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Educação financeira nas escolas

Foto: Freepik.com

Causou grande repercussão e muita polêmica o comentário da deputada estadual, Luciana Genro (PSol-RS), para justificar o voto contra o projeto de lei que prevê a inclusão de educação financeira em escolas do Rio Grande do Sul. O PL 231/2015 foi aprovado, pela Assembleia Legislativa- RS, no dia 7 deste mês, com 24 votos favoráveis e seis contrários, um deles de Luciana Genro. O texto obriga a inclusão de educação financeira em propostas pedagógicas de escolas públicas e privadas, do ensino fundamental e médio do Rio Grande do Sul – o que, aliás, já está inserido na Base Nacional Comum Circular (BNCC), desde 2020, como tema transversal que precisa ser abordado nas instituições de ensino. Trata-se de um projeto do Pós-doutor em Educação Financeira, Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educação Financeira (ABEFIN), contando com o apoio do deputado federal Arnaldo Faria de Sá, e que foi aprovado pelo MEC.

Talvez pela condição de militância de esquerda, a deputada foi detonada, praticamente, de norte a sul do país, principalmente por determinada ala política. Até o filho 03 de Bolsonaro – Eduardo Bolsonaro, conhecido também por “Bananinha” – teria “retuitado” o comentário da deputada Luciana, conforme ela fala em live de 14 de junho. Nessa live, a deputada diz claramente que não é contra a educação financeira nas escolas, mas acha o PL, aprovado pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, um despropósito, porque

  1. as escolas teriam autonomia e, portanto, não precisariam de determinação ou autorização da Assembleia para incluir o tema nas grades curriculares; e
  2. o estado de muitas escolas estaduais do Rio Grande do Sul é precário, assim como a situação financeira difícil de muitos professores e funcionários e, não menos importante, a pobreza de milhares de alunos.

Diz a deputada que seria constrangedor para o professor e professora falar sobre como melhor conduzir as finanças se algumas escolas estão caindo aos pedaços, falta água potável, não tem banheiros; se os alunos não tem o que comer em casa; e se eles mesmos, os mestres, estão com salários defasados e enrolados em dívidas.

Mas, independentemente dos argumentos da deputada Luciana Genro, alguns baseados em fatos incontestáveis, o resultado positivo de experiências privadas, implantadas pela DSOP Educação Financeira, por exemplo, há vários anos e em mais de mil educandários do Brasil, não deixam dúvidas sobre a necessidade de incluir-se a educação financeira nas escolas. As respectivas famílias notam os resultados, com as crianças e jovens envolvidos participando das discussões relacionadas às finanças familiares e ajudando os pais a fazerem compras conscientes.

Pesquisas sobre educação financeira publicadas nos últimos anos buscam identificar a validade desses programas e, principalmente, se a educação financeira realmente funciona. Thiago Godoy, head de educação financeira da XP Inc e especialista em psicologia do dinheiro e bem estar financeiro, publicou, em 19 de novembro de 2020, o artigo “A Educação Financeira funciona?”. Nesse artigo, o autor cita o estudo da dra. Annamaria Lusardi, diretora do Centro de Letramento Financeiro da George Washington University (GFLEC), dos EUA, que constatou que:

  • Há evidências claras de que a educação financeira não só afeta o conhecimento financeiro como, também, o comportamento financeiro;
  • A educação financeira faz diferença na vida das pessoas;
  • Diferente de outras matérias que em pouco tempo são esquecidas, o aprendizado da educação financeira é levado pela criança e pelo jovem para a vida adulta.

Parece que a deputada Luciana erra ao achar que, devido aos problemas existentes nas escolas, não se deveria incluir a educação financeira na grade curricular. Na verdade, ela e muita gente, talvez até a deputada que propôs o projeto de lei, confundem educação financeira com finanças pessoais, área que abrange questões puramente técnicas, como saber fazer cálculos básicos, cotar preços, elaborar um orçamento, anotar pagamentos e receitas, preencher planilhas, conhecer produtos financeiros e estratégias de investimento, evitar o endividamento. É o que contempla, em resumo, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que de fine a Educação Financeira como “o processo mediante o qual os indivíduos e as sociedades melhoram a sua compreensão em relação aos conceitos e produtos financeiros, de maneira que, com informação, formação e orientação, possam desenvolver os valores e as competências necessárias para se tornarem mais conscientes das oportunidades e riscos nele envolvidos e, então, poderem fazer escolhas bem informadas, saber onde procurar ajuda e adotar outras que melhorem o bem-estar”.

Na definição da OCDE, faltou um componente que está sendo, cada vez mais, pesquisado por estudiosos, principalmente da área da psicologia. Morgan Housel, por exemplo, autor do best seller internacional A Psicologia Financeira, defende como premissa do livro que o sucesso financeiro tem menos a ver com a inteligência e muito mais com o comportamento. Diz ele que um gênio que não consegue controlar as suas emoções pode se tornar um desastre financeiro, enquanto pessoas comuns, sem nenhum ou pouco conhecimento de técnicas são capazes de conquistar riqueza desde que tenham uma meia dúzia de habilidades comportamentais. Reinaldo Domingos vai nessa mesma linha quando define Educação Financeira como “uma ciência humana que busca a autonomia financeira, fundamentada por uma metodologia baseada no comportamento, com o objetivo de construir um modelo mental que promova a sustentabilidade, crie hábitos saudáveis e proporcione o equilíbrio entre o SER, o FAZER, o TER e o MANTER, com escolhas conscientes para realização de necessidades e sonhos”.

Portanto, o conhecimento técnico é importante, mas o comportamento é fundamental e quanto mais cedo for incorporado – saber fazer escolhas, adquirir o equilíbrio entre necessidades, desejos e sonhos -, ele será praticado no desenvolvimento cognitivo vida afora. Qualquer hábito prejudicial – impulsividade e impaciência, pagar contas com atraso, uso excessivo do cartão de crédito, poupar apenas se e quando sobrar, pensar apenas no hoje, etc – pode derrubar o melhor planejamento financeiro.

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