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ELENOR SCHNEIDER

Em busca da terra prometida

Santa Cruz do Sul está lembrando os 172 anos da chegada dos primeiros imigrantes alemães, fato ocorrido em 19 de dezembro de 1849. Recentemente li dois livros que falam de imigração. O primeiro foi A imigração suíça no Brasil (1819-1823), relato feito por integrante do grupo, Joseph Hecht. O texto foi traduzido pelo pastor Armindo Müller, que o fez chegar a mim pelas mãos de um amigo comum, Nestor Raschen. O segundo foi Cartas de imigrantes, reunidas e comentadas por Roger Stoltz e que me foi alcançado pela amiga Sílvia Limberger.

Os suíços chegaram ao Rio de Janeiro em 1819, agenciados por Sebastian Niklaus Gachet. O Brasil precisava se povoar, na Europa havia miséria e fome. Em propaganda atraente, Gachet seduziu centenas de pessoas, todas em busca de uma vida mais digna. O grupo foi encaminhado para Nova Friburgo (homenagem a Friburgo, cantão suíço de onde a maioria provinha). Com terras, algumas ferramentas, sementes e poucos animais doados, passaram a enfrentar as mais inóspitas condições. As famílias ficavam distantes umas das outras, sem assistência médica, religiosa, sem escola, não suportaram as condições e acabaram descendo para as terras baixas do Rio de Janeiro.

Havia muitos escravos negros e os imigrantes observavam a cena e mantinham contato. Hecht descreve inconformado e contristado sobre o tratamento que lhes era conferido. Uma indignidade incompreensível, embora tudo considerado normal para a época. Boa parte do livro enfoca essa questão.

As cartas que Roger Stoltz reuniu são de imigrantes alemães, italianos e poloneses, estes chegados já próximo do final do século XIX. Os primeiros ocuparam as regiões mais baixas do Rio Grande do Sul, os vales. Os italianos já tiveram que subir a serra, enquanto os poloneses, vindos bem mais tarde, foram encaminhados a São Marcos. Devido às péssimas condições, deixaram o local e partiram para a região de Erechim. Outros vieram para a região de Dom Feliciano e Amaral Ferrador, cujas terras também consideravam pobres para a agricultura.

Não cabem nestas poucas linhas longas considerações sobre o conteúdo das duas obras. No entanto, como leitor, me restam algumas imagens e impressões muito fortes. A primeira remete às cenas de despedida. Os imigrantes sabiam que talvez nunca mais veriam seus entes queridos. Mesmo tomados de sonhos, fantasias e esperança, sentiram a dor da partida.

A segunda diz respeito à viagem em si. Empilhados em navios, passaram pelas mais duras provações. Conviviam com má alimentação, superlotação, péssimas acomodações, enjoos, infestação de piolhos, falta de higiene, doenças, mortes. Os corpos arremessados ao mar passam uma imagem dolorosa. As primeiras travessias chegaram a durar três meses, ocasionando uma monotonia sem limite de firmamento azul e água sem fim.

A terceira revela o choque do sonho com a realidade. Com enxada, machado e sementes, olhavam para as matas cerradas, onde era necessário instalar uma palhoça, abrir clareiras e lutar pela sobrevivência. Com vizinhos distantes, era necessário conviver com o silêncio e a solidão, que também se impunha pelo desconhecimento da língua desse sonhado reino de Canaã, dessa desejada terra prometida. Mesmo vindos sob certa livre vontade, os imigrantes sofreram igualmente a dor da pátria perdida, ainda que algumas cartas revelem grande encantamento, apenas para acalmar os corações de quem ficou para trás.

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