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LUÍS FERNANDO FERREIRA

Eu não sei de nada

Informações vindas de todos os lados a todo instante, verdadeiras ou não. Redes sociais e mídias que exigem atenção e posicionamentos sobre qualquer tema, importante ou não. Achismos compartilhados como fatos. Vivemos em um redemoinho barulhento, dentro do qual somos chamados a firmar certezas sobre tópicos intermináveis. Mas você se sente seguro e confiante para dar a palavra final sempre? Sabe o necessário para se agarrar a uma opinião e transformá-la em verdade pessoal, a ponto de defendê-la, se possível, a tapas e chutes? Mesmo se estiver errado? Bem, eu não, eu não sei de nada.

A realidade é complicada e falta tempo para pensar em tudo, mas há uma urgência constante em “dizer algo”. Para se orientar no labirinto, alguns preferem evitar dúvidas e adotam a constância das pedras: abraçam certa ideia sem reservas e nada no mundo será capaz de mudar essa convicção. O risco, claro, é o de se tornar um fanático – alguém “duro, irrazoável, incorrigível, sem brandura, um eterno desconfiado, um inescrupuloso, que emprega todos os meios para impor sua opinião, por ser incapaz de compreender que têm de existir outras opiniões”, nas palavras do filósofo Nietzsche em Humano, demasiado humano.

É sabido que a adesão cega pode fazer alguém enxergar até o que não existe. O escritor norte-americano Arthur Miller mostrou isso no romance Focus, publicado em 1945. No auge da Segunda Guerra, em um bairro de classe média em Nova York, Lawrence Newman convive com as ações de um grupo racista que persegue moradores judeus e latinos na vizinhança. Sujeito pacato, tenta manter boa relação com todos, sem se envolver em problemas. Um dia, por necessidade, começa a usar óculos de grau no escritório. Quase imediatamente, colegas e o chefe começam a se afastar dele; poucos dias depois, comunicam sua demissão.

O motivo é que os óculos deixaram Lawrence com “aparência de judeu”, mesmo que ele seja cristão e descendente de ingleses. Mas não importa, seus superiores não o querem mais. E é só o começo. Ao procurar por um novo emprego, é rejeitado por ser visto como judeu, os vizinhos passam a estranhá-lo e nem a mãe de Lawrence consegue olhar para a cara dele. Logo, será alvo das mesmas violências às quais assistia e esquecia minutos depois. Não há racionalidade nenhuma no que acontece. Lawrence é um judeu porque a comunidade racista onde ele vive decidiu assim. E ninguém tem a menor dúvida a respeito.

E se começassem a nos enxergar pelo que não somos e nos atacassem? Essa questão mantém a atualidade de Focus. Só uma convicção fanática, à prova de argumentos, razão e lógica, pode produzir uma cegueira como a descrita por Miller. Cegueira sem brandura, incorrigível, característica dos que tudo sabem, estão sempre do lado certo e só veem inimigos no lado errado. Então, se me perguntarem, eu não sei. E tenho certo medo de quem sabe.

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