Ao longo do século 19 e no começo do século 20, inúmeros viajantes, muitos deles germânicos, percorreram as colônias formadas com europeus no Sul do Brasil. Entre os destinos, o interior do Rio Grande do Sul e, nele, Santa Cruz. Por aqui estiveram, entre outros, Robert Avé-Lallemant, Jakob Johann von Tschudi, Hermann von Ihering, Wilhelm Breitenbach, Friedrich Gerstäcker, Heinrich Traschler, Robert Jannasch, Moritz Schanz, Karl Grube, Henry Lange, Joseph Hörmeyer, Oskar Canstatt e Alfred Funke. Alguns em passagem breve; outros, tendo morado e atuado profissionalmente por aqui. Todos, sem exceção, deixaram relatos impressos sobre sua temporada brasileira.

Pois em pleno século 21 mais um europeu juntou-se a esse grupo e registrou em livro seu olhar sobre essa distante terra no Sul da América. O alemão Henning Fülbier desembarcou em Porto Alegre em 2003 para assumir a função de consultor/inspetor para o ensino de língua alemã em escolas e entidades. O que prometia ser uma curta temporada transformou-se em estada de nove anos. Quando enfim retornou à Alemanha, fixou-se em Berlim. Lá, em 2014, compartilhou volume bilíngue, alemão e português, no qual passa a limpo, em estilo descontraído, suas vivências brasileiras.
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Lächle, Brasilien! Du wirst gerade gefilmt, ou, na tradução, Sorria, Brasil! Você está sendo filmado compreende a descrição de suas “aventuras à beira do cotidiano”, como as denomina. Em 227 páginas, Fülbier honra o clássico método alemão de fazer apontamentos minuciosos de tudo aquilo que o viajante vê, conhece, prova e experiência. E com um olhar sempre curioso e crítico na medida certa para saber cotejar culturas e modos de ser e de viver. Sem julgamentos, sem pré-conceitos, mas com a devida menção aos contrastes do cotidiano.
E o que Santa Cruz do Sul e a região têm a ver com isso? Muita coisa. A começar pelo fato de que, em sua temporada gaúcha, de 2003 a 2012, estabeleceu contato com cidadãos locais. Por exemplo, com a professora e escritora Lissi Bender, colunista da Gazeta do Sul. Foi a partir desse convívio que, em nova passagem pelo Estado, no começo deste ano, Fülbier visitou Santa Cruz. Em parceria com Lissi, participou de noite cultural na Sala Lya Luft do Colégio Mauá, no dia 11 de fevereiro, ocasião em que ambos, Lissi e Fülbier, debateram temas comuns de sua caminhada de formação e atuação profissional. A atividade trouxe à cidade, entre outros, o cônsul-geral da Alemanha, Marc Bogdahn, num reconhecimento da relevância dos personagens envolvidos.
Natural de Stuttgart, de uma família que deixara a Silésia, no Leste, ao final da Segunda Guerra Mundial, Henning Fülbier fixou-se em Berlim. No começo deste século, decidiu se candidatar a um posto como coordenador de ensino de alemão na Romênia, de cuja vaga ficara sabendo. Não era nem perto, nem longe demais, de maneira que teria a experiência de uma atuação no exterior, mas com a comodidade de manter o contato próximo com o seu país. Acabou não obtendo aquele cargo, mas de quebra veio outra proposta: que tal assumir função similar em Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul, o estado mais ao Sul do Brasil?
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Era uma terra sobre a qual, até aquele momento, praticamente nada sabia. Antes de tomar uma decisão, como relata em Lächle, Brasilien! Du wirst gerade gefilmt/Sorria, Brasil! Você está sendo filmado, optou por viajar ao menos por alguns dias para essa cidade, de maneira a ter impressões mais realistas. Hospedado em apartamento na sede do Instituto Goethe, no Bairro Moinhos de Vento, mergulha em uma cultura que, se por um lado é muito exótica, por outro revela gradativamente um impressionante substrato germânico, na forma da língua, ainda preservada, em maior ou menor grau, em dezenas de localidades, e de inúmeros outros legados sociais, econômicos, culturais.
Poucos dias depois, em 13 de fevereiro de 2003, como menciona, começava nova etapa em sua vida, estabelecido em Porto Alegre. Uma fase que estenderia por nada menos do que nove anos, até 2012, e que contemplava os dois primeiros governos de Lula, com forte projeção da imagem do Brasil para o mundo.
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O título do livro, que escreveu após a conclusão de sua jornada brasileira e lançou em 2014, já novamente em Berlim, remete a algo que o impressiona: a tendência corrente no Brasil de fixar placas em diferentes ambientes com o lembrete “Sorria, você está sendo filmado”, algo incomum em outras nações. Ela traduz a um tempo a preocupação constante dos brasileiros de monitorar espaços públicos e privados diante da suposta ameaça de roubos, assaltos ou malfeitos, e a forma leve de tratar isso, convidando o público a sorrir para a câmera.
É inspirado nesse mote que Fülbier mira com interesse Porto Alegre, localidades do interior gaúcho, estados vizinhos e diferentes regiões brasileiras, em especial São Paulo (e outras capitais). Com olhar impressivo, “filma” o País e sua cultura. E propõe: “Sorria!” Por sinal, sorriso é um termo recorrente, uma vez que o autor, desde logo, identifica a predisposição dos brasileiros, das mais diversas camadas sociais, a reagirem a tudo (inclusive contratempos ou imprevistos) com um constante e inabalável bom humor.
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Bem, nem tão constante assim. No esporte, por vezes, os atritos são comuns. E também nas estradas, onde a impaciência (e uma contumaz predisposição a ignorar ou infringir regras de trânsito) é uma marca registrada. Também na educação e nas situações em que se medem com estatísticas ou desempenhos de outras nações os brasileiros, constata Fülbier, saltam dos oito aos oitenta: ou se ufanam de suas façanhas, briosos de estarem entre os primeiros, ou se deprimem e frustram a um ponto do desalento, se aparecem mal na foto.
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Em diferentes espaços, o autor identifica os imensos contrastes sociais num país de grandes dimensões que inclui parcela dos mais pobres na classe média ao mesmo tempo em que indigentes se espalham por calçadas e ruas, à margem de qualquer progresso. Um dos efeitos naturais e quase inevitáveis é a insegurança, com a ameaça sempre latente da explosão de violência (assaltos, corrupção, ação de gangues e crime organizado, como a máfia e suas marcas bem visíveis nas grandes capitais).
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A exemplo das peculiaridades apontadas por viajantes europeus em diferentes épocas ao longo dos dois últimos séculos, Fülbier é muito eficiente em flagrar as mais diversas situações e os comportamentos que contrastam entre brasileiros e alemães. Isso envolve as manifestações culturais, o desempenho nas ocupações profissionais, a maior ou menor rigidez ou o relaxamento nas convenções sociais e a expressão da fé e da religiosidade.
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Por conta de sua atuação como inspetor do ensino de língua alemã, movimenta-se tanto por Porto Alegre quanto por médias e pequenas cidades das regiões de colonização germânica no interior. Conversa com profissionais, ouve lideranças, debate com autoridades.
Na atualidade, em sua rotina em Berlim, ocupa-se em seu trabalho como diretor teatral (dramaturgo), além de desenvolver seus projetos literários: ele costuma elaborar e encenar peças teatrais e escrever contos. Dedica-se ainda a gravar comentários para estações de rádio de língua alemã no Brasil, nas quais contribui para estreitar laços em torno da língua e da cultura que irmana os dois povos.
Entrevista exclusiva – Henning Fülbier, escritor alemão
“Contato é a forma mais eficaz de quebrar preconceitos”
- Gazeta do Sul – No último dia 11 de fevereiro o senhor participou de atividade com escritora e professora Lissi Bender, em Santa Cruz do Sul. Daquele encontro, o que mais marcou a memória do senhor? Preciso explicar um pouco. A ideia para esse evento surgiu depois que li o livro Memórias Lissianas, de Lissi Bender. Muito antes da minha viagem ao Brasil, em fevereiro de 2026, planejamos uma leitura conjunta, pois descobrimos que tínhamos muito em comum. Ambos crescemos, na infância e na adolescência, em ambientes culturalmente diferentes dos posteriores (Lissi morou na zona rural de Santa Cruz até começar a estudar e só aprendeu português na escola; minha família fugiu da Silésia alemã, na Alemanha Oriental, sem um tostão, no final da Segunda Guerra Mundial (a Silésia foi transferida para a Polônia), e precisou de muito tempo para se adaptar a seu novo “lar” suábio em Stuttgart!. Essa experiência de sermos “estrangeiros” em termos linguísticos e culturais (Lissi falava alemão e eu falava alemão padrão em meio ao dialeto suábio – meus pais falavam alemão silesiano), essas vivências de nossa infância é que nos conectam. Fiquei muito impressionado com a rapidez com que Lissi organizou um evento como esse. Aconteceu numa época do ano em que muitos brasileiros costumam passar férias na praia, e em meio ao tempo de Carnaval. Mesmo assim, um número surpreendentemente grande de pessoas abertas à cultura alemã se reuniu no Colégio Mauá naquela noite. Figuras importantes estavam presentes e ressaltaram a importância da herança alemã no Rio Grande do Sul. Fiquei impressionado com o interesse e a receptividade do público.
- Foi mais uma visita ao Rio Grande do Sul, onde o senhor residiu por nove anos, entre 2003 e 2012. Com que regularidade o senhor tem retornado ao Estado? Desde que voltei para a Alemanha, em 2012, esta é a minha terceira visita ao Brasil. Durante os nove anos que passei aí, fiz amizades muito queridas. Posso dizer, sem exagero, que o Brasil se tornou um segundo lar para mim. Ao mesmo tempo, tenho um interesse natural por saber como o país está se desenvolvendo política, econômica e culturalmente. Acredito que boa maneira de entender isso é estando aí e através de encontros e conversas pessoais.
- Foi a sua primeira vinda após a enchente de 2024? Como o senhor acompanhou aqueles acontecimentos? Sim, foi minha primeira visita desde as devastadoras enchentes, que acompanhei com grande preocupação pela mídia alemã, especialmente porque um amigo próximo, em Porto Alegre, foi diretamente afetado. Ele teve que deixar sua casa, que ficou inabitável por várias semanas. Durante minha visita, em fevereiro, fiquei feliz em constatar a imensa solidariedade e a disposição para ajudar demonstradas pela população durante as enchentes. Fiquei impressionado com a rapidez com que muitos vestígios do desastre puderam ser removidos, embora nem todos. Por outro lado, estou muito preocupado com o futuro, porque o Rio Grande é uma zona meteorologicamente muito vulnerável e, apesar das mudanças climáticas, muito pouco está sendo feito para evitar outra catástrofe. Muitas pessoas no Brasil ainda vivem nas áreas de captação imediata dos rios. Uma proteção eficaz contra enchentes exigiria investimentos significativamente maiores do que os realizados até agora. Aparentemente, estamos encontrando extrema dificuldade para chegar a conclusões necessárias e apropriadas de desastres passados. Isso não é muito diferente no Brasil do que na Alemanha.
- Como é a rotina do senhor em Berlim? Felizmente, como aposentado, não sou mais obrigado a ter um emprego fixo e posso administrar, em grande medida, meu próprio tempo. É claro que escrevo todos os dias: sobre eventos políticos atuais, mas também sobre observações e encontros cotidianos. Isso geralmente resulta em narrativas e contos, que apresento em saraus e encontros literários em Berlim e outros lugares, juntamente com outros autores. Também estou trabalhando em um romance ambientado em Berlim na época da queda do Muro de Berlim. A música é uma parte importante da minha vida. Não só gosto de ouvir música – clássica, mas também música popular do mundo todo, jazz e pop – como também toco saxofone e violino e, nos últimos anos, acordeão. O teatro sempre foi minha grande paixão. Eu mesmo me envolvia muito com teatro: como ator, diretor e professor de teatro com jovens na escola, com alunos de grupos de teatro independentes e na universidade. Infelizmente, isso praticamente desapareceu nos últimos anos. No entanto, eu continuo sendo um frequentador assíduo de teatro.
- Como o senhor vê hoje os interesses mútuos entre Alemanha e Brasil, e, particularmente, com o Rio Grande do Sul? Como coordenador do ensino de alemão no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, meu foco principal eram o relacionamento cultural e os interesses mútuos entre Alemanha e Brasil, em especial o Rio Grande do Sul. Eles compartilham uma história de mais de 200 anos, além de tradições e valores comuns. O interesse mútuo no intercâmbio cultural entre brasileiros e alemães é muito forte, como evidenciado pelas inúmeras e vibrantes parcerias entre cidades e municípios. O contato pessoal é a maneira mais eficaz para quebrar preconceitos. Embora tenha havido progresso nessas relações, infelizmente também houve retrocessos devido a cortes de verbas. Mesmo assim, a Alemanha apoia o ensino de alemão nas escolas brasileiras há décadas, participa ativamente da formação de professores de alemão e, por meio do Instituto Goethe no Brasil, oferece um centro de intercâmbio cultural e de informações. O mesmo ocorre, por sua vez, com diversas instituições brasileiras na Alemanha.
- Em que medida Rio Grande do Sul (também o Brasil todo) e Alemanha têm a ganhar e a se fortalecer com parcerias? A cooperação existente entre a Alemanha e o Brasil deve ser ampliada e aprofundada, não apenas na esfera cultural, mas também nos campos científico e econômico. Diante do cenário global em rápida transformação e repleto de desafios, que coloca em xeque antigas certezas e alianças, isso se torna urgente. Vejo um grande potencial que ainda não está sendo suficientemente explorado (por exemplo, liberdade de circulação; reconhecimento mútuo de qualificações educacionais e profissionais; promoção de intercâmbio no campo acadêmico etc).
- Em termos culturais e de educação, que impressões o senhor teve dos gaúchos? Ao longo dos nove anos em que atuei como consultor para o ensino do idioma, visitei um grande número de escolas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e conheci muitos professores extremamente dedicados. Mesmo naquela época, o alemão, como língua estrangeira, enfrentava forte concorrência do inglês e do espanhol. No entanto, em muitos municípios, também encontrei pessoas voltadas para políticas educacionais com visão de futuro, que se perguntavam se e como o alemão poderia ser usado para alcançar objetivos. É claro que razões históricas e nostálgicas às vezes desempenhavam um papel, mas, cada vez mais, considerações econômicas também entravam em jogo: como promover o turismo ou melhorar as oportunidades de cooperação com empresas alemãs ou negócios agrícolas?
- Como o alemão poderia contribuir para uma melhor formação profissional? Na minha época, ainda existiam diferenças significativas no sistema educacional entre escolas particulares, estaduais e municipais. Claro que não posso mais avaliar como isso está hoje.
- Como foi sua relação com Santa Cruz e que lembranças essa região deixou? Visitei Santa Cruz diversas vezes como consultor e coordenador. Fiquei fascinado com a presença marcante da imigração alemã na paisagem urbana, com a quantidade de empresários e empresas que ostentam nomes alemães ou fazem referência às suas tradições alemãs. Em um evento na livraria Iluminura, li alguns capítulos do meu livro Sorria, Brasil! Você está sendo filmado, e a reação do público foi surpreendentemente positiva. O alemão tem uma longa história no Colégio Mauá e, durante minha visita, os professores demonstravam de forma impressionante o esforço que dedicam para envolver e motivar seus alunos na “difícil língua alemã” e na cultura alemã de diversas maneiras.
- Quando o senhor é questionado na Alemanha sobre o Brasil, o que perguntam? Infelizmente, muitos preconceitos e estereótipos sobre o Brasil circulam por aí. Isso também se reflete nas perguntas que me são feitas. Para alguns alemães que nunca estiveram aí, o Brasil é sinônimo de Carnaval, futebol, Copacabana, caipirinha e criminalidade. É preciso paciência para dissipar esses preconceitos e explicar a vivacidade, a diversidade, a variedade, a complexidade e a riqueza deste país, sua sociedade e sua diversidade cultural.
- Como se informa sobre o Brasil hoje? Obtenho minhas informações sobre o Brasil por meio das redes sociais, de um jornal diário de Berlim, da revista semanal Der Spiegel e, claro, da televisão e do cinema. Em Berlim, se você procurar, encontrará uma ampla gama de informações disponíveis. Também me informo por meio dos inúmeros eventos organizados pela Sociedade Alemã-Brasileira e sua revista Tópicos. Outra fonte importante é, obviamente, a troca de informações com amigos que moram no Brasil. Infelizmente, a representação do Brasil na mídia alemã (não noto isso na mídia europeia) é muito escassa, frequentemente superficial e unilateral, focando eventos sensacionalistas, como desastres e crimes. É preciso se esforçar para buscar uma perspectiva mais matizada.
- Que recado o senhor enviaria à comunidade de Santa Cruz? Gostaria de citar o poeta Goethe: “O que você herdou de seus pais, adquira para possuir” (“Was du ererbt von deinen Vätern hast, erwirb es, um es zu besitzen“). Esse patrimônio linguístico e cultural é um grande tesouro, e o povo do sul do Brasil deve se orgulhar dele, tratá-lo com cuidado e valorizá-lo.
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