sociedade passa por mudanças frequentes e a escola precisa lidar com isso. “As necessidades dos indivíduos atendidos pelas instituições de ensino mudam, e a maneira como o ensino e aprendizagem ocorrem precisa ser adaptada, sem falar na escolha do que deve ser ensinado”, salienta. Da mesma forma, participar de cursos oferecidos pelas escolas é um estímulo para ela e os demais colegas seguirem em frente. Sem nunca faltar a leitura nesse caminho.

Para seguir o ritmo das transformações e avanços na área educacional, bem como o objetivo de qualificar seu trabalho, Katiele iniciou um curso de especialização em Educação Bilíngue e Cognição. “Ser aluna formalmente mais uma vez, depois de alguns anos sendo exclusivamente professora, tem sido um exercício interessante.”

Passados dez anos, a professora Katiele não esconde a satisfação com a sua escolha | Foto: Alencar da Rosa

Nada substitui o profissional

No contexto da pandemia, a atuação dos professores também foi de significativas mudanças. Do modo essencialmente presencial, foi preciso trabalhar de forma remota e híbrida com o uso de recursos que até então não eram tão presentes no cotidiano escolar. Para Katiele, como tantos outros educadores, de um dia para o outro foi necessário encontrar uma alternativa para seguir desempenhando o trabalho adotando novas ferramentas e tecnologias. “Nesse contexto de angústia, incerteza, muita aprendizagem e com uma quantidade de trabalho aumentada, o apoio dos colegas docentes foi fundamental. Certamente conseguimos passar por esse momento com o mínimo necessário de saúde emocional por causa da rede de suporte que se formou”, ressalta.

Katiele acredita, porém, que todos os profissionais da educação estejam cientes das perdas que os alunos sofreram com essa distância física do ambiente escolar, mas, ainda assim, tem clareza de que todos fizeram o melhor possível.

E com a retomada das atividades, uma lição que fica, é em torno da importância do papel dos educadores. “Esse período demonstrou que nenhum professor poderá ser substituído pelo google e que as relações pessoais criadas no ambiente escolar, a interação e o vínculo têm tanto valor e importância na vida dos seres que convivem nesse ambiente quanto os conteúdos ensinados”, avalia. E a experiência das aulas remotas e no formato online, em sua opinião, tornou as aulas no formato presencial ainda mais interativas e dinâmicas, pois muitos dos recursos que usava virtualmente foram adaptados para o formato presencial.

Sempre haverá espaço para o docente

“Em relação ao futuro, se alguém questionava a necessidade de professores, acredito que, após as experiências vividas em função da pandemia, esse alguém não duvide mais. Nós, professores, somos dotados de habilidades e importância que nem mesmo lembrávamos ter. Podemos fazer a diferença na vida de muitas pessoas.” E para acompanhar todas as mudanças e o ritmo acelerado, ela acredita que a escola precisa continuar evoluindo. “Imagino novos recursos, obviamente tecnológicos, sendo empregados nas escolas, visando também a uma formação mais adequada para os sujeitos lidarem com a tecnologia à qual estão expostos.”

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Sobre o papel dos educadores, ela cita um artigo que leu apontando a tendência de o professor se tornar ‘invisível’, não em um sentido negativo, mas com a intenção de mediar o contato entre o aluno e o conteúdo/mundo de modo que sua interferência não seja tão percebida e, assim, o aluno sinta-se mais responsável pelo processo. “É algo que me parece fazer sentido, pois há algum tempo se fala da importância do protagonismo do aluno no processo de aprendizagem. No entanto, o fato de o professor ‘aparecer’ menos não significa que ele estará ausente. Pelo contrário, para viabilizar tal invisibilidade é preciso muito planejamento e organização”, avalia Katiele.

“Para mim, o aluno é como ‘combustível’ para o professor. São as mudanças na vida dele que criam demandas em relação a minha prática, a evolução e o crescimento dele me desafiam a inovar e a continuar estudando para que esse processo aconteça da melhor forma possível, com eficiência, prazer e entusiasmo.”

Katiele Naiara Hirsch

Uma vida para ensinar

por Marisa Lorenzoni

O magistério passou a fazer parte do cotidiano de Pamella Tucunduva da Silva, 36 anos, desde muito cedo. Professora de Português para os anos finais do Ensino Fundamental da escola Educar-se e de redação voltada ao Enem em uma oficina promovida para o Ensino Médio, pela própria escola, ela vem de uma família de muitas professoras, inclusive a mãe, uma tia, suas primas e a irmã. Além disso, o marido, que é filho de professores aposentados, também exerce a mesma profissão.

“Lembro que, quando minhas amiguinhas iam à minha casa para brincar, o faz-de-conta era sempre uma escolinha onde eu era a professora que ensinava gramática e cálculos. A brincadeira ficava séria conforme iam percebendo que eu tinha boa didática. Logo, minhas aulas de mentirinha se transformaram em aulas de reforço de verdade, e era comum ter algum colega na minha casa para que eu ensinasse o conteúdo.”

Pamella relembra o quanto se sentia realizada ao notar que as pessoas entendiam quando explicava. “Quando percebemos que somos bons em algo, recebemos elogios por isso e fazemos os outros felizes, investimos nessa habilidade. E assim foi para mim. Eu queria estar na sala de aula para ajudar os estudantes a serem seres humanos melhores, para contribuir apontando caminhos que os tornassem mais confiantes em seus processos de aprendizagem, auxiliá-los a desenvolverem autonomia. Ações como essas sempre contribuíram para meu próprio desenvolvimento pessoal e espiritual. Lecionar é essa troca na qual fazemos evoluir uns aos outros”.

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Pamella é natural do Rio de Janeiro, mas teve criação em São Paulo até os 13 anos de idade, quando sua família se mudou para Venâncio Aires em função do trabalho do pai. Lá morou até maio de 2020, quando veio a Santa Cruz, porque o esposo já vivia aqui e também para ficar mais perto da escola. Além do fato de, segundo diz, adorar a cidade. “Sempre tive um pé no município, desde 2004, quando iniciei os estudos na Unisc. Desde então, foram muitas viagens intermunicipais até a mudança definitiva”, afirma.

Para ela, o papel do professor sempre foi desafiador. “Lidar com outras vidas, ainda em estágios tão iniciais de amadurecimento, não é simples. Com isso, o seu papel é ser um estudioso dos livros e também da alma humana. Ele deve estar constantemente atento ao seu entorno, a fim de promover momentos de ensino e aprendizagens que façam sentido para si e para o outro”, ressalta. Pamella acredita que o educador deve também ter muita perspicácia e sensibilidade, pois é necessário compreender os diferentes tempos e modos de aprender, descobrindo metodologias e planejamentos que contemplem e valorizem a diversidade.

“Ser professora, para mim, é ser mediadora de processos que proporcionem experiências de ser, estar e interagir no mundo, com o mundo e consigo mesmo. Para mim, é ser facilitadora na oportunização de vivências e aprendizagens significativas. É sentir desejo de fazer isso tudo, constantemente me desafiando a encontrar maneiras de (re)pensar a educação. Acima de tudo, ser professora é acreditar que a escola é um espaço potencializador, capaz de transformar e fazer transcender os sujeitos que passam por ela.”

Pamella Tucunduva da Silva
Pamella Tucunduva da Silva, 36 anos, vem de uma família de muitas professoras

Capacidade de se adaptar

Segundo Pamella, em tempos de pandemia, o professor tem se mostrado um alquimista, um malabarista, um equilibrista. Ele tem sido um profissional que interage com as mais diversas ferramentas e metodologias de ensino; que lida com aulas remotas, reuniões em plataformas audiovisuais e formações por meio de lives; que tenta manter em equilíbrio o emocional e o racional, em meio a planejamentos e adaptações.

“O professor tem se mostrado um verdadeiro acrobata, executando seu trabalho com destreza, sagacidade e criatividade. Em tempos de pandemia, ele tem atuado num teatro cuja plateia está lotada e sedenta por performances. E esse professor promove espetáculos, faz bonito, faz o possível. Merece, portanto, muitos, inúmeros, infinitos aplausos e ovações. Merece, sobretudo, valorização”, finaliza.

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